Cartagena, a cidade heróica — Gabriel Garcia Marques

Cartagena, a cidade heróica

Famosa por suas muralhas, pelas lutas contra piratas e corsários, a antiga cidade colonial, a pérola do Caribe Espanhol, já recebeu menção, tendo capítulo específico, quando escrevi o meu segundo livro: “As Minhas Ilhas”.
Na antiga alfândega, toda a riqueza extraída das Américas aguardava o momento para ser enviada à Espanha. Visitantes ilustres, bandeiras diferentes, atacaram a cidade. Roberto Baal em 1544, Martin Cote em 1555, John Hawkins em 1568, Francis Drake em 1586, Baron de Pointin em 1697. Aliás, o corsário inglês Drake foi o precursor do sequestro relâmpago. Sitiou a cidade, ameaçando queimá-la se não fosse pago o resgate solicitado. Depois de consultas à Espanha recebeu apenas 107.000 ducados de ouro. Uma fortuna à época.

Em 1741, o almirante inglês Edward Vermon, com armada incrível para a época, 183 naves, mais de 23.000 homens e 700 canhões tinha como objetivo tornar o Caribe o “Lago Inglês”. Após cerco de 2 meses, derrotado teve que desistir da empreitada. Se não fosse a resistência heróica de Cartagena e do comandante Blás de Lezo, hoje toda a região estaria falando inglês.

Jantar com lua cheia, em plena praça, ouvindo o bater dos sinos da Igreja de San Pedro Claver, serve para descansar os pés. Os quartos, as meias-horas, as horas cheias são batidas de alegria e de vitórias.

Não tenha pressa em circular pelas ruelas e “calles”. As sacadas floridas, os detalhes das janelas, das portas, das grades de madeira e mesmo de metal produzem fotos interessantes.

Mas agora, já conhecida, é momento de recuperar a história. Para o Palácio da Inquisição, procissões de penitentes e de condenados se dirigiam. Mesmo branda, a atuação dos dominicanos tinha por objetivo manter os bons costumes e evitar desvios de fé. Em duzentos anos, das 800 investigações, dos 200 processos, apenas cinco condenados foram queimados nos autos da fé. Mulheres que procuravam os feiticeiros, para obter as fórmulas de manter ao lado os maridos, não tinham muito futuro quando apanhadas pelos fofoqueiros. Havia local para colocar denuncias anônimas.

Agora, o objetivo é outro. Gabriel Garcia Marques será o alvo. O premio Nobel da literatura, nascido em Aricata, Barranquila, tem residência no local. Gabo, como é conhecido, usou como palco do romance “Amor em Tempos de Cólera”, as ruas, os prédios, as igrejas de Cartagena.

Vamos tentar acompanhar a sua imaginação quando criava os personagens famosos pelo livro e depois, mais tarde, imortalizados no cinema.
A atuação do escritor, omisso nas questões internas da Colômbia, nos sequestros de reféns, levanta críticas dos locais que reclamam que o escritor não visita com frequência os locais onde estão suas raízes, preferindo o México, a Europa e mesmo Cuba. Esquece os sítios onde viveu, onde estudou e escutou relatos transcritos com brilho para as suas obras.

No bairro de Manga, percorremos o local onde viveram Fermina Daza e o Doutor Urbino, depois para a Catedral, passando pelos aterros que ligavam as diversas ilhas conectadas por pontes levadiças e protegidas pelos pântanos. Naquela igreja para o desespero de Florentino Ariza, Firmina Ariza casa-se com seu eterno rival.

Vendo as sacadas floridas o destino é o solar de Juvenal Urbino; a Casa Del Marques de Val de Hoyos conta a juventude do médico. A casa de Florentino Daza está próxima, depois da Igreja de la Merced chegamos a Plaza Fernandez de Madrid. Quantas outras histórias Cartagena poderá contar aos ouvidos curiosos dos que chegam de tão longe, atentos, presos aos detalhes que os ventos da tarde costumam trazer, escondidos ou não, em horas do passado.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE

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