Homenagem ao meu pai. Cento e vinte anos na história

Conversa de rotina, perguntas inconsistentes, respostas vagas, vazias no conteúdo, mas no instante, menção vinda do fundo do baú de memórias, despertou lembranças, reacendeu informações antigas, palavras ouvidas na infância e recordações de algo querido que já se fora a tempo.

“A justiça é cega, mas tem faro! ”

Discussões sobre política, sobre decisões judiciais em altos níveis da nossa Republica, traziam frases, atitudes e decisões do meu pai.

Nascido no sul da Bahia, em Belmonte, filho de pescadores humildes, teria futuro incerto ou mesmo nenhuma possibilidade de sucesso se não fosse a sua decisão de alterar os dados da sorte.

Meu avó, pessoas simples, era conhecido no local como Mestre da Lua, meio místico, sabia interpretar e prever os fenômenos da natureza. Previa tempestades, a localização dos cardumes, o destino dos seus amigos; adaptando os humores da lua, aos acidentes dos habitantes da região.

Pelo esforço, pela persistência nos estudos, com apoio dos parentes que o adotaram, consegue chegar à Universidade de Salvador e obter o bacharelato em direito.

De toda a tribo foi o único a alcançar diploma superior.

Época difícil, O Brasil sofria efeitos da crise mundial, não havia bons ventos e augúrios adequados na Terra de Todos os Santos.

“Missa e maré se espera de pé. ”

Marujo, apelido carinhoso como era conhecido, na família, sabia que precisava vencer barreiras, ultrapassar fronteiras; ir para o sul do Brasil o seu destino.

Por descuido, perdera uma das conexões, por mar, em Ita tradicional da época , daí a razão de uma das suas frases, a pouco repetida.

– Não cometerei outro erro. Não pretendo voltar. – algo recolhido de frases familiares.

Na época, por falta de juízes, o Rio Grande do Sul, procurava candidatos a cargos essenciais à Justiça, mas que não eram bem remunerados e nem requisitados pelos advogados gaúchos.

– Nossos causídicos só se preocupavam com a política, com os tribunais, as oratórias e as grandes causas – os locais não tinham interesse na época, para as lidas burocráticas nos tribunais.

Muitos nortistas encontravam local propício para iniciar carreira, criar famílias e trazer novas sementes para o Rio Grande do Sul.

Como juiz, circulando pelas comarcas do interior, foi em Cruz Alta que conheceu jovem professora primária. Loura, olhos verdes,com Alda, minha mãe, iniciou uma ligação permanente até a sua morte.

– Ele era excelente dançarino. Um pé de valsa – ecos do passado custaram a desaparecer.

Foi seu segundo casamento, pois já possuía três filhos de uma primeira ligação. Meus irmãos, conhecidos mais tarde, tiveram projeção nas carreiras escolhidas. Medicina e Direito.

Em 1940, época da Constituição Polaca, quando Getúlio Vargas governava por decreto e interventores eram responsáveis pela administração dos Estados, meu pai teve que fugir para o Rio de Janeiro.

Foi época difícil, sem recursos, vivendo em pensões baratas ; o primeiro filho recém-nascido, dificuldades para a sobrevivência, nada para fraldas, para o talco essencial a pele da minha irmã Majane. Imagino o que a perseguição política causou para meus pais.

O ganho de uma causa, milagre que minha mãe repetia nas palavras, iniciou a recuperação.Oito de dezembro, dia da Nossa Senhora , sempre foi comemorado na casa.

Graças a amizade de Pedro Vergara, advogado influente, político com transito no Palácio do Catete, foi possível desfazer os enganos, os mal-entendidos e as mentiras levantadas contra a atuação de um juiz correto.

As decisões jurídicas de Maurílio Daiello, meu pai, tinham contrariado altos escalões.

– Ele não é inimigo do poder. Não tomou nenhuma atitude ou decisão ilegal – aos poucos as justificativas, os apoios, traziam à tona a verdade.

O tempo passava, as manchetes os jornais desaparecem no amarelo e no mofo dos meses; perdoado e desculpado, ele pode retornar e reassumir as suas funções como magistrado.

