Bevis Marks. Primeira Sinagoga de Londres. Histórias

Bevis Marks. Primeira Sinagoga de Londres. Histórias

Com a Inquisição, revivida por Isabel e Fernando em Castela, após a retomada de Granada, graças aos sermões do Arcebispo Cisneros, com efeito danoso e irreversível para a economia da Espanha, começa outra diáspora. Marranos, nome pejorativo, equivalente ao de um porco, para escapar ao extermínio religioso, mesmo batizados, para a professar a verdadeira fé, fogem primeiro para a Holanda e depois para Inglaterra, nação protestante , mas cristã.

Num estreito beco, em 1701, foi edificada a primeira sinagoga em metrópole em desenvolvimento, Londres.

Como aos judeus não era permitido a construção de prédios nas ruas principais, não havia outra solução.

A comunidade local, onde predominava judeus de origem portuguesa e espanhola, contratou por £ 2.650,00 a construção de prédio, cuja estrutura básica chegou aos nossos dias. As gravuras da época comprovam.

Durante a blitz desencadeada pela Luftwaffe, durante os anos de 1940 e 1941, foi uma das únicas a escapar dos incêndios que devastaram Londres.

Bem perto, a Catedral de São Paulo, foi outra referência de Londres que sobreviveu, mesmo com pequenas sequelas.

Uma visita permite rever antigos móveis, cadeiras, murais e pinturas originais. A modernização das instalações não apagou a beleza criada em 1701.

Devido as suas origens, sefardita, os ritos seguem as antigas tradições; termos portugueses estão ainda em voga, e ressurgem entre novas orações e súplicas.

Placa comemorativa da contribuição da comunidade, durante a 1ª Guerra Mundial, quando membros da congregação judaica lutaram pelo Reino e pela Inglaterra, relembra os que não voltaram da empreitada.

Os nomes são categóricos: Correa, Pereira, Martines, Henriques, Ribeiro, Andrade, Costa, Mendes … heróis esquecidos.

No museu judaico de Londres, obra patrocinada pelo Banco Safra, encontramos memoria que explica e esclarece a chegada dos membros da Diáspora nas distantes terras da antiga Albion.

Com as tropas romanas é possível que poucos da fé de David, tenham chegado até Londiniun, no entanto, não encontramos evidencias concretas. Menções escassas…

Os ritos eram realizados nas casas dos membros mais influentes, somente em 1701, é que os projetos de construção da Sinagoga são realizados.

Quando Willian, Duque da Normandia, derrota o Rei Alfredo em 1066 na batalha de Hastings, alguns poucos hebreus chegam a Inglaterra Saxônica. Necessários para desenvolver o incipiente comércio; durante os primeiros reis normandos, descendentes dos terríveis vikings não houve problemas para a pequena comunidade. Com o advento das cruzadas, a tolerância se deteriora, começam as perseguições e os massacres são decorrência.

Em 1290, édito do Rei Eduardo I, culmina com a expulsão de todos os judeus. Os seus bens são expropriados em favor da Coroa Real. Maneira de quitar dívidas e empréstimos.

Nossa visita coincidiu com o dia mais sagrado do ano para os israelitas: Yom Kippur -5774. Momento de frente ao Eterno, ao único, pedir perdão por nossas transgressões e falhas. Somos humanos como todos. Falhamos em alcançar a marca: “Aval Hatanu… “

Hatima Toba, palavras do Rabbi Joseph Dweck, são para relembrar e não esquecer.

Com o puritanismo de Cromwell, petição apresentada pelo “Povo do Velho Testamento” permite a entrada de novos membros.

A guerra entre Espanha e Inglaterra, causa tumultos, membros da comunidade com origem espanhola, tem os seus bens expropriados, até provarem serem judeus e inimigos da Espanha.

A mais velha sinagoga existente na Inglaterra, segue a edificação de Casa de Oração aberta em 1656, no segundo pavimento em Creechurch Lane. Placa recorda a antiga Cunard House que abrigou a comunidade em crescente expansão.

Em 5461, no mês de Ellul, setembro de 1701, deu-se a inauguração da Bevis Marks Sinagoga.

