Ex- libris


Para identificar, individualizar trabalhos, livros, ou até reconhecer o autor, foram muito utilizados nas eras antigas e mesmo na época medieval. Indicam a propriedade da obra. Antigos reis e imperadores usavam sinetes ou carimbos para validar as ordenações e decisões imperiais. Os anéis, com gravuras distintas, davam a autenticidade requerida. Dava-se mais atenção ao selo real do que ao conteúdo e decisões do documento.




Os museus mostram a arte que procede das margens dos rios da Mesopotâmia. Em Ur e Ninive já encontramos maravilhas criadas pela arte e mão dos homens. Em cerâmica, na forma cilíndrica, as inscrições mágicas eram reproduzidas com facilidade. Pergaminhos, antigos documentos, registram para a posteridade fatos que mudaram a política do mundo, deslocaram ou reduziram fronteiras, alterando a vida de milhares de súditos e escravos. A Biblioteca do Vaticano expõe trabalhos de artistas, aliando à história nomes importantes de reis, de condes, mesmo de papas e dos seus ex-libris. Carta a Henrique VIII mudou a face da Inglaterra. Ana Bolena era mulher de fibra?




Cada sucessor de Pedro, ao ser investido, recebe anel com a filigrana, o símbolo do pontífice, para a comunicação dos atos terrestres com o divino. Após a morte, o protocolo exige a destruição do selo da autoridade papal. Os manuscritos copiados pelos monges beneditinos, além das ilustrações em cores douradas, pelo visual transmitem a mensagem que a maioria inculta, à época, não conseguia entender. O monge procura registrar sua produção, identificar o seu nome, deixar a sua marca pessoal. O autor fica conhecido. Nas antigas igrejas, as paredes com pinturas ensinam aos ignorantes como compreender as palavras do Senhor. Uma arte na comunicação visual se desenvolve. Pelas figuras podemos receber as palavras e os ensinamentos de Jesus Cristo e dos seus apóstolos.




Mesmo nas cavernas primitivas, através dos desenhos gravados ou pintados nas rochas, encontramos a preocupação dos primitivos em manter registros, de efetuar a ligação do humano com o cosmo, com o todo poderoso, com os deuses e até com o mundo subterrâneo. A inquietação, a conexão com os espíritos, sempre foi um dos objetivos dos homens. As marcas simbolizam ligações do mundo físico ao mundo espiritual. Gravuras ruprestres sinalizam e identificam o sol com a liberdade, os raios circunscritos às cabeças indicam a espiritualidade, os halos concêntricos a evolução do homem. Cada escrivão, cada artista, tem a sua maneira de expressar o que pensa e sente. Cada traço tem característica própria, individual, inconfundível. Na visita ás cidades medievais — a maior parte restaurada ou até reconstruída ao detalhe, pois as guerras, os inevitáveis incêndios e o próprio tempo eliminaram as originais construções de madeira e tijolos —, encontramos maravilhas na identificação e na divulgação das atividades rotineiras. Em ferro trabalhado, pinturas multicoloridas, presas nas paredes, nas entradas, para mostrar aos camponeses incultos o que era possível encontrar, lá estão como propaganda. Barco metálico, com velas desfraldadas ao vento, indica para os marinheiros a direção do restaurante. Em ferro forjado, um ganso grelhado tenta e convida o andarilho para típica refeição. Cada taverna, em cada canto, seduz o passante apressado apresentando canecas de cerveja que levam ao ócio ou à alegria. Os artesões precisavam divulgar o lugar dos seus ofícios, mostrar nos placares presos a mastros e bandeiras o que estava disponível, o que se podia comprar. Mesmo as ruínas de Pompéia, apresentam nos lupanares informações e indicações, trazem sugestões aos passantes, estimulando-os a descobrirem os prazeres do mundo e da matéria. Não mudamos muito com o passar dos séculos, ainda somos seres de carne e osso, humanos e cheios de pecados. Um tonel de carvalho, reprodução estilizada, não deixa dúvidas. Uma taça de vinho cercada de cachos maduros é outra tentação, compete com a sugestão da caneca de cerveja. Cada artista, pintor ou escultor, pode personalizar a sua criação utilizando ex-libris para identificar e mesmo registrar a sua propriedade. São obras de arte concebidas por mestres que darão aquele toque, a diferença necessária, para talvez tornar imortal a sua produção artística. Gravadores usam habilidades artísticas para autenticar e ilustrar trabalhos de todo o tipo, principalmente manuscritos e livros. Qualquer pessoa pode, como antigos personagens: mandarins e senhores feudais, colocar o seu sinete, a sua marca pessoal nas correspondências, relatórios e informes em geral. Alguns livros de autores premiados fazem edições especiais. Apresentam gravuras para dar visibilidade as suas palavras. A arte e o gênio de outro artista dão caráter diferenciado, personalizado para a literatura. Ex-libris representam a excelência, a melhora no desempenho de qualquer produção artística de simples mortais. Usá-los sem nenhum medo é o caminho.

Imagens produzias pela artista plástica Eda Lani, a quem agradeço a colaboração.

Felipe Daiello

Autor de ‘A Viagem dos Bichos’ Editora AGE

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6 respostas para “Ex- libris”

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