Lisboa vista do Rio Tejo


A caravela subia o Rio Tejo, lentamente, tão devagar que não era percebida por ninguém; como um fantasma retornava às suas origens. O navegador, ao leme, não reconhecia o local da sua partida. Estaria perdido? Erro nas observações do astrolábio? No entanto, o cheiro, o ruído do rio fluindo manso, continuavam os mesmos apesar de tantos séculos de desvio.

Aquela torre, branca, arquitetura manuelina, dando-lhe as boas vindas; era idêntica a do projeto que estudara antes da partida. Elo na defesa da cidade, a Torre de Belém, inicialmente projetada dentro do rio, agora estava conectada ao continente. O que acontecera?

Depois, monumento imenso sinalizava o local de onde outros aventureiros, como ele, haviam partido. Ali, Pedro Álvares Cabral, fidalgo que recebera dele as instruções precisas para navegar em mares pouco conhecidos, aguardara por horas, longas, que ventos propícios inflassem as velas das suas caravelas. Fato estranho: a corte, os reis, os bispos, os monsenhores, toda a plebe, após as cerimônias, as ladainhas, as rezas, os pedidos de proteção aos céus, após tanta demora, cansados, retornaram ao cotidiano, deixando as 13 naves, paradas, aguardando a chegada dos ventos impulsores. O padrão do Descobrimento, com Dom Henriqueà frente, como na proa de um navio, caravela altaneira nas mãos, seguido por 32 companheiros, fora monumento construído após a sua vitória. A Rota das Índias seria para sempre glória de Portugal.

A seguir, outra construção, dimensões gigantescas, padrão arquitetônico tipo português, Manuelino, ocupava toda a extensão da praça. O Mosteiro dos Jerônimos era esplêndido visto do rio. A leve brisa da manhã anunciava que ali seria o local do seu repouso.


No alto da Colina da Estrela, uma Basílica com suas torres era nova referência para os que chegavam. Cruzando o espaço que antes era domínio dos barcos a vela e a remos, uma ponte imensa, construção metálica, era percorrida por estranhos veículos; na parte inferior, como serpentes, estranhos comboios passavam apressados. Vinte e Cinco deAbril era a denominação daquela estrutura de ferro. A cidade estava mudada, maior; edificações, padrão moderno, desconhecido para ele, surgiam.

O Cais de Sodré estava remodelado, barcas imensas chegavam e saiam. Ao fundo, o Mercado da Ribeira atraia, como sempre, vendedores de peixes, de frutas, de flores e de outras mercadorias. A Praça do Comércio, agora com Monumento a um tal Marquês do Pombal, estava tão diferente. Pórtico com arcos, colunatas, indicavam o caminho para novas alamedas, para jardins; o verde era perceptível para o bairro do Rossio. Ouvira falar que, em 1755, um terremoto destruira quase toda a cidade. No entanto, o bairro do Chiado não parecia muito diferente com suas tascas; lojas e bares sempre de portas abertas.

Do alto da Mouraria, o Castelo de São Jorge, edificado pelos árabes, conquistado em 714 d. C., continuava imponente. Dominava toda a cidade e recordava a vitória, em 1147, de Afonso Henrique o primeiro rei de Portugal. Soberano que iniciara a reconquista das terras por tantos anos dominada por outro povo e por outra religião.


A Casa dos Bicos, construção diferenciada, com pedras salientes nas paredes, como diamantes, seguia padrão de palácio italiano em Ferrara. O prédio fora construído pelo filho de um grande amigo: Afonso de Albuquerque, indicado por ele para ser o vice-rei nas Índias, deixara legado importante para seus herdeiros. Para a plebe, as faces dos diamantes não passavam de rudes bicos, daí a denominação da residência: Casa dos Bicos.

Os rumores trazidos pela aragem da tarde mostravam novidades. Naquele local, aos pés de oliveira mais que centenária, seriam depositadas as cinzas de outro escritor, agora tão famoso como Camões no seu tempo. Saramago, o Nobel da Literatura, reconciliado com Portugal, ao final repousaria na terra que tanto amara quando criança.

