Gioacchino Rossini em Porto Alegre: “Gioa e Pace “

Gioacchino Rossini em Porto Alegre: “Gioa e Pace “

O gênero alegre, popular, música leve, agradável de Rossini chega a Porto Alegre. Sua ópera mais conhecida será apresentada após várias temporadas de ausência.

Durante vários anos era o meu objetivo, procurado de modo insistente pelos teatros da Europa.

Quando em viagem, nem sempre chegamos na época das temporadas líricas ou a peça disponível não é a nossa preferida e, na maioria das vezes, não existem mais ingressos acessíveis. Mesmo no câmbio negro não se consegue o cobiçado tíquete.

Neste ano, o roteiro marcava Paris, Milão e Torino. O que seria possível apreciar? Qual seria o programa disponível nos dias de permanência naquelas cidades: ópera, balé ou sinfônica?

Para Milão, o programa, imperdível, levava ao Teatro Scala. Plácido Domingos, agora como barítono, interpretando o Dodge de Genova em Simão Boca Negra de Verdi, era o “must”.

Uma dificuldade obter os bilhetes. A procura era maior do que a disponibilidade. Talvez fosse um dos últimos trabalhos do grande tenor, razão de tanta demanda. Os preços sobem as alturas, os patrocinadores do espetáculo recebem a maioria o os melhores lugares. A luta valeu o espetáculo, deslumbrante.

O que estaria disponível em Paris e Torino? Pode parecer improvável, mas nas datas de passagem pelas duas cidades, a única possibilidade era: “O Barbeiro de Sevilla”.

Em menos de três meses, algo impensável, a possibilidade de assistir três montagens totalmente diferentes. Como se sairia Porto Alegre? Ouvir “Gioa e Pace” novamente?

Na Europa e nos Estados Unidos, as dimensões dos palcos permitem apresentações com grandes cenários e a disposição de coros com elevado número de figurantes, além disso, os artistas disponíveis, em grande número, surpreendem pela qualidade artística das vozes e das performances.

No Opera Bastille, em Paris, a tradição francesa apresenta montagens mais modernas, onde a movimentação dos figurinos é feita com cenários gigantescos, móveis, permitindo a alteração rápida das cenas, das cores de cada ato. Fígaro era performado por Dalibor Jenis e a direção era de Bruno Campanela.

No Teatro Regio de Torino, a tradição italiana fica mais próxima das montagens clássicas: o desenrolar da peça se dá dentro de parâmetros estabelecidos há centena de anos.

Após a estréia em 1816, quando acidente com os instrumentos levou à predominância das vaias e das risadas ofensivas, o sucesso foi uma constante. Talvez seja a opera bufa mais difundida, com introdução, arias e duetos reconhecidos por todos. Vitório Borelli era o regente e o Fígaro era de responsabilidade da voz de Roberto Cândia.

No Brasil com palcos menores, as montagens são mais pobres e os nossos artistas não possuem as mesmas qualidades de voz. Na maioria são quase amadores, suplicando apoio e patrocinadores.

Na montagem feita pelo Maestro John Noschiling, tendo em vista a necessidade de se tornar mais popular o espetáculo, para reduzir custos, não existe coro e os cenários serão substituídos pela projeção de desenhos animados.

Apresentação pioneira, revolucionária. Procurando nova platéia, principalmente entre os jovens, a apresentação dos sete atores é intercalada com elementos visuais que interagem com o público; os personagens são revelados ou associados pelas projeções; desenhos animados na ópera substituem os cenários.

Como ópera bufa, Barbeiro de Sevilha se presta para a moderna representação, mesmo com exageros na sátira, nos trejeitos e nas roupas dos atores, a direção de Yoram David, comandando os mínimos detalhes, cantando junto com os atores, chega ao final com imenso e diferente sucesso. Gioa e Pace chegaram a Porto Alegre.

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