Mercado de Los Cardones

Sobem os aclives, escalam as colinas, perdem-se na direção do alto das montanhas. Os ventos gelados, ultrapassando os Andes, são percebidos por primeiro por esses vigias permanentes. Forma característica, parecem soldados preparados para enfrentar invasores.

Adaptaram-se aos rigores do semiárido, crescem entre 1 a 3 milímetros por ano. Alguns alcançam 400 anos, para depois tombarem cheios de cicatrizes; heróis de muitas batalhas.

Só aos 50 anos produzem a primeira flor, a cor branca predomina. A fase reprodutiva está anunciada. A flor, usada em cerimônias religiosas, possui poderes alucinógenos; efeito conhecido e dominado pelos antigos xamãs na preparação, no início e no controle dos estados mediúnicos. Muitos dos estranhos sinais, gravados nas pedras, nos canyons escondidos, são mensagens criadas pelo poder dessas drogas.

Para efetuar a conexão entre os entes superiores e os súditos de Pachamana, era imprescindível o domínio dos cardones. O emprego de cachimbos rituais, utensílio usado nos ritos de libertação, pode ser admirado nos museus da região. Em São Pedro de Atacama, no Chile, encontra-se a maior coleção existente no mundo, pelo menos em minha opinião.

Os índios, os invasores espanhóis usavam a sua madeira — leve, mas resistente — na construção das suas casas e depois nas igrejas. Portas, laterais de acesso, confessionários e principalmente no teto, o cerne dos cardones aparece. Frágil ao trabalhar era, no local, a única madeira disponível. Não há árvores por aqui.

Nas pequenas localidades das províncias de Cuyo, norte da Argentina, onde ainda se falam as antigas línguas do tempo dos incas, encontramos os “Mercados de Los Cardones” espalhados por ruelas estreitas.

Agora, os artesãos empregam a madeira nos seus trabalhos, nos artesanatos locais: caixas, molduras, abajures, adornos ou como simples decoração.

Depois de secos e desidratados, são cortados em lâminas para posterior utilização. O aspecto esbranquiçado da matéria prima pode ser coberto por colorido diverso, conforme decisão ou inspiração do artista.

Nas antigas capelas, espalhadas por vilarejos cercados pelos picos dos Andes, encontramos pequenos museus, são mostruário da antiga arte sacra e da artesania do “cardon”.

Contam as lendas: durante a guerra de independência, no início do século XIX, o General Belgrano, com poucas tropas para enfrentar o exército realista, vindo do Alto-Peru, utilizou, como farsa, uma estratégia.

Usando fardas militares, com chapéus, com tochas, vestiu e adornou os seus aliados. Uma possibilidade de enganar as tropas espanholas.

De longe, a imponência dos defensores surpreendeu o inimigo. Cansados da árdua jornada pelos desertos, com falta de água, não esperavam reação e tantos soldados para o enfrentamento.

Ímpeto reduzido, parada para aglutinar forças, para esperar reforços. A dúvida deu tempo para as tropas crioulas organizarem a defesa e obter, mais adiante, as vitórias que garantiram a independência das Províncias Unidas. Em 1816, em San Miguel de Tucuman surgiu a atual Argentina.

Até hoje, pelas “quebradas” e “cuestas” do norte da Argentina existe exército sempre pronto para enfrentar qualquer invasor e mesmo os turistas.

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