Cingapura, uma encruzilhada na vida de Somerset Maugham

Nas suas excursões pelo Extremo Oriente, Cingapura era porto de escala para Somerset Maugham.

Considerado um escritor de temas relativos a viagens, suas histórias traziam, à época, personagens e cenas desconhecidos para os europeus. Índia, Birmânia, Tailândia, Camboja, Vietnam e até a China exigiam passagem pela antiga colônia britânica.

Entre os anos de 1916 a 1930, o escritor trabalha para o Serviço Secreto Inglês. Além de obter material para futuros trabalhos, viajando pelo Pacífico Sul, visitando as Colônias Inglesas, a Malásia e a China em permanentes convulsões, como escritor tinha a cobertura necessária para o seu trabalho de espionagem e de inteligência.

Ian Fleming, ao criar o personagem 007, baseou-se em relatos e na figura criada por Somerset Maugham em um dos seus contos. Como agente do Serviço Secreto, Maugham tinha a experiência adequada para colocar suspense e mistério nas suas obras.

“Muitas vezes não procuramos razões para o que fazemos, mas desculpas”.

O autor de “Servidão Humana”, obra de 1915, quase autobiografia, nasceu em Paris, mas será educado na Inglaterra. Órfão, muito cedo ficará sob a tutela de tio que morava em Londres. “Principalmente amei pessoas que não se preocupavam ou faziam pouco de mim”.

Não tendo o inglês como língua mãe, perseguido na escola, com ataques de gagueira, terá feridas que nunca cicatrizarão. Aos 16 anos estuda literatura alemã em Heidelberg. No retorno, por imposição do tio, sacerdote austero e rigoroso, começa curso de medicina que nunca terminará. O contato com a dor, com a miséria, com as classes menos favorecidas, será tema das suas novelas e livros.

“Nada no mundo é permanente, mas seríamos tolos se não a apreciássemos enquanto a temos”.

Apesar do modernismo de Cingapura, Cidade- Estado monumental, eficiência e modelo para o mundo, com prédios modernos e uma urbanização referencial, ainda podemos encontrar costumes e tradições idênticos aos dos tempos do grande novelista e dramaturgo.

O bairro chinês, os festivais malaios, a cultura indiana, as cerimônias religiosas, os passeios dos requixás, os mercados tradicionais, apresentam uma visão do que ele colocou nas suas obras.

No tradicional Hotel Raffles, mais que centenário, é possível retornar ao passado de Somerset Maugham. Uma visita, uma hospedagem, mesmo por uma noite ou simples jantar nos leva aos ambientes do poder Colonial Britânico.

Para os apreciadores do teatro, a peça “Chuva” teria sido escrita durante a permanência do escritor no seu hotel preferido.

A ligação de pastor rigoroso e austero com Sadie Thomson, uma prostituta, presos numa cabana durante a chuva das monções, emocionou platéias. Hollywood tornou imortal a batalha entre o vício despreocupado com o rigor religioso do sacerdote.

“Aquilo que os princípios têm de cômodo é que podemos sacrificá-los quando é necessário”.

Somerset Maugham caracteriza-se pela ampla produção literária, tanto em novelas como em romances.

Muitos dos seus trabalhos são mais conhecidos pelos filmes do que pelos próprios livros. Ele mesmo adaptava os seus escritos para Hollywood.

“O dinheiro assemelha-se a um sexto sentido, sem o qual não podemos fazer uso completo dos outros cinco”.

Somerset Maugham é o protótipo do escritor bem sucedido, tanto em fama como em fortuna. Em Cap-Ferrat, sul da França, em 1928, adquiriu propriedade onde vivia e descansava entre as suas viagens, local onde faleceu em 1950.

“A cada minuto que passamos com raiva, perdemos sessenta felizes segundos”.

Érico Veríssimo, como tradutor e editor da Livraria do Globo, foi o responsável por apresentar o escritor inglês ao público brasileiro. O “Fio da Navalha”, obra de 1944, é para ser relido, e “O Véu Pintado”, clássico reapresentado por Hollywood, mostra o drama de médico que enganado pela esposa, como castigo, a leva para o interior da China, para região assolada pela cólera. Vale a reprise.

“Só o amor e arte tornam a existência tolerável”.

Apesar de ter casado e dos diversos casos amorosos coletados, o escritor escondia a sua face homossexual. Considerava as mulheres bonitas como rivais, razões pelas quais suas heroínas são vistas sob ótica especial nas suas obras.

“Uma mulher bonita e fiel é tão rara como a tradução perfeita de um poema. Geralmente, a tradução não é bonita se é fiel, ou não é fiel se é bonita”.

Usando a imaginação, nas noites agradáveis de Cingapura, ao circular pelo bairro chinês, pelo indiano ou malaio, percorrendo os mercados noturnos, ouvindo antigos dialetos, podemos refletir sobre o poder de observação de Somerset Maugham. Maneira de descobrir os mistérios escondidos entre as linhas que ele deixou para a posterioridade.

“As pessoas pedem-te uma crítica, mas querem apenas o elogio”.

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