Uma ponte “perto” demais. O detalhe que faltou

Umaponte ‘perto’demais. O detalhe que faltou

Numa viagem sempre haverá algum local esquecido, o detalhe perdido. A foto desejada não foi tomada. O guia, com pressa, mandou todo mundo retornar, o motorista em vez de parar, acelerou, a posição do sol não era adequada; a excursão optativa foi negligenciada, o museu estava fechado. Mesmo com condução própria, erramos a estrada, o mapa não sinalizava o desvio, a informação era inadequada. Quando vemos estamos a quilômetros do objetivo, sem chance de voltar. Resta o vazio, a angústia de ter perdido algo. Como seria a abadia, o castelo, a obra-prima do museu, aquela ponte… No retorno, se algum amigo percebe a falha, logo surge a clássica frase:

Não viste o monumento. Então perdeste a viagem! O melhor planejamento, o estudo minucioso de mapas e roteiros sempre deixa espaço para o imprevisto, a descoberta do último instante. É a oportunidade para encontrar o que os roteiros tradicionais nunca mostrarão. Partindo de Triestre, na Itália, o destino era a Riviera Croata. O desmembramento da Yuguslávia, após a queda do Muro de Berlim provocou a separação de antigas províncias. Pelos mapas seguiríamos a Eslovênia, a Croácia, chegando até a fronteira de Montenegro; Zagreb na Croácia estava fora da rota. Na preparação da escala das paradas, ao escolher hotéis, de repente surgiu a possibilidade. No caminho, passaríamos a menos de 20 quilômetros da fronteira da Bósnia-Hersegovina, onde se concentra a população muçulmana da antiga Yuguslávia.

Só havia um problema, o Brasil não mantém relações diplomáticas, não existe aqui representação da Bósnia. Teríamos que ir a Buenos Aires para o devido visto ou tentar obtê-lo na Europa. A tentação de visitar Mostar, com sua ponte construída pelos turcos em 1487, era o chamariz. Destruída durante a guerra de libertação contra os sérvios, com apoio internacional fora feita a reconstituição. Era um símbolo de liberdade. Nas fotos aquela ponte era magnífica. Porque não alcançá-la? Ainda mais que no trajeto poderíamos rezar no Santuário Mariano de Medjugorje. Já saímos com os devidos formulários preenchidos, fotos preparadas, tudo. No entanto, por ser país pobre e de pouca representação não existem embaixadas em qualquer cidade. Depois elas não funcionam em final de semana, tem horários restritos e a burocracia é absurda. Durante a viagem, tentamos todas as possibilidades. Sempre havia uma negativa frustrante. Quem sabe visto provisório na fronteira? A resposta sempre era desanimadora? Visto só indo a Zagreb e, mesmo assim seria demorado. O que fazer? Desistir não era a intenção. Sempre existe o jeitinho brasileiro. Como estávamos com carro de matrícula italiana, talvez houvesse uma chance. De repente, na Dalmácia, entre Split e Dubrovnik, surgiu uma bandeira azul-amarelo, diferente, não era conhecida. Ninguém havia dito e nem os mapas mostravam que a Bósnia, possui uma fixa de terra, não mais que oito quilômetros que lhe dá acesso ao mar. É um estreito corredor através da Croácia que alcança o Mar Adriático.

Mesmo surpresos, sem parar, cruzamos a fronteira, não havia restrições para turistas italianos. Para alcançar a ponte, pensamos em adotar a mesma técnica; cruzaríamos a fronteira perto de Split seria menos de 40 quilômetros até Mostar. Só era necessário falar italiano. Era arriscado, mas possível. No retorno a Split, mais uma vez passamos pelo corredor sem problemas, mas ao ver a atuação, bastante belicosa, de dois guardas rodoviários da Bósnia ao inspecionarem carro de turista a nossa frente, não restou outra alternativa. Teríamos que desistir. Imagine sermos detidos em plena Bósnia-Hersegovina, sem vistos e num país sem relações diplomáticas com o Brasil. O bom senso deixou Mostar, apenas como uma lembrança. Pena que era uma ponte perto demais.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘Viagem dos Bichos’
Editora AGE –

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