A Catedral da Sé, primeira igreja da história de Portugal, como fortaleza, paredes robustas, ocupava o local de antiga mesquita. As ruínas da Igreja do Carmo, próxima da Sé, construída em 1423, era na sua época a maior igreja de Portugal. O lugar onde costumava rezar e pedir proteção antes de partir, para sua tristeza, fora devastado pelo terrível terremoto. Os danos, irreversíveis, não permitiram a recuperação.

As colinas da Alfama, com ruelas, ladeiras íngremes, hospedarias, bares e tascas, sempre foram o local preferido dos marinheiros. Quantas tristes canções, relatos das mortes de tantos homens, das lágrimas vertidas pelas mulheres de Portugal, usando preto permanente, como em luto antecipado, traduzia a perda passada e futura de maridos, pais, filhos e netos. Não se conquista o reino dos deuses, dos senhores dos mares e das terras longínquas, sem o pagamento do

do tributo devido. Como diziam os poetas:’Mares infinitos, quanto do sal das tuas águas é proveniente das lágrimas das mulheres de Portugal”.

Em direção ao bairro da Graça, a vista alcançava o Mosteiro de Santa Clara, outro local tradicional com o seu mercado de frutas, de legumes e de outras mercadorias. Ali ficava o Mercado da Ladra.

A cúpula da igreja de Santa Engrácia era visível, brilhava ao sol. Afinal, depois de tanto tempo a construção por fim concluída. A imagem tocava a alma daquele peregrino. O populacho afirmava ser um conto do vigário; os pedidos constantes de recursos para término da igreja nunca cessavam. Para a conclusão: 284 anos de trabalho. Sorria ao recordar as graças da população de Lisboa, quando os ditos não eram seguidos pelos feitos. “Mais outra obra de Santa Engrácia”.

Na região de Santa Apolônia, novas docas; construções de concreto abrigavam embarcações gigantes. Os decks e andares ultrapassavam as cruzes das catedrais.

Brancos, imensos, pareciam um enxame de abelhas, tal a quantidade de pessoas que via circulando, entrando e saindo daqueles monstros. Sua nave era tão pequena que não era percebida pelas pessoas, que, em ritmo frenético, deslocavam-se pela sua agora desconhecida Lisboa. Subia o rio. Outras colinas surgiam ao longo do percurso, não sabia ainda onde deveria ou poderia ancorar. Alto da Pina, Madre de Deus, Olivais, antes desertos, agora estavam repletos de casas brancas, de igrejas e de conventos.

Mais adiante, ao lado das docas de Olivais um novo arrabalde, recém implantado, mostrava prédio com arquitetura moderna, ousada. Seria o falado Aquário? Outras edificações eram apresentadas pela paisagem. O Cassino de Lisboa, os Pavilhões de Exposições. Num ancoradouro, veleiro ostentando as cores de Portugal estava ancorado. Sua boa visão, mesmo com dificuldade, pode ler o nome. Sagres estava gravado na madeira da popa. Algo que recordava a escola onde, com tantos outros navegadores, cartógrafos, matemáticos e físicos, planos para encontrar terras estranhas, de descobrir novas rotas para o comércio marítimo, de trazer especiarias, foram estabelecidos. Algumas lágrimas refrescaram aquela pele curtida pelo sal e pelo sol.

No horizonte, distante, outra referencia chamava a atenção, ponte com estrutura moderna, mais de 25 quilômetros de extensão, ligava os confins de Lisboa com as terras das corticeiras, com o Alentejo e mesmo com a inimiga Espanha. A figura da Cruz de Santiago de Compostela recordava aquele orgulhoso navegador genovês, que, ao serviço dos Reis de Castela, iniciara o desafio. Daquelas bandas, das terras do Imperador Carlos V, não sopravam bons ventos e nem se realizavam bons casamentos. Os enlaces entre os membros das duas coroas que repartiam, com a benção do Papa, as terras do Globo, nunca foram felizes. Uma torre comemorativa, forma de vela, marcava a direção daquela estrada, daquela ponte que vencia a largura do Tejo.

Com orgulho, constatou que tanto a ponte como o monumento, construídos para celebrar 500 anos de Conquistas de Portugal, tinham recebido o seu nome. Vasco da Gama retornava da sua última viagem.

Felipe Daiello
Autor de “Enfrentando os Tubarões” e ‘Onde Estão os Dinossauros?
Editora AGE

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