Levei muito tempo para entender a sua posição, permanente, contra o Getulismo, político que era apresentado como o pai dos pobres e protetor da Nação.

– Sua atuação ditatorial, com polícia secreta sob comando do famoso Felinto Müller, as proibições dos hinos regionais, a supressão das bandeiras dos Estados, bem como a implantação de regras trabalhistas com imagem do Fascismo de Mussolini, foram mensagem que guardo até hoje.

Desde pequeno, atento as suas prédicas durante as refeições, recebi lições de como ele procedia na análise e nas decisões que chegavam nos autos dos processos.

Como civilista,amigo de Pontes de Miranda, tinha caligrafia difícil de entender, muito do que deixou manuscrito só ele e Deus podem agora ler e compreender.

Era conhecido pela capacidade de dentro de milhares de páginas dos processos localizar o essencial, para a decisão que tinha que tomar.

-Como são burros esses advogados, tem a razão do direito, mas não sabem como colocar os argumentos adequados, os fatos essenciais à defesa dos seus clientes, deixam brechas que a parte contrária sabe explorar muito bem.

Numa época em que a magistratura não era reconhecida, vencimentos parcos, nossa vida não era fácil. Orçamento apertado, nada de mesadas; tínhamos direito a um par de sapatos por ano. Minha mãe, com melhor tino comercial, era a responsável pelas finanças, pelos pequenos negócios e pelos alugueis que ela obtinha pela administração do que recebera de herança.

Diplomata, paciente, Maurílio Daiello nunca fechava as portas para os advogados. Acessível, fazia amizades de modo rápido.

Alguns juristas, famosos no futuro, como Paulo Brossard e Antonio Pinheiro Machado, neto do famoso político, eram pessoas que traziam informações, conhecimentos de antigas revoluções, das sagas, das lutas entre Chimangos e Maragatos, até a nossa casa.

Como testemunha, meio camuflado, figura escondida, eu escutava histórias que ainda recordo. O importante era ficar ao lado, desapercebido das conversas entre os mais velhos.

Quando sobrava tempo, após o almoço, gostava de passear pela quadra, eu ia a reboque nas voltas em torno da Cândido Silveira, local de nossa última residência.

Mantinha velhas tradições, exigindo a tradicional “ benção meu pai “, quando acordava.

Nas refeições mais importantes, em dias festivos, sempre a política era algo em destaque. Instante em que recebia lições de civismo, de cultura e de análises partidárias.

Calmo por temperamento, com grande capacidade de trabalho, mantinha biblioteca onde os temas jurídicos ocupavam quase todas as prateleiras.

Após a sua morte, vasculhando o que deixara, dei-me conta de sua imensa cultura. Livros em francês, em italiano, em espanhol, inclusive obras clássicas, algumas centenárias, onde as observações efetuadas nas margens, apresentavam características de personagem que eu desconhecia. Muitos exemplares, importantes pela edição, pela raridade, fazem parte do meu acervo.

– Quem vai nos proteger da justiça? – Era a frase emitida quando as violências do Poder Judiciário encontravam apoio na magistratura não muito sólida.

Muitos fatos eu descobri mais tarde, pois ele não era aberto a diálogos que considerava inúteis.

– Em São Borja, por contrariar interesses locais, da família Dornelles, como era juiz eleitoral, teve que se esconder num cofre, quando o tribunal local foi alvo de tiros de advertência – fato que não pude comprovar na integra, mas que reforça o seu repudio à Ditadura de Getúlio Vargas.

Foto antiga que apresentava o nosso ditador, fumando o seu tradicional charuto, apresenta, meu pai em atitudes distantes, desligado, não subserviente e bajulador como os demais da cena. Está no meu arquivo.

“ Quem tem medo do lobisomem? ” Livro que trata de questões jurídicas no Rio Grande do Sul, apresenta capítulo sobre processo e decisão de herança famosa, onde o interesse era político e tendencioso. Por sugestão do Governador, à época, jantar de confraternização foi marcado para melhorar o relacionamento com os desembargadores. Devido ao caráter eminentemente partidário, apenas dois desembargadores declinaram do convite. O desembargador Daiello, meu pai, foi uma das exceções. Homem de princípios.

