Ilhéus de São Jorge e de Jorge Amado

Vista do Porto do Malhado, a cidade ainda apresenta a característica e o charme da época dos coronéis, na época de ouro do cacau, os senhores de fato de Ilhéus.
A Igreja de São Jorge, construída em 1556, uma das mais antigas do Brasil, ainda dá as boas vindas aos que retornam.
Circular pelas ruas estreitas, pavimento irregular, rever os casarões, os palacetes, desperta memórias. Os bares, as pensões, os castelos com suas mulheres; época louca, de sonhos juvenis.
No antigo porto, onde as sacas com as sementes mágicas eram embarcadas para a Europa, chegavam aventureiros, jogadores, artistas e mulheres falando línguas estranhas, diferentes. Todos em busca da sua parte, do quinhão que a fortuna estava predisposta a conceder.
Na antiga rua 28 de julho, Jorge Amado viveu desde os 2 anos, até ir morar em definitivo em Salvador de Todos os Santos.

O pai, como produtor de cacau, ficara na ruína após as inundações que destruíram as suas plantações em Itabuna, local de nascimento do futuro escritor. Aos dois anos Ilhéus seria a nova casa, a nova escola para Jorge Amado.
Enquanto a mãe, numa máquina de costura, uma Singer, trabalhando com acessórios de couro para tamancos, providenciava no sustento da família, o pai, tentando recuperar o antigo prestígio e fortuna, tinha outros planos. Percebendo a inutilidade dos esforços, as dificuldades do momento, só via uma possibilidade. Necessário definir novos rumos, a esperança estava lançada na providencia da fortuna e na sorte dos jogos. Os parcos recursos aplicados nas cartas e nos bilhetes do acaso. O improvável ocorre. Acertador da lotérica. Prêmio no entorno dos 100.00 contos de reis — segundo os rumores e falas do agora. A transformação começa. O pai, além do título de coronel, adquire terreno onde construiria palacete para alojar a família. Importa os acessórios necessários e constrói um abrigo para Jorge Amado. No local, hoje temos um memorial.

Aqui, em lousa rígida, ainda existente recebe a alfabetização. Além da mãe, tem mestra rigorosa, adepta da técnica da palmatória. Dona Guilhermina incute no jovem os princípios essenciais à sua futura carreira. Por sinal, Dona Guilhermina terá dois alunos que usarão o fardão da Academia Brasileira de Letras: Jorge Amado e seu colega e amigo Adônis Filho.
Do seu quarto, Jorge Amado podia visualizar o Bar Vesúvio; pela rua principal, logo em frente, circulavam os futuros personagens dos seus livros.
Ainda agora, junto a sua antiga máquina de escrever, toda enferrujada, podemos seguir a imaginação do escritor ao formatar aos 18 anos o seu primeiro livro: ”O País do Carnaval”. Datilografava seus trabalhos apenas com dois dedos, um de cada mão.

Jorge Amado absorvia, aos poucos, os sentimentos, as aflições, os conflitos entre os poderosos, entre os senhores da terra e os pobres, – os deserdados de tudo. As manhas, as religiosidades dos humildes, os esforços, os medos, a tenacidade de viver, impregnavam e eram anotados pelo jovem escritor.
As festas, as noitadas dos poderosos, dos amigos e parceiros, dos jogadores, formavam trama inesquecível. Seria necessário relatá-las.
Acompanhado do seu animal predileto, símbolo da sabedoria e do conhecimento, os sapos, em cerâmica, porcelana, serão fetiches que nunca abandonará.
O conquistador, o janota Tonico Alves, mulherengo incorrigível, sempre à conquista de novos amores; o turco Nassif a bela Gabriela que provoca a tragédia são parceiros do seu cotidiano. A solução encontrada, de modo a manter o código de honra da cidade e a amizade, passa por trampas na legislação e pela anulação de casamento.
O poder incomensurável dos coronéis, consubstanciado na ação de Misael Tavares, responsável pela pavimentação com pedras especiais, importadas, da primeira rua da cidade, oportunidade em que casava sua filha, será fato de análise, de debate e de outros livros.
O Bataclã, bar, cabaré, local onde os notáveis se encontravam, não fica longe. Ali, Maria Machadão sempre será a estrela, a dona e a inspiração.

Da sua janela, aberta sempre para Ilhéus, aprendeu a observar a cidade, a descobrir mistérios e segredos dos passantes e dos residentes. As notícias, os dramas, a vida circulavam pela Rua 28 de julho.As linhas anotadas, a imagem em crescente.
Estamos em pleno Estado Novo, as crises afetam o cultivo cacaueiro. Novos dramas afloram. A política assume outros papéis.
Jorge Amado se engaja em lutas sociais. O escritor absorve os ritos dos orixás, a luta para manter a cultura vinda da África. Usos e costumes em ebulição; a cozinha afro em plena ascendência. Novos sabores e cores serão agregados à sua imaginação.
O jovem escritor, num processo literário em gestação, seria o responsável por colocar a Bahia nas janelas do mundo. Tornará possível o amor, mesmo dentro da improbabilidade da vitória.
Os personagens, humildes, humanos, alcançam, por breves momentos, a felicidade e a possível realização. Vargas Lhosa sintetiza a geniabilidade de Jorge Amado:
“Escritor que percebia a alma, as crenças de um povo, capaz de transmitir o caldeamento de costumes, a formação de novos espíritos, do surgimento de caminhos diferentes, das possibilidades de alegria, mesmo num palco cheio de apupos, de dores e de ilusões.”

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento”
‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE

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10 respostas para “Ilhéus de São Jorge e de Jorge Amado”

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