Incidentes no Sultanato de Omã

Incidente no Sultanato de Omã


Localizado entre o Estreito de Ormuz e o Oceano Índico, Omã a partir da atuação do Sultão Qaboos, educado na Europa, com a descoberta de jazidas de petróleo e de gás, desde 1962, inicia uma revolução rumo ao moderno, ao progresso e a globalização.

Com os recursos do petróleo, a transformação do país é visível para todos. No entanto, apesar do avanço, as velhas crenças, o fervor religioso da população permanece, principalmente nas pequenas cidades e entre as pessoas mais humildes. Para uma população de dois milhões de habitantes, sendo de 20% a parcela de indianos e paquistaneses, encontramos mais de 14.00 mesquitas. Elas estão por todos os lados, com tamanhos, com formatos e estilos diferenciados



As mulheres mais velhas usam o preto como hábito, as mais tradicionais ocultam o rosto com o uso de semi-máscaras, burcas apenas nas regiões mais desertas.

Para os infiéis o acesso as mesquitas é proibido. Na capital, apenas a grande Mesquita de Sultan Qaboos está acessível. É preciso seguir procedimentos quanto a roupa à usar e no modo de adentrar o Recinto de Alá. Respeite o horário concedido aos infiéis.

O conjunto ultramoderno da Mesquita de Sultan Qaboos usa o mármore para a glória do profeta. Lustres de cristal da Áustria, filetes de ouro e montagem na Alemanha exaltam a fé. O lustre principal pesa mais de 700 toneladas. O tapete, conjunto único, cobrindo toda a área de acesso, é o maior do mundo feito à mão. Segundo as informações mais de 400 mulheres em tempo integral, levaram 4 anos para concluir a tarefa. O custo total da mesquita fica na cifra dos bilhões de dólares americanos.




Nos horários do culto, homens, mulheres ficam separados. Na hora das preces, elas não podem distrair a atenção dos fiéis do sexo masculino.

Em Salalah, cidade localizada na Rota do Incenso, conhecida há mais de 8.000 anos como a Cidade dos Perfumes, o comércio do incenso, material cujo valor ultrapassava o do ouro, trazia fortunas e fama a cidade, ocorre cenário de confusão religiosa. Após visitar o souk, na segunda cidade de Omã, de conhecer os diversos tipos de resina usados na obtenção da dádiva dos deuses, por sugestão do nosso guia, a visita à mesquita principal seria possível.




Sexta-feira, dia sagrado, a população na maioria estava ausente das ruas.

— Dormem antes das orações — afirmou o meu interprete — só os comerciantes indianos e paquistaneses abrem as lojas no momento.

Meio desconfiado, mas atraído pela possibilidade de excelentes fotos, aceitei a sugestão.

Na entrada lendo um dos cartazes, avisos já conhecidos estavam expostos em inglês. Como proceder ao adentrar no recinto era do meu conhecimento. A entrada sendo proibida para menores de oito anos e para os usuários de telefones celulares. Infrações aos códigos ali expostos são consideradas ofensas religiosas.

Retirar os sapatos, iniciativa recomendada pelo rapaz na entrada, foi a providencia inicial antes de começar o registro fotográfico dos minaretes, das portas e das salas de purificação.

Vulto ágil, turbante e veste de cor diferenciada, amarelo e creme claro, súbito obstruiu o caminho.

— Estás sozinho, oh intruso infiel — foram as palavras de inquisição.

Sem o saber, eu estava adentrando na mesquita em horário inadequado, só após as 11:30 os fiéis seriam bem vindos. Rápido movimento, mãos em posição de ataque, pistola ponto 45 visível, olhar severo indicava a porta de saída.

— Não sabes ler inglês? Temos cartazes específicos na entrada — continuou o vigilante.

Meio titubeante, procurando encontrar desculpas satisfatórias e adequadas, afirmei que apenas tirava fotos do exterior, as belezas da mesquita eram a razão da minha presença.




Depois expliquei que o nosso motorista, logo ali na entrada, sugerira a entrada. Não fora advertido de qualquer proibição.

Furioso o representante da milícia religiosa cumpria o seu papel. Em Omã, acima da justiça dos homens está a Lei do Alcorão. Aquele agente tinha autorização de usar todos os meios possíveis e apropriados para punir os infratores. Poderia matar sem remorsos ou problemas.

Descendo as escadas, pistola ponto 45 bem à mão, dirigiu-se colérico ao motorista. Uma discussão violenta ocorria enquanto eu tentava ler as instruções que estavam registradas noutro placar. Eu só tinha lido um dos avisos.

Dia de preces, no horário das orações a presença de infiéis é proibida. Imagine chegar em horário no qual a mesquita está inacessível a todos.

Ainda tirando as últimas fotografias escutei os coléricos avisos dados pelo agente da lei ao nosso guia e motorista. Por sinal ele não ficou muito impressionado, ou era muito calmo ou mesmo bastante burro.

Ainda bem que a minha esposa não aceitara a sugestão de me acompanhar na expedição. Teríamos um problema insolúvel devido aos seus trajes ocidentais de verão.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE

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