Seamus Heaney. Mais um Nobel na Literatura Irlandesa

Estamos chegando a Dublin, cidade dos intelectuais, da vida alegre e agitada nos pubs, da música típica irlandesa, da Guiness, mas hoje as notícias dos jornais são tristes.

Seamus Heaney, prêmio Nobel da Literatura faleceu aos 74 anos após longa enfermidade. Momento de refletir e de descobrir algo mais sobre o poeta nascido em Derry da Irlanda do Norte, na cidade de Castledawson.

Nascido em família católica, no Ulster, ligado ao Reino Unido, onde os católicos eram oprimidos pela fé e política protestante – os católicos não tinham os mesmos direitos da classe dominante – será, com a caneta que Seamus irá lutar, bem diferente das bombas e atentados utilizados pelo IRA, o braço armado da Revolução.

“A poesia não oferece respostas ou soluções para os problemas da realidade, convida a refletir sobre nós mesmos, agindo no vácuo entre o que acontece e o que gostaríamos que acontecesse”.

Os tempos são outros, mas circulando pela Irlanda do Norte, totalmente ligada ao Reino Unido, passando por Londonderry, por Belfast, por Portrush e pelas pequenas cidades da costa de Antrim, pelos vilarejos de Armagh é possível descobrir as diferenças entre as duas Irlandas.

A divisão da Irlanda, único povo, conflito permanente entre duas religiões cristãs – rivalidades centenárias – trouxeram rixas e lutas sangrentas ao Ulster protestante.

Mesmo com a criação do Estado Irlandês, após a revolução de 1916, o enclave ao norte continuará ligada e fará parte do Reino Unido.

Mesmo povo, duas moedas, duas políticas, mesmas origens, dois sistemas políticas, mas no fundo uma única Irlanda, com tradições e histórias de milênios.

O episódio de 1972, denominado de “Bloody Sunday” cantado por John Lennon, por Paul Mac McCartney e pela Banda U2 e mesmo pelo cinema, ainda são recordados pelos grafites e painéis artísticos das paredes do Ulster.

Belfast, pelos atentados, pela ocupação do exército britânico, pela rivalidade entre bairros católicos e protestantes, tumultos permanentes, foi considerada cidade maldita ; junto com Beirute, Bagdá e a região da Bósnia formavam a comunidade do “B” maldito.

Educado em Derry, viveu por muitos anos em Dublin, onde irá falecer após enfermidade e prolongada permanência em hospital.

Belfast e Londonderry eram locais perigosos, conflitos surgiam entre os bairros católicos e protestantes, a repressão do exército inglês, atentados, algo que poderíamos rever nos grafites que ainda são vistos, colocados e renovados nas paredes e muros , principalmente em Belfast.

Para turistas temos excursões especiais, em taxis, para rever a arte do grafite político expresso nas periferias de Belfast. Mesmo agora, o caráter revolucionário das pinturas permanece, existem outras guerras e revoluções em andamento pelo mundo.

Fenômeno Literário, o maior poeta irlandês depois de Yeats, outro Nobel da Literatura, Seamus Heaney, foi guerreiro na poesia, sempre na defesa da Autonomia Irlandesa, famoso pelos poemas publicados.

Desde a primeira publicação, em 1966, de “Death of a Naturalist” até o seu último livro em 2010: “Human Chain” ficará famoso por suas frases, pelas citações e pelo épico Beowulf, retraduzido.

“A porta estava aberta e escura estava a casa. De onde quer que o chamasse, a resposta, já sabia, seria o silêncio”.

Atuante em época de repressão inglesa, dos atos de brutalidade, das discussões, sua pena e sua voz não permaneceram caladas.

Considerado por muitos como a esperança em Irlandas turbulentas, pesquisa lendas do passado, renova as mensagens celtas e escreve como um demônio na sua juventude.

Lecionou em Oxford e mais tarde na Universidade de Harvard.

Muitos políticos, como Bill Clinton citaram as suas frases, pois tinha missão, de através das palavras, trazer para todos os seus pensamentos e ideias.

“A Europa é a mais do que uma burocracia, é um ideal”.

“Space is a salvo. We are bombarded by the empty air. Strange, it is a huge nothing that we fear”.

O autor de “Os sonhos dos ossos” trabalhou com extrema materialidade ,com a força de um martelo manobrado por gigante, mesmo em debates internacionais.

“Europe is more than a bureaucracy, it is an ideal”.

Através de conferencias, como a voz da humanidade, testemunha que olhava para o centro e nunca para a periferia, ficará marcado pelas obras publicadas:

“Uma jornada pelos limites da linguagem” – segundo suas palavras.

Tempo de ler “North” – obra de 1975, ou mesmo “Station Island” de 1984. “District and Circle” foi sua última obra – 2006.

A sua tradução de “Beowulf” comparável a “Ilíada” , a “Odisseia” e aos “Os Astronautas”, retrata as lutas de Beowulf contra monstros, gigantes e dragões, tudo conforme as lendas existentes nos países nórdicos entre o VII e o X século de nossa época. “Era dos Vikings”.

No início, incógnito, utiliza o cognome de “Invictus” para mostrar a força do seu conhecimento; fluente em irish, latim, grego, italiano, anglo-saxão vai com palavras iniciar combate sem final. Um escritor como Seamus Heaney, um Nobel, não ficará esquecido. Momento de ler e reler: “Door Into The Dark”, “Station Island”, “The Spirit Level”.

Considerava-se irlandês frente aos conflitos dilacerando o Uslter britânico. Seu poema “Punishment” quando refere-se às punições tribais, provas reveladas por corpos preservados na turfa, onde as cordas usadas no estrangulamento das vítimas ainda são visíveis, emociona. Difícil traduzir.

Punishment

I can feel the tug
of the halter at the nape
of her neck, the wind
on her naked front.

It blows her nipples
to amber beads,
it shakes the frail rigging
of her ribs.

I can see her drowned
body in the bog,
the weighing stone,
the floating rods and boughs.

Under which at first
she was a barked sapling
that is dug up
oak-bone, brain-firkin:

her shaved head
like a stubble of black corn,
her blindfold a soiled bandage,
her noose a ring

to store
the memories of love.
Little adulteress,
before they punished you

you were flaxen-haired,
undernourished, and your
tar-black face was beautiful.
My poor scapegoat,

I almost love you
but would have cast, I know,
the stones of silence.
I am the artful voyeur

of your brain’s exposed
and darkened combs,
your muscles’ webbing
and all your numbered bones:

I who have stood dumb
when your betraying sisters,
cauled in tar,
wept by the railings,

who would connive
in civilized outrage
yet understand the exact
and tribal, intimate revenge.

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