Coach para a vida. Alda, minha mãe

– “O que seriam os lobos se não houvessem ovelhas “- a frase repetida tantas vezes, ainda é lembrada no agora, depois de tantos anos de lições, de exemplos, de condicionamentos.

“Levar mensagem a Garcia”.- mais uma.

Preleções exaustivas, sem que eu percebesse à época, marcaram a tua presença e orientavam os meus passos para caminhos que eu desconhecia, mas que ela, na sua sabedoria de mãe, percebia ser essencial no meu futuro sucesso.

-” Mata logo, a coelha, não perde a oportunidade, não deixa para amanhã, que ela pode escapar” – outra expressão que ainda está no subconsciente, quando a preguiça tentar deixar para amanhã o que devo concluir hoje.

Vinte e cinco de julho de 1914 é efeméride para reverenciar e lembrar para sempre. Não estarás presente no físico do dia, mas a tua presença em energia, ficará ao meu lado: momento de agradecer, de recordar, de transmitir os teus ensinamentos para outras gerações.

“Não criamos filhos para a nossa satisfação ou mesmo para companhia, eles devem ser treinados e preparados para a vida própria ; independentes” – outra recordação na data do teu centenário de nascimento.

Mais de seis anos já passaram desde a tua despedida. Parece pouco, mas é muito tempo. Difícil mesurar.

“Missa e maré se espera ao pé”.

Lúcida, discutindo política, criticando o governo, mesmo saindo da CTI, ainda são imagens que gravei e que recordo nesse momento de homenagens e de reverência.

-Estou cansada, neste corpo fraco, envelhecido, que não quer morrer – palavras que marcavam data de despedida, de partida.

No meio dos teus gatos, acho que eram seis, ou seriam sete, como protetores, estavas sempre alegre para receber as minhas visitas.

Na cama, os teus fieis guardiões deixavam espaço para aquele que chegava. Interessante o comportamento dos teus amigos felinos. Nos momentos de crises, muitas pela idade, mais próximos, eles chegavam, em bando, cercavam o teu corpo como um pelotão protetor.

“Um roto cuidando do esfarrapado”.- dizia .

Depois, mais tarde, com a recuperação, deixavam-se ficar pelas proximidades. Reconheciam o instante de auxiliar, de proteger.

Perguntavas pelas netas, pelo meu trabalho, pelas minhas atividades. Sempre havia algo para recordar, conselhos secretos saiam ao acaso. Não lembro todos, mas as principais palavras são difíceis de esquecer.

O meu amor pelos livros, pela boa música, pela ópera, são traços da tua persistência. Desde cedo, para não brigarmos, eram duas irmãs na época, recebíamos revistas para ler, para colorir ou mesmo para sonhar.

“A página é branca e podes escrever o que quiseres”.- concluia .

Na casa, apesar da autoridade do meu pai, eras o farol permanente. Atuante nos negócios, nas lidas da casa, nos investimentos de família, pois tino comercial era algo que nunca cativou o Desembargador.

Maurílio Daiello, o meu pai era importante em outros exemplos, em outras áreas, nas ciências jurídicas que não me atraíram como outros da família.

Como professora, algo que incentivou nas suas classes, aprendi como produzir alimento em pequena escala. Uma horta era campo de ação nos fundos da nossa casa; a produção de hortaliças, de frutas era uma luta contra as formigas e outras pragas. Um galinheiro era o ponto de produção de ovos e da proteína essencial. Cuidados com a limpeza, a troca de serragem, a utilização dos excrementos para a produção de adubos; técnicas e trabalhos diários. Como comandante, eras terrível nas ordens e nas cobranças.

“Estás vivendo a dolar? “- outra admoestação .

“Cavalo encilhado quando passa, monta logo”.- frase preferida .

Para uma criança, acompanhar a incubação dos ovos, ver a luta de pequena vida interna, através do seu bico, alcançar a liberdade era emoção empolgante. Alguns, mais fracos, não alcançavam o objetivo, sendo alvo, depois de autopsias e curiosidades investigadoras. Por que?

Recordo a manhã quando encontrei o galinheiro vazio, depenado, todas as galinhas tinham ido passear, só sobrou o “Chicão”, galo velho, que solitário, no poleiro mais alto, uma fita amarela no pescoço, olhava desconsolado o vazio do seu terreiro.

-Onde foram parar a Mimosa, a Malhada, a Espevitada – eram as perguntas daquele garoto que não entendia o acontecido.

