Os Supreendentes Contos Históricos de Felipe Daiello

Os Supreendentes Contos Históricos de Felipe Daiello.

Armindo Trevisan.

O novo livro de Daiello produz inicialmente no leitor uma impressão de aventura literária.

Como abranger, num único livro, séculos de história, uma evolução que parte dos homens de Uruk, na Suméria, e de Ramsés II do Egito, passa por Ricardo Coração de Leão e Marco Polo, detém-se em Cosimo, Il Vecchio, de Florença, ocupa-se de Francisco Xavier, e – neste primeiro volume – deságua no jesuíta-cientista Matteo Ricci, na China, que deixou pasmados seus mandarins?

Pasme, por sua vez, o leitor perante a complexa e infindável cadeia de destinos humanos, que o aguarda-nas páginas de ficção de Daiello.

O contista não “distorce” os fatos. Prefere envolvê-los numa aura que, desde Guimarães Rosa, passou a chamar-se estória, uma interpretação bem estruturada, livre e imaginosa dos fatos dos passado.

Surpreende-nos, por isso, o número de episódios incontestavelmente históricos que o autor costura em As Rodas da Fortuna, obra inclassificável como gênero literário, se consideramos o peso de sua informação cultural, e as malícias de sua trama ficcional.

Para entender Daiello,convém levar em consideração um fato: nas últimas décadas do século passado, surgiu um novo tipo de ficção que entrelaça textos ficcionais a detalhes turísticos, receitas culinárias a noções estéticas, dados locais a meditações filosóficas. Tais fatos são acompanhados por molhos e condimentos emotivos, que cativam o leitor.

Estamos, sem dúvida, diante de uma nova modalidade de literatura, a literatura que monta num cavalinho de pau, e viaja pelos territórios do coração, da mente, e da simples estesia.

Daiello pratica tal literatura. Não cansa o leitor, porque é culto, imprevisível, e inventivo. Por outro lado, não aporrinha ninguém com lições de oculta sabedoria.

O curioso é que, ao longo de tais “ficciones”, o autor ministra-nos algumas dessas lições. Mas as ministra sem pedantice, preferindo que por ele falem seus personagens.

Nosso texto não pretende ser uma análise crítica da obra de Daiello. É, apenas, uma apresentação.

Ousamos, pois, concluir: a história, cujos lances Daiello faz reviver com seus episódios, escritos num estilo comunicativo e ágil, acaba convertendo-se em amável convite para percorrer léguas e léguas da História em si, como as poderia percorrer um turista com sensibilidade aos aspectos das paisagens, aos mil e um incidentes da jornada, e até, aos sortilégios das Mil e uma Noites do Oriente.

Em tais andanças, sempre é possível topar com uma Semíramis, flexuosa e bela, de lábios vermelhos como os morangos silvestres de Bergman, e de cabelos perfumados como os das Marias Madalenas de todos os tempos.

Lembrete final: Flaubert interessou-se, igualmente, por esse tipo de ficção. Alguns leitores terão lido seu romance Salammbô, cuja protagonista era filha do herói cartaginês Hamilcar, e sacerdotisa de Tanit. Evoco Flaubert para lembrar que Daiello buscou inspiração numa fonte comum.

O autor gaúcho não tem a pretensão de comparar-se ao clássico francês. Identifica-se, isto sim, até certo ponto, com o móvel da ficção de Flaubert, o qual que escreveu a respeito de seu romance:

Cansado como estou dos feios e vulgares círculos que freqüento, irei, durante algum tempo, viver um tema esplêndido longe do mundo moderno…”

Quando o autor possui talento, ele pode acercar-nos do prazer que Jorge Luis Borges considerava um dos maiores deste mundo: a leitura.

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