Castelos na Dinamarca


País de primeiro nível, a Dinamarca surpreende por avanços sociais, impossíveis de serem clonados em nações de terceiro mundo. Os elevados impostos, recolhidos por todos, são redistribuídos de maneira idêntica: previdência, saúde e educação. Desde a capital, Copenhagen como ponto de partida, podemos percorrer a costa, seguindo o estreito que a separa da Suécia. Os castelos, surgindo no horizonte, refletem o passado do Reino da Dinamarca. O que havia de errado nessas Terras do Norte? No Estreito de Oresund, a fortaleza-castelo de Kronborg lembra Shakespeare. Em festival internacional, Hamlet, a peça reapresentada aqui todos os anos, recorda o épico do bardo inglês. Apesar de nunca ter visitado o local, baseado em relatos antigos, por encomenda da rainha da Inglaterra, Shakespeare cria uma lenda no teatro mundial. Placa nas paredes de fortaleza registra o evento. A única diferença está na denominação do personagem principal, o nome verdadeiro era Amleth. Um ferry em minutos faz a conexão entre a cidade fronteiriça dos dois países: Helsingor e Helsingborg. Antigos canhões, postados nas duas margens, garantiam que nenhum navio ou mercador passasse sem pagar os elevados tributos. Na época a Suécia fazia parte do Reino da Dinamarca. Outro personagem, Hans Christian Andersen, famoso pelos contos infantis, também é lembrado em praças e monumentos. Considerando-se feio e desajeitado nunca se casou e, talvez por isso, nunca teve casa própria. A pequena sereia, um dos seus personagens principais, em bronze na entrada do porto, registra a arte do escritor. É um dos símbolos de Copenhagen. O monumento ficou conhecido pelos roubos, vandalismo e destruição que ocorreram ao longo do tempo.


Passeios de barco pelos canais, passando por antigos atracadouros, por Nyhavn, local onde no século XVI estava concentrado o comércio marítimo, não podem ser esquecidos. Construção coletiva antiga, destinada aos marinheiros e seus familiares, apresenta além da arquitetura da época um relato pitoresco. Na frente de cada residência, em cerâmica, um pequeno cão indicava pela colocação e posição da cabeça se o dono e senhor estava em casa ou afastado por longos meses, mesmo anos, cruzando os mares como comerciante ou simples marujo. Por sorrisos suspeitos ou exclamações do leitor, poderemos retirar observações curiosas sobre os velhos costumes locais.


Prédios modernos, como a nova Ópera, o Observatório Astronômico Tycho Brahe, não podem ser esquecidos, pelo menos tire as fotos, testemunhas para provar aos amigos que você esteve por aqui. Veleiros, embarcações antigas, algumas com faróis acoplados, em situação de emergência não era possível aguardar pela construção em pedra — ou alvenaria da solução definitiva —, estão docados por toda a parte. Outra possibilidade é tomar uma lotação fluvial para poder circular pela baía. Com um passe para 24 horas ou mesmo 48 horas, é possível o deslocamento rápido e barato entre os pontos de interesse. Surgem fortificações com seus bastiões, o Kastelet — antigo forte do século XVI —, o prédio da Sinfônica Nacional, o quarteirão judeu. O palácio Cristianborg onde encontramos o atual Parlamento foi construído sobre o núcleo da velha Copenhagen. Às margens do canal atracavam os primeiros barcos com comerciantes e mercadorias. Surgem as bases do primeiro e esquecido porto. Posteriormente as instalações em Nyhaun — porto novo — concentraram as transações comerciais. Hoje Nyhaun, com seus cafés, restaurantes, lojas, é ponto de saída das excursões fluviais, local exclusivo para turistas.


O quarteirão onde se localiza o palácio real — Amalienborg —, a igreja de Frederico, a parte histórica da cidade devem ser percorridos a pé. A torre redonda — Rudetarn —, inicialmente um observatório astronômico — apresenta acesso ao topo por rampa inclinada, o que permitia o uso de cavalos. Pedro o Grande, imperador da Rússia e Gustavo Adolfo da Suécia foram visitantes ilustres. Pela Stroget, principal rua para pedestres, alcançamos a Praça da Prefeitura. No caminho, olhando as lojas, somos tentados pela porcelana real, pelas jóias de âmbar ou por brinquedos de madeira recordando a história do amor de um soldado de chumbo por alegre bailarina. Hans Christian Andersen, para sensibilizar

as crianças, retirou uma das pernas do amante. Entre as crianças danesas, as mais lindas do globo, é coqueluche um pequeno urso de pelúcia. O fofinho pode ser vestido e equipado de todas as maneiras possíveis. O guarda-roupa disponível inclui todos os acessórios necessários tanto para “ele” como para “ela”. As avós do nosso grupo pensavam mais em seus tempos de infância do que no presente para a netinha. Em contrapartida, o museu erótico, além da pornografia que nossos avôs assistiam, apresenta quadros e fotos produzidos para estimular o apelo sexual da humanidade. Artigos sado-masoquistas e instrumentos modernos fazem parte do acervo. O Tivoli, famoso parque, deve ser visitado à noite, quando apresentações, desfiles de bandas, concertos, dão um caráter diferenciado a um parque tradicional de diversões. Os restaurantes são excelentes, mas caros, mesmo para o padrão local. Para descansar que tal um sanduíche aberto típico — Smorrebrod — acompanhado de uma cerveja local: Carlsberg ou Tuborg. Escolha o primeiro e o mais simpático café para a parada. Com tempo disponível, excursões pelo interior apresentam antigos vilarejos, bem preservados, onde é possível constatar como se vivia, lutava e morria por aqui na época dos vickings e tempos medievais. Competições de arco e flecha, balistas, as técnicas usadas pelos cavaleiros com suas armaduras, simulações de combate, o uso de falcões para o prazer e a caça dos nobres e reis. Em datas especiais é possível observar simulação de lutas históricas, quando toda a população da região apresenta-se vestida a caráter, como voluntária, encenando batalhas famosas que a história já esqueceu. O Museu Viking apresenta navios construídos no século X; encontrados no fundo de uma baía permitem conhecer a técnica de construção naval dos povos do norte. Para defender a entrada do porto, foram afundados de propósito, evitando assim a entrada dos barcos inimigos. O frio e o lodo preservaram a madeira até a sua recuperação e posterior apresentação aos curiosos de hoje. O palácio de verão, Castelo Rosenborg, guarda as jóias da coroa e os artefatos associados às cerimônias da coroação. Também construídos por Christian IV — 1588 a 1648 —, o Castelo de Frederiksborg, restaurado após o incêndio de 1859 com fundos do milionário dono da Carlsberg, hoje transformado em Museu Nacional, apresenta toda a história da fundação do Reino da Dinamarca. É necessário quase um dia inteiro para percorrer todas as alas, os museus anexos, os parques, os jardins e os lagos onde sempre encontramos o mesmo par de cisnes com seus filhotes — os legítimos “patinhos feios”!

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento”
Editora AGE

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2 respostas para “Castelos na Dinamarca”

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