Touradas em Bogotá – Colômbia


Mulheres de bota, cano longo, casacos de couro, cabelo com fita à andaluz, chapéus combinando, calças jeans apertadas, volumes traseiros e dianteiros em exibição. As cores associadas ao preto, ao vermelho e mesmo ao amarelo ouro; são parte importante entre os espectadores. Os homens usam a tradicional cobertura dos vaqueiros ou mesmo o chapéu de palha, colorido, outro emblema da Colômbia. O hábito de Navarra é seguido à risca, botijas de couro, forma de rim, cheias de vinho, alimentam, em jatos diretos, as gargantas ansiosas. As mulheres acompanham o ritual. No final da tarde, pela quantidade ingerida, sem nada comer, eles estão mais grogues do que o touro a ser imolado.


Clubes de aficionados, uniformizados, boinas típicas, cada um com cor predileta, com cartazes indicando de onde vieram, são ruidosos nos aplausos e nas vaias. Apesar das opiniões contrárias, os espetáculos ocorrem no final de dezembro de cada ano, podendo chegar ao mês de fevereiro. No programa de hoje, o toureiro principal foi substituído; acidente na véspera, braço fraturado o retirou do espetáculo. O touro levou a melhor. Por sinal, aqui, dependendo do seu desempenho, da sua valentia, a platéia pode pedir o seu indulto. Até agora nunca vi o toureiro atender a essa solicitação. Na melhor das hipóteses, o touro é retirado lentamente após a morte, a banda toca música adequada, enaltece o lutador que perdeu batalha inglória.


No dia seguinte, as crônicas dos jornais apresentam a resenha do espetáculo. Tanto a atuação do touro como a dos toureiros é criticada ao extremo, ou os elogios justificam as orelhas cortadas e oferecidas ao vencedor; ao matador. Alguns touros são chamados de “mansos”, sem combatividade, fracasso para a faena e para o criador. O espetáculo segue rito perfeito. Bárbaro na essência reproduz fatos mitológicos, quando as forças estavam equilibradas. Um “toro malo” tem sua morte pedida com antecedência pela turba insandecida.


Após o hino nacional, o espetáculo começa pelo desfile de todos os componentes da faena. Primeiro os toureiros que irão trabalhar o touro com a capa, a seguir em cavalos vendados, cobertura acolchoada, os picadores com suas lanças, a seguir os bandarilheiros que mostram passos de bailarinos ao correrem em direção ao touro; o objetivo é cravar em ângulo adequado e em local preciso a sua marca enfeitada. Dependendo da manobra, da posição ousada ao cravar o

o ferro emplumado, toda a galera vai a loucura. Balé da morte, beleza sinistra. A seguir aparecem os matadores, são três por espetáculo, são acompanhados pelo oficial, todo de preto, que coordena a corrida. A parte sanguinária: quando o picador, com lança medieval sangra o touro. O objetivo é enfurecer e ao mesmo tempo reduzir a vitalidade do animal, o que facilitará a tarefa do matador. Alguns jornalistas reclamam dos excessos cometidos, alguns touros por serem fogosos e atrevidos em demasia,metem medo ao toureiro. Como solução, dizem, é pago adicional ao picador para sangrar um pouco mais o adversário. Acho que o comprimento da ponta da lança deveria ser diminuída, reduzindo assim o sangramento provocado na besta. Em algumas corridas, usa-se o cavalo para a colocação das bandeirinhas; não perca a corrida se o fato estiver no programa. Raramente a tourada é executada com o toureiro montado a cavalo. Ele usa três animais, cada um adequado a uma fase da faena. O primeiro deve ser rápido para fugir as estocadas do touro. Do último, com mais potencia, sem medo da proximidade da fera, será do alto que será desferida a estocada fatal. As crônicas descrevem a evolução do trabalho com a capa e com a muleta. Cada lance descrito é analisado, criticado ou aplaudido. Touro e toureiro são coadjuvantes do espetáculo. Naturales bajitos, redondos, circulares de passo doble, adornos, pases de pecho, temples barrendo a arena, largas de rodilhas, verônicas, cacerinas, gaoneras e chicuelinas. As manobras arracam os olés ensandecidos. Estamos numa arena de morte, de ação e de desafios. O touro, anunciado com peso, origem e nome caracterizado, será o responsável pelo sucesso ou insucesso da corrida. Nas corridas assistidas, duas foram magníficas, três preencheram os protocolos, mas a última foi um desastre. Por falta de agressividade, talvez exausto pela perda de sangue, o touro teve final melancólico. Sua morte não foi adequada, nem rápida. O toureiro que antes recebera duas orelhas, por vitórias conquistadas, agora, desmoralizado, não conseguia acabar com o sofrimento daquele touro perdedor. “Professor”, o nome do touro, não tinha nada para acrescentar ao espetáculo.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Onde Estão os Dinossauros’
Editora AGE

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