Confusões no Vesúvio


O Parque Nacional do Vesúvio não pode ser olvidado quando se visita a Campânia. De Roma, são menos de quatro horas de carro. Em viagem anterior, já havíamos alcançado a cratera do vulcão que entrou para a história, na erupção de 79 d.C., ao destruir com estilo Pompéia, Herculano e muitas vilas e palácios construídos ao pé do Vesúvio.


Silva Jardim, jornalista gaúcho, em 1898 despencou no seu interior ao ser surpreendido por tremores inesperados. Em 1944, as tropas aliadas filmaram a última erupção. A subida por carro é realizada por estrada estreita, sinuosa, em aclive constante, ate chegar ao estacionamento; o percurso final é feito a pé. Além do vulcão, da visão da cratera, do alto da montanha (Muntagna em napolitano), se a visibilidade colaborar, obtém-se foto perfeita de todo o golfo de Nápoles, com a ilha de Capri surgindo no horizonte.


Caminhar pelos campos de lava, onde surgem formações estranhas, passar por escórias cortantes, vale a subida. Numa segunda-feira, após Páscoa, era a oportunidade de rever e explorar detalhes. Só que milhares de napolitanos haviam tido a mesma idéia. Era o feriado da Pascuela, nem os lixeiros trabalhavam. O resultado, não previsto, foi congestionamento absoluto. Nas estradas de acesso, não havia espaço para sequer manobrar e até estacionar. Carros, ônibus, casas rodantes e motos eram os protagonistas principais. Os motoristas napolitanos, indisciplinados, transformaram a confusão num caos.


A muito custo e, manobras ousadas, consegui dar meia volta. Duas horas haviam se escoado, mas haveria outra oportunidade. Dias depois, após visitar as escavações de Herculano e Pompéia, era o momento de retornar. No meio da semana, o fluxo de turistas é menor e das duas possibilidades de acesso escolhemos a menos usada. Céu azul, sem nuvens, era o presente dos deuses; a temperatura da tarde estava agradável, fluxo reduzido de veículos, tudo ao nosso favor. De repente, na metade da subida, um ônibus de matricula francesa bloqueava a estrada. O Volvo, ultramoderno, estava entalado numa curva. Por desatenção ou manobra inadequada as rodas traseiras haviam batido e demolido as rochas laterais da estrada. Com o impacto o ônibus ficou desnivelado, rodas dianteiras em pleno ar. Na posição resultante, falha de projeto, não havia como as bombas injetoras alimentarem, com diesel, o motor. Em contato com os passageiros, descobrimos que o incidente ocorrera a mais de três horas e nada de prático fora feito. As tentativas de nivelar o monstro haviam falhado. O apoio técnico solicitado, com soluções amadoras, nada conseguira. Autoridades policiais, peito cheio de medalhas, começaram a chegar. As discussões em diversas línguas escondiam a tensão crescente. Brigas entre o guia da excursão e alguns passageiros quase chegou as vias de fato. Estávamos impossibilitados de subir. Mas outros, em situação pior, não podiam descer. Ansiosos, os retidos aguardavam providências. Muitos com eventos inadiáveis: havia vôos programados, compromissos, escalas a cumprir. Um inglês, perdendo a fleugma, teria pouco tempo para pegar o último ferry que o levaria ao hotel na ilha de Ischia.

Ninguém pensara em chamar um guincho-especial, pelo menos a estrada seria desobstruída. Durante duas horas assistimos a providências inúteis, tentativas de fazer o motor pegar, renovar de discussões, passageiros desesperados, quase em pânico, os palpites dos napolitanos que falavam muito mais com as mãos do que com palavras difíceis de entender. A confusão de línguas, as caras desoladas, as discussões, os palpites, era o divertido a apreciar. Por sinal, o sol estava gostoso, era o melhor dia da semana. Capri resplandecia à distância, distância que parecia tão próxima. Após rápido piquenique — sempre é bom estar preparado —, concluímos que não era mais possível a subida. Teríamos de desistir mais uma vez. Roma seria a etapa no dia seguinte. Era impossível prever quando a solução chegaria, mas o certo é que muitos iriam assistir a pôr-do-sol magnífico. Mais tarde, bem mais tarde, do balcão do nosso hotel, nas colinas de Posellippo, apreciando um “Lacryma Cristi”, vendo os transatlânticos brancos, iluminados, saírem do porto de Nápoles, tentávamos imaginar quantos infelizes estariam ainda apreciando a lua cheia tendo o Vesúvio como companheiro.

** O solo rochoso da “Muntagna” produz vinho especial, cuja origem está ligada a chegada de Cristo nessa terra onde o Diabo era o Senhor.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Enfrentando os Tubarões’
Editora AGE

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