Mercado Público de Salta – Argentina

Mercado Público de Salta


A mais de 1.100 metros, nos altiplanos andinos, no Vale de Lorca, Salta é conhecida como a “Linda”. As raízes, a influencia das antigas populações ainda são importantes. Nos pueblos isolados das montanhas, ainda se fala o quéchua e o aimará. O mercado municipal, localizado na parte antiga da cidade, será a testemunha a interrogar. Prédio centenário; nas entradas, com roupas típicas, velhas índias comercializam temperos e pimentas. A folha de coca faz parte do dia a dia. Vendidas a granel, pequenos pacotes; a posse de até meio quilo do produto não traz nenhuma repreensão policial.


Uma delas ensinava aos turistas como coquear, ou seja como usá-las na boca para evitar o mal das alturas. Nos restaurantes populares, em vez do “Locro”, prato típico — ensopado gorduroso —, melhor provar as humitas, os tamales, o paceto al horno. Carne assada, peixe rei — criado nos diques e barragens da região -, são servidos sobre brasas. Nos corredores as carnes típicas para a tradicional parrillada local estão presentes. Nos fins de semana, as pessoas vão em ordas para os parques públicos, onde o ar se enche do cheiro e do aroma da carne assada. Cortes com camadas brilhantes de gordura, espessos, são os preferidos. Linguiças, morcilas, embutidos, fazem a guarnição.


A carne de lhama, fibrosa, baixo teor de colesterol é outra possibilidade gastronômica para turistas afoitos. Em Cachi, cidade próxima, 160 quilômetros de Salta, se concentra a produção de pimentões. É local onde se produzem os picantes, temperos que, agora, em todas as cores estão a nossa disposição. Para facilitar a digestão, os nativos, os locais, afirmam que as folhas de coca são digestivo imprescindível. Não arrisquei, fiquei apenas na prova.


O mercado, exigindo pronta restauração, mostra através dos condimentos, das pimentas, dos temperos, a alma da culinária de Salta e das províncias do norte da Argentina. Em cuyo, os ajís — pimentas — fazem a diferença. Vários tipos e cores. A produção se concentra no pueblo de Cachi, os produtos secados ao sol, tornam vermelhas as calles e calçadas. Além do ají normal, temos o criollo mais forte, o ají cayena, a pimenta preta e o ají amarelo.


O bife de chorizo condimentado com ají criollo é desafio, tentação a que não se pode fugir. A cerveja saltenha, engarrafada, de litro, faz excelente matrimônio. Outra possibilidade, para o oeste, em direção aos Andes, temos os vinhos de Cafayate. Bem gelado o Torrontês, joia local, ou mesmo o Syrah bem “frappé” — resfriado — não pode ser dispensado. Salta é famosa pela cerveja. A saltenha é apresentada em duas cores: a escura, mais adocicada, e a clara bem amarga. As garrafas têm um litro e custam menos de cinco reais nos restaurantes. Muitos dos meus amigos iriam adorar a sugestão. As empanadas saltenhas são famosas. Estão disponíveis pelos corredores; pequenas, baratas, fazem bem a “happy hour”. Podemos degustá-las com recheio de carne de lhama, tudo bem acompanhado por cerveja bem gelada. No entanto, a especialidade, o que mais recordo, saliva na boca, são os queijos de cabra. Divinos, consistências mais rígidas podem ser adquiridos com sabores picantes. Para cada sabor existe um vinho adequado. O queijo à provençal vai bem com o Malbec. Usando o ají criollo, vermelho intenso, o Cabernet Sauvingnon será o professor. O queijo natural, sem aditivos, fica bem com o Torrontê, bem gelado. Além dos produtos artesanais, sem muito cuidado higiênicos, temos a possibilidade de comprar os queijos embalados a vácuo. São produzidos em cooperativas. A prudência, os dias seguintes, exigem certos cuidados para evitar surpresas e corridas desesperadas atrás da porta salvadora de um sanitário escondido. Os doces, feitos com frutas regionais, diferentes ou desconhecidas, são excelentes, principalmente quando se apresentam como gelatina endurecida: cayote, lima… Nosso regime e a visita chegavam teimosos ao final.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Onde Estão os Dinossauros?’
Editora AGE

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