Júlio Verne na Sibéria


Irtusk, as margens do rio Angara, recorda Miguel Strogoff — o Correio do Czar. A obra de Júlio Verne reconta as lutas contra os tártaros — povo de origem mongol que destruiu Kiev e ameaçou Moscou. Fundada pelos cossacos, em 1662, foi o ponto de apoio para a Rússia iniciar a conquista da Sibéria. Começa a epopéia dos caçadores de peles e dos perseguidos políticos até os confins dos Uruais e as margens do Ártico. Com uma paliçada de madeira de seis metros de altura, torres, igrejas, centro de comércio e casas aparecem na Vila de Taskin, próxima da Irtusk, um modelo das primeiras povoações. Casa típicas, todas de madeira, posteriormente transferidas e realocadas para o local, elas mostram como viviam os agricultores, cossacos e os donos de terras durante o século XVIII, XIX e XX.


Os primeiros habitantes, os buriatos, não resistiram ao invasor russo. Possuíam religião animista primitiva, onde os shamãs, com seus tambores e rezas, tinham importância tanto na vida religiosa como na medicina. Cerimônias estranhas, com percussões rituais, procuravam acalmar as divindades: 55 deuses do bem e 45 entidades do mal. As casas tinham a porta de entrada orientada para o leste. As antigas tradições, as danças e costumes ainda persistem na Mongólia, para onde os sobreviventes fugiram. Elas serão vistas, quando o trem tomar o desvio para Ulaambaatar, capital da Mongólia. Por sinal, a capital mais gelada do mundo. Não existe produção em larga escala de cereais, apenas frutas e batatas produzidas nas hortas das casas de campo, as dachas. Trigo, arroz e outros alimentos são importados da China.


Pela proximidade do lago Baikal, onde o Angara deságua, a dieta alimentar inclui muito peixe. Apresentado defumado, salgado e em conserva sempre está presente, principalmente nas refeições do verão. A comida é simples, frugal, predominando os caldos, ensopados de carne de porco, a blinis, a borsh, conservas de pepinos e tomates. A batata é o suporte. No inverno o chá quente é a bebida de todo o instante. O samavar indispensável. A conquista de novos espaços, a conquista da Sibéria, exigiu a construção de famosa ferrovia. De Moscou a Vladisvostok, no Pacífico, são mais de 9000 quilômetros. A transiberiana, iniciada em 1891, no primeiro trecho, para vencer as águas do lago Baikal, exigiu o uso de ferrys especiais construídos na Inglaterra. Para vencer o gelo do lago, durante o inverno era necessário o emprego de quebra-gelos. Os últimos usados, ainda são encontrados, imóveis, nas margens do Lago Baikal. A guerra com o Japão, quando houve o ataque a Port Arthur na Manchúria, obrigou a construção de novos trechos. Os quebra-gelos, inúteis, não conseguiram romper as camadas congeladas até profundidades recordes. As tropas de apóio ficaram bloqueadas, não podendo continuar na jornada até o fronte de combate.


Entre 1902 — 1904 e 1906 — 1911, mais de 10 mil trabalhadores estrangeiros foram contratados: chineses, japoneses, albaneses e italianos — mestres no corte das pedras. O trecho ferroviário, ao longo das margens do lago é um dos mais bonitos. O trem corre entre o azul profundo das águas e o verde das florestas. Algumas vilas, minúsculas, pequenas estações mostram a ínfima presença humana na região. O Lago Baikal representa na atualidade, a maior reserva de água potável da Federação Russa: alcança mais de 600 quilômetros de extensão, com profundidades superiores a 1.600 metros. Com florestas intocáveis, onde a bétula predomina, é região de mistérios e aventuras.

Ao longe, apenas o infinito da Sibéria. A região ainda é hostil, deserta e difícil; os habitantes, conformados, tristes, procuram subsistir enquanto não encontram outros destinos. A infraestrutura do turismo ainda é precária, o deslocamento, complicado; fica impossível no inverno. O tráfego é caótico, carros europeus convivem com veículos semiusados, direção à direita, vindos do Japão via Vladvostok. Não é fácil perceber quem se ultrapassa ou contorna; tráfego confuso com motoristas imprudentes e automóveis com direção divergente. Do alto do campanário, ouvindo concerto de sinos, numa manhã, em pouco tempo, assistimos vários acidentes. Viajamos pela ferrovia em trens antigos, sem muito conforto e apoio. É importante levar a própria comida e bebida, não existe suporte logístico adequado. Os trens de carga passam transportando riquezas que apenas fluem, não deixando quase nada para os habitantes: madeira, carvão, minérios, gás e petróleo. Cuidados com a ecologia ainda são desconhecidos, não existe preocupação com reservas naturais, com a conservação dos animais selvagens. Nenhum controle. Os russos, pele branca, se expõem ao sol do verão sem usar nenhum protetor solar. Na realidade, o produto não é encontrado em nenhuma loja ou mercado por aqui. Sentado no trem, só posso pensar na solidão dos pioneiros e na tristeza de exilados, a maioria vinda aqui para morrer.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Onde Estão os Dinossauros?’
Editora AGE

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39 respostas para “Júlio Verne na Sibéria”

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