-Acabaram na panela de alguém que tinha fome. – foi a resposta obtida, mas sem trazer os esclarecimentos exigidos.

O tempo passava, as crianças cresciam, os medos noturnos ficavam no esquecimento. Mas as lições permaneciam, cada vez mais úteis.

“Tudo virou ossos de minhoca”.- falando das inutilidades da vida .

Nas noites de tempestade, o grito das corujas, vindos da torre da igreja, perto, traziam temores, do desconhecido, para crianças que não conseguiam dormir.

– Pássaros noturnos, em busca de comida, de ratos, faz parte da rotina. Não é preciso ter medo, “pauras”, não é algo para se preocupar – enquanto puxava o cobertor, trazia calor e espantava o medo. Gestos que nunca esqueço.

– Hibou! Hibou! – palavras em francês que sinalizava aquele agouro soturno e cujo som recordava os pios das corujas noturnas. Não sei a razão, mas ela incentivava o estudo da língua de Chateaubriand, de Molière e de outros iluminados. Foi a primeira língua estrangeira que aprendi a dominar.

“Madame conduit, à gauche, à droite..”. Monsieur Vincent ..

O tempo passava, eu crescia em tamanho, em ambições. Testes vocacionais indicavam o meu rumo futuro. As ciências exatas atraiam outro garoto em formação.

“Amigos a gente escolhe, parentes a gente herda”.- maneira de concluir o assunto .

Tempo para novas lições.

– Cherchez la femme” – era código que eu precisava aprender – outras lições de vida entravam nas prioridades. Ela reconhecia o momento.

Ela era sábia no que explicava, não tinha pressa, mostrava a diferença de comportamento entre homens e mulheres, o que era importante na escolha. O que uma futura companheira, deveria saber, as qualidades, o respeito mútuo, as defesas e a independência feminina, algo que considerava vital.

– Nenhuma mulher deve ser dependente do marido, companheiro ou família. A independência econômica, algo essencial, deve ser procurada sempre. Mulheres independentes terão força e energia para solucionar problemas e serão excelentes parceiras para toda a vida. Com sua experiência ensinava passos importantes para futuras escolhas.

-Não é preciso ter pressa -tens muito tempo e oportunidade para escolhas adequadas no futuro.

Muitas namoradas não gostavam da sua interferência ou influência. Talvez um pouco de ciúmes, não sei bem como definir a situação. As mães não gostam muito de perder os seus filhos homens. Surgem outras rivais, com mais força e influência.

-Quem dorme ao lado sempre terá o poder maior – algo que nunca deixei de escutar.

Nesta data, cem anos de lembranças, gravei algumas palavras. Uma homenagem talvez recordação, mas na essência, o principal, uma lembrança e um agradecimento. Algo que não podia esquecer. Obrigado por tudo, Alda Ribeiro Daiello, minha mãe. Mereces a homenagem. Alguém que sempre tinha o que dizer no momento adequado:

“Faz o que estás fazendo e faz bem feito”

“Cozinhando no bafo”.

“Se fosse cobra te mordia”.

“Pega a macaca pelo rabo”.

“Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé “.

“Quem quer faz, quem não quer manda”.

“Passar de pato a ganso”.

No final , a despedida:

É tão difícil

Dizer adeus a um bravo

Sei que faltarão palavras

E há tanto para dizer !

Na hora da despedida

Lágrimas…

Talvez escondam

O que é preciso gritar.

Na vida

Foste guerreira

Nos combates

Que o mundo te deu.

Mestra!

Com sábias palavras

Teus filhos ouviram

Lições a aprender.

A todos

Como um farol na escuridão

Seus passos perdidos

Procuravas guiar!

Como líder permanente

Ensinaste-nos a lutar.

Desafios, conquistas

Era preciso buscar!

Teu lema

Presença constante

Era preciso

Sempre lembrar.

Um não nessa vida,

Mesmo o primeiro

A ouvir

Nunca se deveria aceitar!

E o último

Também!

Se deveria

Negar.

Felizes os que partem

Para a glória eterna

Deixando raízes…

Sementes plantadas.

Teus netos, bisnetos,

Também no futuro

Saberão como tu

A vida trilhar.

A tristeza de agora

Não deve vencer.

Fica a certeza, que eles

Também no futuro

Saberão como tu

Outras lutas enfrentar.

Obrigado por tudo.

Mãe Alda querida.

Que Deus nas alturas

Saiba enfim agora

Como te acolher.

Obrigado Mãe Alda!

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