Mercado de Córdoba.Arte Moçarabe na Espanha

Cidade de três culturas, Córdoba surpreende pelo legado deixado, durante o Califado que supera o de Damasco, por árabes, cristãos e judeus. A arte moçarabe abraça características básicas dessas três civilizações.

Em plena Al-Andaluz, as sacadas no ferro, os vasos com flores dependurados nas paredes, as laranjeiras com frutos amargos nas ruas e pátios, criam cores, aromas e perfumes chamativos; instigam a atenção de quem chega como visitante. Logo ficamos cativos dos encantos de Córdoba. Não há lugar igual na Espanha. Único!

Junto ao Rio Guadalquivir, ponte com características da época romana, perfil típico da engenharia de Roma, fascina pelo perfil dos seus arcos. As fotos são magníficas com a variação do colorido proporcionado pela luminosidade do dia. As ruínas da primitiva ponte, construída no início do século I, atestam a importância de Córdoba como centro comercial desde os primitivos tempos. A Via Augusta, de Roma até Cadiz, passava por aqui. Vestígios de velhos moinhos, eram quatro, demonstram o uso adequado do potencial hidráulico das águas para a produção de riquezas. O formato e a dimensão dos pilares, modelo usual das obras das legiões quando em períodos de paz, mostram que eram projetadas para suportar as cheias eventuais.

Com a invasão muçulmana, aparece califado que alcança poder e riquezas nunca antes vistos. A arte árabe se adapta e acrescenta sua contribuição à herança romana e visigoda, surge algo inusitado no mundo.

Como prova da importância de Córdoba, temos a construção da mesquita principal. Iniciada, em 786-88, por Abd-al-Rahman I, ela foi ampliada pelo seu sucessor. Em 951, Abd-al-Rahman III agrega minarete com 40 metros. Modelo que será replicado depois em diversos locais, tanto da Espanha, como no Magreb.

Na atual torre campanário, edificada depois da reconquista da cidade pelos cristãos, em 1146, quando subimos as escadas internas rumo aos sinos, as bases do antigo minarete podem ser observadas. As fundações foram, como usual, reutilizadas pelos vencedores.

O esplendor da cidade ocorre durante o período Omeyade, quando Al-Hakam II conclui a segunda extensão da mesquita. Córdoba, como califado, estende seus domínios até o norte da África ,o Magreb segue as regras da nova senhora do Al-Ándaluz. Damasco fica em segundo plano.

A última expansão da mesquita acontece no ano de 991,é obra de D’Almanzon. Mesmo no hoje é possível constata a grandiosidade das construções, deixadas pelos mulçumanos, durante mais de 400 anos de domínio.

Com a reconquista, Córdoba inicia outra fase na sua existência. Surge a maravilha da Catedral Mesquita. Ao contrário do ocorrido noutras cidades da Espanha reunificada na fé, a mesquita original não é demolida, ao contrário, com o apoio da população em geral, que trabalhara unida durante a ocupação árabe, a estrutura básica da arquitetura religiosa, as decorações com arabescos, as colunas, os minaretes, tudo será mantido. A construção da Catedral, no centro do complexo se harmoniza com a beleza, com as formas do antigo templo muçulmano. Os cristãos, mesmo mantendo sua fé, vestindo-se como os muçulmanos, falando o árabe, sujeitos a leis e costumes de fora, criam a cultura moçarabe. Para eles, seria pecado destruir o que ajudaram a construir. Para nossa sorte, hoje a edificação é patrimônio da humanidade. As fotos falam mais do que palavras e elogios.

Nas bodegas, nos mercadinhos, além do artesanato tradicional, podemos saborear o prato local. O Salmorejo Cordobês, omelete com receita própria, é iguaria apreciada fria. Decorado com presunto curado, com cubinhos de ovo cozido, o creme é elaborado conforme tradição secular. Com tomates, pão, alho, azeite virgem e pouco sal. Recomendado para os dias quentes do verão. O vinho cordobês faz boa parceria.