Agora, olhando as gravuras, os quadros, os murais, os arquivos, muito dos relatos de anos passados ressurgem. Parecem pedir plateia, audiência, querem falar.

Os antigos bancos vieram do velho casarão de Creechurch Lane, a pintura representando Moises e Aaron em frente aos 10 Mandamentos é o original de 1675. As doze colunas do templo, arquitetura semelhante a Sinagoga Portuguesa de Amsterdam, 1675, representam as 12 tribos de Israel. Além de local de orações, para os pobres e órfãos, aqui havia proteção e educação disponível e mesmo cuidados médicos. Fundos eram providenciados para resgatar cativos dos piratas que infestavam os mares naqueles tempos de tumulto.

Foi devido a divergência com autoridades, que o chefe da clã d’ Israeli, ao se afastar da comunidade e ao batizar os seus filhos, permitiu que Benjamim d’ Israeli, se torna-se Primeiro Ministro da Inglaterra, algo proibido para os judeus. O patriarca não aceitara a aplicação de multas e de penalidades.

Em 1956, celebrou-se o tricentenário da licença dada por Cromwell, permitindo a chegada de mais imigrantes judeus. De origem italiana, no futuro, Moses Montefiori será destaque pela atuação que teve junto à comunidade local e mesmo nas viagens à Palestina, sempre usando a sua fortuna pessoal – obtida na bolsa de valores – em favor das populações judias perdidas e oprimidas por um mundo agressivo e hostil. Merece a placa de recordação.

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A Sinagoga sobrevivente em Gdansk. Polônia. Zdjecia

Gdansk, nome polaco, ficava em posição estratégica no antigo corredor polonês, um dos motivos da eclosão da 2ª Guerra Mundial. Dantzig, para os germanos, representava antigas raízes, o porto do Mar Báltico famoso pelas riquezas proporcionadas pela exportação de cereais das regiões da Polônia.

No comércio estabelecido pela Liga Hanseática, Dantzig era elo importante nas rotas marítimas da época, vital conexão. Local de fortunas. A ordem dos Cavaleiros Teutões era soberana e ditava as regras. Comunidade hebraica se instala na região.

Para conexão com a Prússia oriental era necessário passar por região entregue à Polônia pelo Tratado de Versailles. Uma humilhação para uma Alemanha derrotada na 1ª Guerra Mundial.

O primeiro disparo e a primeira morte ocorreriam naquele dia de 31 de setembro de 1939; sinal de hecatombe que poucos podiam prever.

Com a dominação nazista, as sinagogas existentes foram destruídas, a que restou foi transformada em depósito pelas tropas alemãs.

Durante o avanço dos exércitos vermelhos, em 1944,a cidade de Gdansk foi aniquilada, mais de 95% dos prédios destruídos; para as tropas alemãs era necessário defender o solo pátrio até o último soldado. Prédios históricos desapareceram.

A sinagoga sobrevivente, Zdjecia, teve que ser recuperada, reconstruída até, alcançando hoje as cores e as formas do passado. Apesar do pequeno número de judeus junto a comunidade polonesa, ainda atrai fieis. O Holocausto foi terrível, a dominação soviética, após a capitulação de Berlim, também cobrou pesado pedágio.

Hoje, é mais visitada por judeus vindos de toda a Europa, que procuram a Polônia em busca de lembranças, de nomes, em busca de vestígios de parentes que desapareceram nas dezenas de campos de extermínio construídos pelas tropas da SS. O uniforme negro, a caveira estampada no quepe, indicava a presença ameaçadora da morte: Birkenau, Auschwitz…

Hoje Gdansk após os episódios do Sindicato Solidariedade, com os seus estaleiros desmantelados, inicia uma nova era; muitas feridas ainda custam a cicatrizar. Agora os inimigos são os soviéticos e existe um corredor russo que leva ao porto de Kalinigrado. Enclave soviético dentro da nação polonesa. Problema para o futuro .

– A maioria dos poloneses compreende o russo, mas quando os “vizinhos” chegam ninguém fala a língua do estranho – palavras do meu guia e orientador. Continuam inimigos históricos. O massacre de Kathin não foi esquecido.