Por compulsória, aos 70 anos, teve a sua carreira de magistrado interrompida; mesmo contra a vontade teve que parar.

As tentativas de lecionar ou mesmo de trabalhar como advogado não prosperaram, pois fugiam da sua vocação de vida.

A magistratura, o Direito Civil, eram a razão de toda a sua existência.

Meu pai, apesar de manter contato com suas raízes baianas, ajudando monetariamente parentes mais pobres da família, nunca cultivou as crenças africanas. Ao contrário, não dava nenhuma importância aos ritos, símbolos e deuses do axé.

– Culturas que não usam a escrita para perpetuar as suas informações, não tem nada de importante para transmitir para o futuro – suas palavras.

Mesmo não sendo católico fervoroso, adorava as missas festivas. Mesmo a contra gosto, eu era obrigado a assistir as longas celebrações, o cheiro do incenso, os ditos em latim, o órgão, as cantigas do coro e o luxo nos paramentos sacerdotais eram o chamariz.

Pelo hábito ou não, além das óperas, outra das suas predileções, também desenvolvi o mesmo gosto. Principalmente quando nas catedrais góticas da Europa, como em Notre Dame, em Paris,posso assistir ritos solenes.

Cresci tendo ele como modelo em tudo, principalmente na retidão de sua atuação como juiz, nas decisões que tomava, após longos estudos, no amor pelos livros, pela literatura e dos personagens infantis que aterrorizavam as crianças desobedientes.

“Cuidado com o Bicho Manjaleu! Ele vem atrás dos desobedientes. ”

Na idade em que as namoradinhas eram olhadas por outros lados, ele não era de falar muito.

“De noite todas as gatas são pardas”. – bom conselho.

Vendo seu retrato, relíquia que guardo no meu escritório, oportunidade em que dava seu último despacho; questão complicada sobre o Município de Tramandaí, é de onde, às vezes, de modo automática eu olho pedindo apoio em alguma questão complicada.

Maurílio Alves Daiello, de longe, parece sempre capaz de indicar o caminho adequado nas decisões de cada dia, de cada caso, de cada problema.

“ Se não tens provas, não esgotes esforços em encontra-las. ”

– O processo judiciário segue normas escritas – complementava.

Apenas, mais tarde eu poderia fazer alguns reparos às suas observações, pois eu já sabia que no escuro, as gatas têm cheiros diferentes e usam artimanhas distintas em cada noite.

Olhando os anais, verificando o ano de seu nascimento, 1898, apesar das controvérsias sobre o registro, fica claro que o nome Daiello, por muito tempo vai aparecer o meio jurídico. Muitos dos seus descendentes continuam a trilha por ele iniciada.

Apesar de ter seguido a engenharia, muitos dos seus ensinamentos formataram e ajudaram no sucesso da carreira que escolhi. Tive um grande mestre e pai, personagem que deixou lições que preciso transmitir. Obrigado, desembargador Maurílio Alves Daiello, nome que foi legado para a posteridade na denominação de praça na zona sul de Pôrto Alegre.

Compartilhe

29 respostas para “Homenagem ao meu pai. Cento e vinte anos na história”

  1. Pingback: levitra vs cialis
  2. Pingback: doctor7online.com
  3. Pingback: discount cialis
  4. Pingback: albuterol inhaler
  5. Pingback: Yeezy 350
  6. Pingback: cealis
  7. Pingback: viagra for sale
  8. Pingback: Order viagra
  9. Pingback: canadian cialis
  10. Pingback: buy tylenol
  11. Pingback: viagra women
  12. Pingback: buy erection pills
  13. Pingback: top rated ed pills
  14. Pingback: walmart pharmacy
  15. Pingback: Real cialis online
  16. Pingback: levitra dosage
  17. Pingback: vardenafil generic
  18. Pingback: casinos

Os comentários estão desativados.