Na Rota das Mulas. Major Pompílio

Lenço branco no pescoço, ele era a lei, a justiça e mesmo o carrasco da zona. Ganhara aos poucos, pela coragem, pela audácia, por estar sempre à frente da sua tropa, a admiração geral e o apoio dos seus superiores e chefes políticos.

Encorpado, bombacha típica, chapéu com barbicam, faca atravessada nas costas, resolver sempre à mão, era o típico gaúcho do alto da serra, lá pelas bandas norte do Rio Uruguai.

Descendente de tropeiros de origem portuguesa , aqui chegados no continente de São Pedro pelos meados do século XVIII, recebera por herança terras, propriedades e fazendas adquiridas com o comércio dos muares destinados aos mercados de São Paulo e das Minas Gerais.

Quanto a luta fatídica entre chimangos e maragatos ensanguentou as coxilhas do Rio Grande, Pompílio estava pronto para as lutas, para as epopeias das guerrilhas, contra as forças dos maragatos de Assis Brasil e de Honório Lemos. O posto foi adquirido pelo nome da família, pelo peso do dinheiro, pela sua habilidade em galvanizar os seus guerreiros, ao dispor de cavalgada rápida e eficiente.

Nem era preciso convite ou ordem; pela natureza, pela violência interna, predisposto para a luta, sempre disposto ,aguardava as ordens no reagrupamento das forças chimangas da região. – Borges de Medeiros é o cacique maior, sou apenas simples soldado. – repetia como desculpa.

Mesmo nas épocas das tréguas, de precária paz, durante as eleições, na sua zona, os lenços encarnados estavam proibidos de aparecer. -Inimigo político não se perdoa. – justificava.

-Para esses bandidos, a gravata colorada é mais adequado do que o ridículo símbolo que usam. – não deixava dúvidas para a degola destinada ao inimigo vencido. A peonada, acostumada a vida dura, violenta, estimulada, adrenalina a mil, aceitava sem restrições as ordenações de Pompílio: Lenço colorado ao inimigo.

Violento, colérico, não tinha piedade e nem medo da morte.O revolver era seu melhor argumento .

– A bala destinada ao meu final, ainda não foi fundida pelo destino. – era rindo que iniciava o ataque destinado a desbaratar o inimigo.

Nas suas fazendas, o mais rico proprietário nos Campos das Serras, era duro com os erros dos seus peões e capatazes. Roubos, desvios, nem pensar:

– Mestre Fidêncio, acredito que o Gerônimo precisa de uma lição. Está na hora de entupir a sanga – de modo claro, sentença de morte proferida. Não precisava de palavras adicionais.

– A disciplina é essencial para a boa ordenação das coisas na terra – nem pestanejava ao emitir o seu decreto.

Mulherengo, apreciava os fandangos e os bailes, as morenas não escapavam das suas garras. Filhos, espalhava pelos pampas, como o Minuano no inverno trazia frio e gelo. A esposa, silenciosa na humildade do lar, presa aos costumes do mundo machista, não podia elevar voz ou protesto. Lágrimas e confissões com o pároco a única abertura e desabafo.

O jogo, as canchas retas, eram outra fonte no desvio de recursos.

Por queda de cavalo, ou ferimento mal curado, nunca se soube ao certo, uma ferida na coxa o deixou manco para sempre. Mesmo assim, o seu ardor pelas mulheres fáceis ou não, nunca se acabou.

– Eu gosto de mulheres. Todas. Não acredito que seja ócio ou vício. Além disso o dinheiro, gasto eu a minha maneira – afirmava enquanto dava as cartas.

Com a idade, com as alterações na política regional, obrigado ao uso de bengala, nada o impedia de subir colina desde a sua residência até a Pensão da Maria. Lá estavam as suas prendas, algumas italianas e mesmo alemãs, coitadas que a miséria encurralava; eram variações para o gosto abusado de Pompílio.

Mesmo com as críticas da família, mesmo as do pároco – que só falou uma vez e pela metade -nunca deu atenção aos que diziam ser o adequado para um avô,para chefe de família ; os seus feitos , os seus atos de depravação rotineiros , não eram pecadilos

Com a dificuldade de acesso ao bordel ,por bem resolveu a questão. Trajeto direto, trilha feita aos fundos da sua residência até a Pensão da Maria, iria facilitar o caminho do velho Pompílio. Não adiantava pedidos e reclamações.

Com o tempo, a situação financeira piorava, os custos das estripulias cresciam, os rendimentos caindo e os impostos não pagos, levaram a hipoteca e a perda das terras ancestrais.

Pobre, velho, manco em tudo, saúde em declínio, depressão assaltou o antigo caudilho. Não era mais tempo de lutas, de degolas, de cavalgadas inconsequentes. Nada havia mais para o Major Pompílio executar.

Numa tarde, de domingo, solitário, um tiro mal dado, destino à sua cabeça, iniciava outro capítulo. Major Pompílio não morria no físico, mas falecia na alma.Sobrava apenas outra lenda , algo que o tempo vai apagar.

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