Os Campos ardentes de Sulfatara

Os campos ardentes de Sulfatara — Terra do enxofre e do diabo


Homero e Virgílio cantaram odes sobre a região de Pozzuello. Na entrada do golfo de Nápoles, em Miseno a armada romana, responsável pela proteção das rotas comerciais do Mediterrâneo, tinha seu abrigo. Daqui o Almirante Plínio, o velho, partiu em socorro de Pompéia. No entanto, como era asmático não sobreviveu ao efeito dos gases lançados pelo Vesúvio. Plínio, o jovem, seu sobrinho, coube a tarefa de contar o episódio, era o primeiro relato de uma erupção. A primeira história de terror. Sibila, sacerdotisa de Apolo era venerada em caverna próxima de Sulfatara, santuário onde profecias eram solicitadas pelos poderosos. Não se ia para guerra sem a palavra da deusa, mas ela exigia tributos. Dispendiosos.


Ulisses em sua navegação épica também passou por aqui deixando mais lendas que queremos descobrir. Por todo lado surgem vestígios do poder de Roma, muitos agora submersos, pois movimentos sísmicos alteraram cotas e o perfil da costa. A paisagem de agora é distinta da dos olhos de outrora; é importante considerar esses fatos quando se segue a História e se tenta compreender o passado. Região de grande atividade vulcânica, crateras de vulcões extintos ainda são perceptíveis. O cheiro do enxofre ainda se faz presente e lembra o poder que o solo esconde.


Em Sulfatara é possível caminhar pela cratera do vulcão; único em atividade, o passeio permite ver e sentir fenômenos do vulcanismo. Fumarolas saem de fendas do solo e gases dificultam a respiração. O calor emana do solo, as pedras superaquecidas provocam sensações desagradáveis. Pequenas crateras vomitam lavas de cores avermelhadas, numa temperatura de 160° C. O interessante foi constatar a existência de algas, desenvolvendo-se em condições tão

adversas. Por toda a parte resíduos, pedras solidificadas e lagos de lama. Poços antigos, e mesmo instalações de sauna ainda são visíveis. Laboratórios que monitoram as atividades do magma medem o nível do solo e poderão expedir avisos antes das catástrofes. Será que teremos tempo de escapar? Foi nessa região que São Genaro, santo protetor de Nápoles teve seu martírio em 305 d.C.. É importante mencionar que os romanos sabiam conviver e utilizavam com eficiência a energia dos vulcões. Além do aproveitamento das jazidas de enxofre, das águas quentes, do calor, até os vapores e os gases eram empregados em saunas e no tratamento de doenças respiratórias. Restos do spa estão ao lado.

Mesmo com a possibilidade de erupções, povoados e vilas prosperavam por toda a região alcançando os sopés de Vesúvio. Em 24 de agosto de 79 d.C. ocorreria a surpresa. Algo nunca relatado, um fluxo piroclástico mudaria tudo. Até o perfil do Vesúvio foi alterado. É lindo, fantástico quando surge no amanhecer da baía de Nápoles.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Onde Estão os Dinossauros?’
Editora AGE

Compartilhe