Estamos num domingo, dia de festas, de feiras e de desfiles de bonecos gigantes. Oportunidade de experimentar a culinária e os pães poloneses, os pepinos, as salsichas. Depois uma visita aos mercados, onde o âmbar aparece em múltiplas cores e a seguir uma visita as antigas instalações portuárias, aos silos e carregadores da época medieval de Gdansk. Oportunidade para renovar os agradecimentos da vida concedida a cada dia para os fieis de todas as religiões.

“Vaydaber Ado-naiel Moschê Lemor. Co Tevarechu et Benê Ysrael”

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Sinagoga Beth Israel de San Diego. USA

www.daiello@cpovo.net

Numa colina próxima da antiga povoação de San Diego, local edificado pelos espanhóis vindos do vice-reinado do México, onde porto aberto e amigo acolhia viajantes de todo o mundo, encontramos a sinagoga. Distante da cidade do México e das cidades do leste dos Estados Unidos, San Diego era local diferenciado, onde todas as nacionalidades eram aceitas. O monopólio da Coroa Espanhola não era obedecido.

No início, apenas a carne era o único alimento disponível, básico no cardápio dos primeiros colonizadores.

A Praça Central era o local onde as efemérides mexicanas, as tradicionais feiras e as atividades dos dias festivos, incluindo o Dia dos Mortos, eram comemoradas. Agora, nos domingos, podemos reviver as antigas tradições. Uma festa para os olhos e para as máquinas fotográficas.

As antigas casas de adobe, restauradas algumas, reconstruídas outras ou edificadas conforme a arquitetura da época são marcos importantes para perceber o desenvolvimento da primitiva San Diego. A parte antiga é verdadeiro museu.

Frei Junipero Serra, na sua passagem pela trilha do Rio Grande, deixou também a sua colaboração. Outra missão franciscana, onde o lema era:

“Nunca olhe para trás, siga sempre em frente”.

Foi nesse cenário, após a descoberta do ouro em 1847/1848, origem da famosa corrida rumo à Califórnia, que judeu alemão, em 1851, vindo de New Orleans e passando pelo Texas, estabeleceu comunidade na fé de Israel. Swhartzman era o nome.

O templo de madeira, Beth Israel, ainda está em atividade. Interessante observar os móveis, o órgão, a sala de espera, os sanitários, tudo bem conservado.

Após as guerras entre México e os Estados Unidos, quando os cavaleiros americanos chegaram a tomar o Palácio Presidencial na Cidade do México, pelo tratado de Guadalupe – Hidalgo de 1848, as fronteiras foram alteradas, imensos territórios anexados.

Califórnia, Texas, Novo México, fariam parte da nação que surgia líder na América do Norte.

Com o desenvolvimento do comércio com a Rússia, com a China, com o próprio México, com a descoberta de jazidas de prata pela região, outros membros de fé de Israel aportaram a cidade que continuava bem independente. Longe dos centros de decisão, era possível administrar no local as necessidades da cidade. San Diego sempre senhora do seu destino.

No comércio local circulavam moedas de prata e de ouro do México, bem como os dólares de prata da América.

Pela produção local de prata, moedas eram cunhadas em San Diego O museu local é testemunha.

Inclusive, a prata, as riquezas locais, atraiam salteadores. Assaltos às diligências, aos trens que começavam a chegar, eram frequentes. Rotinas.

Os avisos de “Procurados, “Vivo ou Morto”, com valores em dólares, números expressivos para época, ainda podem ser vistos nos museus e lojas locais.

Uma mistura racial, incluindo escravos libertos ou fugitivos, bem como colonos vindos de tão longe, religiões diferentes, tinham em San Diego, local de acolhida. Duas culturas principais se mesclavam, hábitos, alimentação e métodos de trabalho, roupas e estilo de vida surgiam em San Diego. Globalização.

Foi nesse ambiente que a comunidade Beth Israel cultivou os seus valores e formou comunidade ativa até hoje.

