Karlovy Vari – Um spa imperial

Karlovy Vary – Um spa imperial


Pela madrugada saímos de Praga; na memória ainda tínhamos as imagens dos espetáculos do teatro de luz negra, onde todos os fantasmas representativos da alma da cidade aparecem. Mesmo sem falas conseguem uma comunicação visual única com o mundo. O objetivo era Karlovy Vary, a antiga Carlsbad alemã. No caminho imensas plantações de lúpulo, o item responsável pela qualidade e caráter diferenciado, mesmo inigualável, da cerveja da Boêmia. Uma parada para conhecer a cervejaria Krosovice; provar a bebida real era preciso. As fontes termais da região foram descobertas pelo imperador Carlos IV em 1571. As propriedades medicinais das águas foram importantes na cura de crônicas feridasem pernas imperiais. Com o tempo verificou-se a importância do tratamento com banhos na cura de doenças como: diabetes, obesidade, desordens do aparelho digestivo, gota, doenças peridontais e problemas de metabolismo. Seriam as fontes da juventude eterna?


Estações balneárias e spas de luxo são implementados. Através de dois arquitetos de Viena —Ferdinand Fellner e Herman Helmer— , cujos trabalhos podem ser apreciados até hoje, a cidade adquire um caráter especial, agradável. Os trabalhos incluíram a remodelação do Hotel Pupp, nome famoso em todo o mundo hoteleiro e que foi estrela de filme de Hollywood — As férias da minha vida. Reveja a história de negra americana— Queen Latifah — que, tendo recebido diagnóstico médico não lhe dando mais de 30 dias de vida, resolve passar aqui como milionária, os seus últimos dias.


Karlsbad sempre atraia as cabeças coroadas de toda a Europa: Pedro I da Rússia, Eduardo VII da Inglaterra, Francisco José imperador da Áustria, até mesmo D. Pedro II, imperadordo Brasil, é citado nos anais. Apenas não foi possível identificar em que hotel nosso monarca se hospedou. As águas alcalinas, gosto enjoativo para o meu paladar, possuíam fama de proporcionar longevidade e melhores condições de vida. Todos os grandes escritores, os poetas, os músicos, filósofos e personalidades do momento, sabiam encontrar os caminhos da Boêmia: Bach, Mozard, Litz, Chateaubriant, Leibnitz, Chopin, Strauss, Giacomo Casanova, Metternich e Pagani. Goethe, nos últimos anos de vida, após o tratamento tradicional, revigorado, queria casar com uma jovem de 15 anos; segundo muitos, neta de uma das suas primeiras amantes. Sua oferta foi recusada sem muitas desculpas. A região possui fábrica de porcelana e de artigos de cristal: Moser e Swaroski. As tentações enchem as vitrines das lojas de grife e de alto luxo, pois spas e a fama das fontes da eterna juventude atraem milionários e turistas curiosos.


Os restaurantes e os cafés do Hotel Pupp, bem como o cassino, são atrações para bolsos bem fornidos, para os que chegam para assistir o Festival Internacional de Cinema. Nas pausas para descansar experimente o licor de ervas, receita local, secreta. O Becherovka pode acompanhar outra especialidade típica: wafers especiais, no formato de hóstias. Usando as águas medicinais, receita do ano de 1640, fazem parte do tratamento como complemento alimentar. Na verdade, é preferível experimentá-la com sorvetes e champanhe. Cafés, chás e licores também fazem bom acompanhamento. Na República Checa, agora separada da Eslovâquia, aparece um personagem bizarro, mas que faz parte do cotidiano folclórico da cidade. Antigo soldado, Josef Svejk, mutilado de guerra, pelo caráter, peloteor e humor das suas observações,pelas expressões faciais, é companheiro sempre citado nas conversas de bares e cafés. Sabia como ninguém ridicularizar os superiores. Ainda rio das piadas contadas pelo meu “fuhrer” — guia.


Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Onde Estão os Dinossauros?’
Editora AGE

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