Madre Superiora

Apesar de mulher, de engenheira, não era considerada na primeira mirada pelos subordinados. Ledo engano: os faltosos, em breve, iriam pagar caro pela desatenção.

Não era dada a sorrisos e a brincadeiras. Eficiência, controle de qualidade, selos e estigmas de controle e de produção, a sua visão permanente. Sem discussões.

Detalhes, os menores possíveis, as minúcias das normas, nada era deixado para trás. Numa indústria eletrônica, ela estava com a faca e o queijo na mão. Responsável pelos controles periféricos dos produtos em desenvolvimento e mesmo pela linha de montagem, a palavra final, a intermediária, mesmo as preliminares eram a sua responsabilidade.

Bastava olhar sua face para perceber o furacão que se aproximava. Sem relâmpagos como anuncio, um descuidado iria ser denunciado, esfolado, reformado e depois punido.

As regras eram claras, não era necessário ser bom leitor. Em letras vermelhas, os cartazes estavam por todos os lados; não podiam ser esquecidos. Não havia desculpa.

“Errar é humano, mas não na minha linha de montagens” — dogmas.

Nas inspeções, nas palestras, os erros cometidos, as falhas por relaxamento eram apontados. Todos deviam trabalhar em sintonia. A equipe exigia a colaboração de todos, como mantras, os mandamentos eram repetidos à exaustão.

Um rosário de cotas, de instruções e de procedimentos era dedilhado todas as semanas, a todo o momento.

Os fiéis não precisavam ficar de joelhos, mas a introdução às devoções, às ladainhas, aos ritos de pureza de atos e de fatos não podia ser esquecida. Energia comunitária deveria fluir naquele ambiente. Mesmo uma fábrica exige sequência de rezas permanentes. Os mortais, ali trabalhando, precisam saber das fraquezas do corpo, da necessidade de treinar o espírito, do fortalecimento da alma e da importância das rezas, das súplicas, dos mandamentos e dos desvios de conduta.

As ordens de Madame Iso, apelido carinhoso recebido das más línguas, exigem perfeição no entendimento, nos procedimentos necessários, no planejamento e na obediência às regras rígidas no controle de qualidade exigido. As recomendações, entre cochichos misteriosos, eram passadas como senhas para os novatos, para os estagiários e para os funcionários em estágio probatórios, para todos interessados em permanecerem trabalhando no local.

Suas palavras, como açoite castigavam os pecadores. Sem perdão, sem penitência; não havia purgatório. As portas do inferno estavam escancaradas. Aguardavam outro infeliz, arrependido ou não!

Para os novatos, os iniciantes na jornada, o aviso era seco e rápido.

“Aqui quem não está no time da é em breve outro desempregado”.

Felipe Daiello

Autor de “Palavras ao Vento” e “Onde Estão os Dinossauros?”

Editora AGE

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