Sinagoga El Nabi Daniel. Alexandria

À primeira vista a arquitetura da sinagoga desperta antigas recordações.

Antes da primeira destruição do Templo de Salomão, hebreus em diáspora já viviam nas planícies do Delta do Nilo. Com a fundação de Alexandria em 332 a. C. a história se renova.

Alexandre o Magno amplia o porto; a urbanização implantada é modelo do helenismo, o plano da cidade favorece a circulação dos ventos. A concentração da administração, a expansão do comércio transformam a região.

Com a morte do conquistador, começa a dinastia dos Ptolomeus, as raízes egípcias são esquecidas, apagadas. O helenismo é a mola do novo progresso. Com as guerras sírias, Ptolomeu II conquista e saqueia Jerusalém; novos imigrantes chegam como mão de obra servil para Alexandria. Outra diáspora. Israel e Judá, na rota dos conquistadores que cobiçavam as riquezas do Egito, sempre sofriam as consequências. Suas populações, forçadas, conhecem novas terras e aprendem línguas e costumes estranhos.

A localização estratégica de Alexandria concentra riquezas: bronze da Hispânia, sedas da China, estanho da Bretanha, especiarias da Índia. Em Pharos, ilha próxima, farol guia e orienta as naves vindas de todos os portos. Cento e vinte metros de altura, maravilha do mundo antigo, abrigo seguro para marinheiros de múltiplas línguas e credos.

A importância dos “Bnei Ysrael” reflete-se nos bairros ocupados e na publicação de trabalhos literários. Surge Escola Hebraica, caldo de cultura em expansão, liberdade de palavras e de pensamentos. Paraíso para expressão de filosofia. Bíblia traduzida para a língua de Homero, discussão sobre a interpretação das leis mosaicas. Os escravos vindos da terra natal eram libertados com apoio da comunidade. Obrigação milenar. Necessidades.

O conhecimento, a sabedoria, o moderno em matemática, em arte, em literatura e mesmo em religião tem Alexandria como base; estamos em 285-246 a. C. . A comunidade obtém privilégios e conquista a liberdade de culto; a Bíblia dos 70, do sábio Filon, será marco importante no início de nova época, numa nova contagem dos séculos.

A invasão do Egito por Pompeu introduz novo conquistador. Roma é a senhora do mundo. Novos personagens em Alexandria: Júlio Cesar, Cleópatra, Marco Antônio e Otávio. O trigo do Egito, embarcado em Alexandria, fornecerá o pão necessário para controlar a plebe em Roma. Mais de 50% do cereal necessário provém de Alexandria; com o circo agregado obtém-se o controle político de Roma.

Em 48 a. C., incêndio queima parte do acervo da biblioteca. Prenúncio de mudanças no futuro. Para fugir às perseguições do Rei Herodes, famílias procuravam abrigo junto as comunidades que viviam no delta do Nilo. A Bíblia relata o fato.

O cristianismo chega com o evangelista São Marcos. Os cooptas ampliam a sua influência, mas Roma ainda é a senhora do Mediterrâneo. Caracala, em 215 d. C., após ser vaiado numa corrida de bigas, dizima a elite da cidade. Maremoto submerge parte da cidade, em 391 d. C.; incêndios alteram o perfil de Alexandria e a biblioteca é quase destruída.

Em 642 d. C., com os árabes, os novos senhores, ocorre a destruição definitiva do maior acervo cultural do Mundo; em Viena encontramos um único resquício da importância cultural de Alexandria – fragmentos de papiros.

Mesmo com a alternância dos senhores e das leis, os descendentes dos primeiros hebreus não perdem sua importância; necessários ao desenvolvimento dos negócios, pois Alexandria sempre será polo estratégico para qualquer novo conquistador.

A comunidade convive com modernos dominadores: Napoleão Bonaparte, depois os ingleses após vitória naval do Almirante Nelson em Abukir, baía não muito longe de Alexandria.

Em 1942, os tanques de Rommel foram detidos em El Alaimen, 100 quilômetros longe no deserto. O sonho de Hitler de dominar os campos petrolíferos da Pérsia, com a tomada do Canal de Suez, chegava ao fim.

Mais de 100.000 judeus viviam em Alexandria, quando, a partir de 1940, recomeçam as perseguições por fanáticos muçulmanos. As guerras entre árabes e judeus, a criação do Estado de Israel, provocam o êxodo. O fechamento do Canal de Suez em 1956, os novos conflitos, a Guerra dos Seis dias são motivos para novas fugas. Convivência milenar chega ao fim.

Poucos ficaram para manter tradições, apenas velhos guarnecem os locais sagrados. Escolas e sinagogas estão vazias.

A sinagoga de El Nabi Daniel é beleza e símbolo para ser conservado, mesmo sendo apenas outro museu. Não pode ser esquecida ou destruída.

Nos dias de hoje, ofundamentalismoradical islâmico é ameaça crescente. Nem as humildes igrejas dos cooptas escapam de ataques frequentes. No início do século XXI, a nova biblioteca moderna,construídacom o apoio da Unesco, mais de 200 milhões de dólares, representa o renascimento cultural de Alexandria, a volta às raízes.

Graças as fotos de colaborador é possível apresentar as belezas de El Nabi Daniel; algo que é preciso divulgar e conservar mesmo em face das hostilidades previsíveis. As antigas preces ainda são murmúrios que devemos recitar: “Modê ani lefanêcha, Melechchai Vecayam. Rabá”

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