Para os paladares mais refinados, o Mercado Vitório é a indicação. No entanto, em parada rápida, fome leve, os tapas locais podem ser degustados nas tavernas voltadas para as praças perto da mesquita. O chá árabe pode ser o acompanhante; os sabores são exóticos, complicado adivinhar o que é servido.

Além da Catedral, construída dentro de uma das maiores e mais bonitas mesquitas do mundo, ponto central da visita, da torre anexa, temos local para a melhor vista da cidade. Córdoba apresenta casario típico e antigo, pátios internos com jardins e fontes, vasos com flores nas paredes brancas, ruas estreitas que nos levam a tradicional Juderia. Oportunidade de recordar médico, filósofo, pensador e rabino. Maimônides, nasceu aqui em 1135/38, sua família devido a perseguição dos Almohades, iniciada em 1148, sai de Córdoba e mais tarde precisa escapar para Fez, no Marrocos, em 1159/60. Com a continuação das perseguições por parte dos fundamentalistas, o seu destino é o Egito e depois a Terra Santa nos anos de 1160/66. Ranbam, como é mais conhecido, escreve textos sagrados, leis e regulamentos reconhecidos até hoje pela tradição judáica – Mishê Torá e More Nevshim. Foi enterrado perto do Lago Tiberíades. Seu túmulo é local de veneração em Israel.

Depois de experimentar o Salmorejo, as Cavalariças Reais, com seus cavalos amestrados, seguem o roteiro. Os jardins do Alcazar dos Reis Cristãos, ao lado, pedem atenção, Foi daqui que as tropas para a conquista definitiva de Granada partiram. Segundo fontes, Cristovão Colombo teria no palácio tido o primeiro encontro, onde solicitou apoio para o seu projeto de alcançar as Índias em rota contrária a dos portugueses.

A história do mundo pode ser lembrada em muitos locais dessa cidade magnífica.

Da torre da catedral, antigo minarete, inaugurado em 961, temos a melhor vista da parte antiga de Córdoba e do Guadalquivir. Na hora do Angelus, lá do alto, visitante presente, os sinos badalam antigas canções. A Torre de Calahorra, Bastião protetor da ponte, na entrada da cidade, aparece com toda imponência. Agora é outro museu para visitar. Defende a passagem da ponte romana, Depois de circular pelo que restou das antigas muralhas, passando por portas de passagem e de cobrança de tributos, excelente exercício para aguçar a fome, qual será a escolha para o jantar. Comida árabe ou algo associado a Córdoba da atualidade?

A recomendada ratatouille, aqui denominada de Saternada, é alternativa para as beringelas fritas ou para as almôndegas moçarabes em molho de amêndoas e de azafrão. Na dúvida, fique no Jámon Ibérico, tradição com o pão pleno do azeite extravirgem preparado com as ervas da região. O produto local, tempero caseiro, diferenciado, foi aplaudido e recomendado.

Nas lojas, além dos alfajores, das carteiras de couro, encontramos licores de Córdoba e os conhecidos artigos da Andaluzia. Leques, rendas, castanholas, chales, artigos para os peinados, quando comprados pelo impulso acabam esquecidos nos fundos de gavetas ou perdidos nos armários

Os moçarabes, cristãos que viveram centenas de anos sob a influência cultural dos invasores, eram reconhecidos e necessários pelos seus conhecimentos na economia, pela atuação na agricultura, pela utilização da irrigação. Necessários para a economia do Califado, podiam participar, mesmo com restrições, da política, da administração e mesmo pagando impostos mais elevados nos seus atos de fé.

Quando os reis de Castela e de Aragão alcançaram o poder, eles foram considerados hereges, corrompidos na fé, mas continuavam essenciais para a consolidação de Espanha Única. Até hoje, como em Toledo, certas missas, na Espanha, são rezadas conforme ritos e com preces diferenciadas. Mesmo a Inquisição não conseguiu extirpar velhas tradições e costumes da Al-Andaluz.

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