As casas de Pablo Neruda — Visão do ser humano

As Casas de Pablo Neruda

Para conhecer melhor o personagem, para entender melhor o escritor, antes da análise do trabalho literário, é interessante conhecer os locais onde ele morou, amou, viveu e escreveu suas obras.

Retornando da Europa, em 1937, Pablo Neruda procura um local onde possa ter tranqüilidade, repouso. Precisa de abrigo para escrever “Canto Geral”, o próximo livro.

Compra em Las Gaivotas, junto ao litoral, uma pequena casa com 70 m². O nome é alterado, a antiga denominação dada pelos nativos foi escolhida. Surge Isla Negra. As reformas iniciadas, a partir de 1939, empregam a pedra, as vigas de madeira, os tetos baixos, de zinco. O escritor procura configurar ecos de sua infância na região de Temuco.

Os tetos de zinco reproduzem e ampliam os sons, as vibrações, as impertinências dos ventos e o fustigar sem parar das chuvas austrais.

Pablo Neruda adora o persistente tamborilar dos intrusos; é musica que afugenta no início o sono, mais depois de acalmar o espírito, facilita a chegada do repouso desejado, desperta idéias, cria sonhos e poesia.

Situada entre Valparaiso e Santiago, na região de Casablanca, produtora de excelentes vinhos brancos, surge Isla Negra. Ainda recordo o Chardonay da vinícola Santa Helena. Imperdível! A casa será ampliada, nela, o mar aparece como parceiro, companheiro e inspirador. Sempre na frente da sua mesa de trabalho.

Isla Negra foi o local onde será enterrado junto com a terceira esposa. Ambos, no mausoléu, lado a lado, terão as ondas do Oceano Pacífico, como companheiros na viagem eterna.

Próximo, o barco onde recebia os convidados continuará com velas desfraldadas sem nunca ter tido o batismo, o conhecimento íntimo com as águas frias do Oceano Pacífico. Pablo Neruda temia as fúrias dos oceanos.

Isla Negra terá capítulo a parte, em função da sua importância na vida de Pablo Neruda, pois ali escreveu a maior parte das suas obras.

Comprador compulsivo, frequentava as feiras de antiguidade, principalmente em Paris, onde adquiria objetos para as inúmeras coleções e para decoração das suas residências.

La Chascona, sua segunda residência é construída em 1983, em Santiago do Chile. Ali vive com Mathilde Urruti, a atriz chilena, que pelos cabelos, pensamentos, humor e atitudes, era denominada por ele de “La Chascona”.

Temperamental seria a denominação adequada. Lá encontramos a sua coleção de quadros, a maior parte dos seus livros originais e sua biblioteca de consulta.

Coleção de presentes, oferta de amigos como Jorge Amado, Niemayer, Diogo Rivera, David Siqueiros, José Pancetti, Piero Fornasetti e muitos outros.

Como sempre, a arquitetura, a mobília, o teto baixo, as passarelas, os diversos níveis da casa, recordam a construção de um navio. A sala de jantar, os guarda-pratos e despensas mostram e guardam as louças, os copos e talheres utilizados por Pablo Neruda para receber os seus convidados.

Amante de Valparaiso, onde já morara, terá ali outro abrigo, outro porto de passagem. Adora subir as empinadas colinas, espiar na baía os navios que chegam. O caminhar de marinheiros rumo as suas casas, sacolas nas costas, esperanças à frente. Os bares, as alegrias fáceis, a música e canções.

No Cerro Florida, adquiriu imóvel que estava sendo edificado. Prédio imenso, grande de mais. Ocupa os 3 últimos pisos, o restante do prédio é adquirido por Los Velascos Martener, casal amigo.

Sebastiana, a terceira residência, como homenagem, recorda o arquiteto Sebastião Collado, o primeiro proprietário.

A vista é esplendida, inspira e auxilia na criação de palavras, de poemas. Oceano Pacífico, com o seu azul de desafio, é o estímulo necessário, o conselheiro fiel.

Pequeno bar, escondido num canto, é local exclusivo, só ele tem a permissão da entrada. Um ultraje se alguém tentasse ultrapassar as fronteiras.

Inaugurada em 1961, Sebastiana, a terceira residência, foi restaurada em 1991, mantendo-se como era no tempo em que Pablo Neruda ali permaneceu.

Mais uma vez os diversos níveis, as escadas estreitas, ambiente diferente em cada sala, recordam detalhes dos navios que ele adorava, mas que procurava evitar. O quarto de dormir, cama alinhada em ângulo incerto, tem vista para o mar. A cama de ferro parece ter sido adquirida em leilão.

A escrivaninha, ao lado da pia ritual onde ele lavava as mãos antes de iniciar o trabalho, como sempre, está em local privilegiado, com vista espetacular e inspiradora.

Todas as três casas de Pablo Neruda são hoje museus; recordam os dias vividos pelo poeta, como simples mortal.

Pessoa boa-vida, bonachona, sempre com sua boina, característica indelével. O poeta, alto, corpo volumosos, na sua simplicidade lembra uma criança grande.

Ele mesmo dizia, nas entrevistas gravadas, não gostar de matemática, de organização, de rotina e de finanças. No entanto, em todas as três residências, percebe-se o seu bom gosto, a perfeita organização da decoração das paredes e dos ambientes, e, o desejo de aproveitar as horas boas da existência. Todo o conforto possível na época está presente em todas as residências.

Como amante da boa mesa, dos bons vinhos, do bom wisky, da companhia constante de convidados, o escritor passa a mensagem de ser pessoa que aproveitou, e bem, as delícias que a vida lhe proporcionou.

O seu alinhamento político ocorreu durante os anos 35 e 36, quando na Espanha, como embaixador chileno, acompanha os eventos da Guerra Civil Espanhola. Época em que conhece Garcia Lorca e Hemingway.

O pensamento marxista-lenista, no entanto, conflita com pessoa amante de todas as boas coisas da vida.

No final, como mensagem um dos seus poemas mais lidos é que está ligado ao oceano que tanto amou.

“O oceano escapou do mapa.

Não havia lugar para colocá-lo.

Tão grande, desordenado e azul.

Não cabia em nenhum lugar.

Por isso o deixaram

Junto a minha janela.”

Pablo Neruda

Felipe Daiello

Autor de “Palavras ao Vento”

Editora AGE

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