No roteiro de Luis de Camões. Aventureiro dos Lusíadas

Não havia como escapar, era necessário reler “Os Lusíadas”. O clássico agora apresentava outros desafios, necessário refazer o roteiro, curiosidades requeriam releitura, novas interpretações eram vitais. Luis de Camões, no seu perfil de poeta, conquistador de donzelas, briguento, sempre procurando confusões, envolvido com mulheres casadas, fora condenado ao exílio, maneira de refrear sangue quente e de evitar confusões.

Como outros de Portugal, é lançado na rota das Índias, importante tornar os mares e os seus deuses em vassalos do Reino. A gloria lusitana exigia bravura, persistência e coragem no desafio de velejar por mares plenos de perigos e alcançar portos apenas conhecidos na mitologia.

Ao cruzar a Taprobana, nome do Ceilão em grego, recordando versos famosos, outra visão do poeta emerge:

“As armas e os barões assinalados,

Que da ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca antes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo reino, que tanto sublimaram”.

Várias viagens, diversas etapas, agora mostravam as aventuras reais de Camões. As sagas de Vasco da Gama, de Bartolomeu Dias, de Afonso de Albuquerque e de outros navegadores tornavam-se reais, nomes estranhos ganham representação e significado. Muitos locais perdidos no Oriente ainda apresentam ruínas de fortalezas, de igrejas, de mercados onde há 600 anos as flâmulas portuguesas indicavam poder soberano. Portugal, aliado a marajás, a califas a potentados garantia portos de abrigos, privilégios de comércio, a aquisição das famosas especiarias e a implantação de nova fé, de nova religião em terras estranhas. Jesuítas, franciscanos, ao lado da espada, empunhando uma cruz, traziam palavras, mensagens de uma nova realidade.

Ao longo da costa ocidental da África, nomes agora tem significado.

Na África do Sul, partindo de onde encontramos réplica de caravela de Bartolomeu Dias, local da etapa alcançada, Lourenço Marques, atual Maputo, em Moçambique mostra local de reabastecimento das naús que rumavam para a fronteira das Índias.

À entrada do Mar Roxo, denominação de ontem do atual Mar Vermelho, o porto de Aden no Iêmen, Muscat no atual Sultanato de Omã, são refúgios, locais em busca de boas aguadas, de estabelecimento de ancoradouros, de portos de refúgio e de armazéns para concentração e distribuição de mercadorias.

Surge o Estreito de Ormuz, depois a vastidão do Oceano Índico. Mais adiante Bom Bahia, a atual Mumbai, são etapas alcançadas pelas velas onde a Cruz de Malta sinalizava outro poder crescente na escala mundial.

No sul da Índia, perto das ilhas Maldivas, milhares de minúsculas extensões de terra, mergulhadas em azul cristalino, encontramos a essência do roteiro, os locais mencionados no clássico de Camões.

Goa, portuguesa até 1961, onde as construções, os nomes, as tradições, a arquitetura ainda guardam as raízes lusitanas é ápice. As maiores igrejas existentes no mundo cristão no século XVI e XVII estavam por aqui. Roma do Oriente era a denominação utilizada.

Na antiga capital, Panjim, encontramos, no bairro de Fontainhas, uma réplica da Alfama de Lisboa.

Em Cochin, mais ao sul, importante porto comercial, terra de marajás, das essências, dos perfumes, da pimenta vermelha, Vasco da Gama encontrou o seu repouso. Lápide mostra o local onde o navegador foi enterrado. Após sua terceira viagem na naú Gabriel, no dia 24 de dezembro de 1524, um nome entrava para a história e fará parte de lendas e mesmo de livro exemplar — Os Lusíadas.

A influência cristã é visível no grande número de católicos, nas igrejas, nas escolas, nas pequenas capelas esparsas pelo interior e nos oratórios que encontramos pelas encruzilhadas: Santo Antônio, São Sebastião, São Jorge, e, agora Madre Teresa de Calcutá, são reverenciados até pelos indianos — adeptos de outra fé.

No panteão dos deuses hindús, os santos e as suas venerações encontravam fácil o seu lugar.

Mas era importante ultrapassar a Taprobana, ir mais adiante vencer o Estreito de Málaga — atual Federação Malaia, onde Kuala Lumpur é agora outra cidade jardim.

A Indonésia, Sumatra, Java foram etapas até chegar a Singapura, onde ainda encontramos vestígios dos padres jesuítas e das missões de evangelização.

Hong Kong está na rota para Macau, o porto português, o limite da corrida náutica, da expansão do esforço português. A nação de 3 milhões de habitantes se esgotava, impossível cruzar tantos mares , enfrentar fúrias de divindades, umas a favor das conquistas, outras contra os invasores dos seus domínios. Gruta em Macau sinaliza o local onde Camões, após naufrágio, onde perde companheira chinesa, mas salva nadando seus manuscritos, encontrou abrigo. É local de veneração, de recolhimento e de meditação.

Um homem, simples na vontade, acompanha in loco o esforço do seu país, os enfrentamentos, as perfídias, a luta entre culturas e religiões e sobrevive para com simples pena, com imaginação e brilho, narrar a saga de Portugal. Lembranças eternas que agora com prazer releio com gratidão.

O grande escritor, glória eterna, morre pobre em Portugal; o seu túmulo destruído pelo terremoto que aniquila Lisboa, em 1755, ficará perdido para sempre.

No Mosteiro do Jerônimos, apenas representação simbólica recorda a passagem deste grande aventureiro. Sem medo nas lutas, destemor que lhe cobrou parte da visão nos combates em Ceuta, na África, enfrentando os infieis, no entanto, mesmo com perda de parte de sua capacidade, ainda teve energias e visão para descobrir, detalhar e escrever a epopeia da conquista dos mares. Como afirmou mais tarde Fernando Pessoa em Mar português.

“Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzar, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso ó mar,

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Mas as palavras finais ainda são de Luis de Camões:

“Mas eu que falo humilde, baixo e rude

De vós não conhecido nem sonhado?

Da boca dos pequenos sei, contudo

Que o louvor sai às vezes acabado

Nem me falta na vida honesto estudo,

Com longa experiência misturado,

Nem engenho, que aqui vereis presente,

Coisas que juntas se acham raramente.”

Felipe Daiello

Veja a reportagem publicada no Jornal RS Letras clicando no endereço:

Baixar arquivo : Felipe-Daiello—RS-Letras—Novembro-2012.pdf

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5 respostas para “No roteiro de Luis de Camões. Aventureiro dos Lusíadas”

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