Pelos jornais e informativos da época, a família Straus, cinco irmãos, teria atividade no ramo de roupas que traria fama aquele nome. Pioneiro em San Diego, Levi Straus, percebeu que poderia usar a lona não vendida para cobrir as carroças dos mineradores, em roupa de trabalho ultra resistente; duráveis essenciais para o trabalho pesado nas minas. Sucesso que ainda não terminou.

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Touro Sinagoga nos EUA

Touro Sinagoga em Rhode Island

Na cidade de Newport encontramos templo histórico mantido pela Congregação Salvação de Israel – Yeshuat Israel — que segue a linha ortodoxa.

A Congregação foi fundada em Nova York, no ano de 1658, por judeus portugueses que abandonavam Recife após a capitulação holandesa e que mais tarde se deslocaram para Newport, porto em pleno desenvolvimento naqueles anos.

A pedra fundamental foi lançada em 1759 e a inauguração ocorreu em 1763, sendo hoje a sinagoga mais antiga em atividade nos Estados Unidos.

Junto ao templo, ao lado de jardins, centro cultural e memorial formam uma das atrações de Newport – Rhode Island – USA.

A construção foi possível graças aos recursos provenientes de várias congregações espalhadas pelo mundo. O projeto é referencia da época colonial britânica. Peter Harrison, protestante, foi o arquiteto. A Kings Chapel de Boston e a Igreja de Cristo em Cambridge — Massachutts — são obras típicas de Peter Harrison.

George Washington e Kennedy fizeram importantes discursos políticos cujas palavras estão guardadas junto ao memorial – construção moderna em anexo. Liberdade é a palavra mensagem que precisamos conservar.

Os pioneiros, de origem sefardita, tiveram importante participação no comércio internacional, no desenvolvimento da navegação costeira da Nova Inglaterra e no artesanato, principalmente por disporem de contatos comerciais em diversos países do mundo além de dominarem a diplomacia das línguas.

Judah Touro, filho de um dos pioneiros , ficou famoso como grande filantropo; o monumento à primeira batalha da Revolução Americana em Bunken Hill – Boston, onde obelisco surge como agulha libertadora, teve boa parte dos recursos doados pelo filho de Isaac Touro. O monumento servirá como referência para o obelisco de Washington:

Subindo a pequena colina, em curva suave, chegamos ao antigo cemitério. Nas lápides, podemos como o poeta Longfellow, em letras quase apagadas, ao lado dos nomes hebreus clássicos da bíblia, encontrar palavras estranhas para ele: Lopes, Mendes, Seixas, Rivera e Rodrigues.

O cemitério colonial da Nova Inglaterra registra para a posteridade, que foram colonos portugueses os primeiros hebreus a chegarem a uma nova terra prometida.

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Sinagoga Central de New York

Desde a época da colonização holandesa, na ilha de Manhattan, New Amsterdam já acolhia imigrantes judeus. Após a Reconquista de Recife pelos portugueses, 1640, o fluxo se intensifica.

Para fugir dos rigores da Inquisição e da intolerância religiosa, ainda mais que Portugal recém saia do domínio rigoroso dos reis da Espanha, parcela da comunidade hebraica, em vez de se embrenhar pelos sertões da Terra Brasileira ou de retornar para a Holanda, seguiu rumo distinto: para o Caribe e para a América do Norte. No caminho, furacões e piratas, outros desafios. Poucos chegaram para construção de nova vida.

Antigo cemitério, nas proximidades de Chinatow, em lápides quase apagadas pelo tempo, mostra os nomes portugueses dos primeiros desbravadores: Fonseca, Castro, Seixas, Gomes, Nunes, Cardozo, Bueno de Mesquita…

Eles vieram para ficar, para construir novo lar, outra esperança. Surge a comunidade Sharit Israel.

Com o domínio inglês, com o início da Revolução Americana, apesar do pequeno número, menos de 3.000 almas na Fé de David, para uma população total de quase 2 milhões de habitantes em todas as colônias, começa nova época.

Os filhos de Israel terão destaque nos negócios, no artesanato, no comércio e mesmo na política.

Os tempos mudam, perto de Wall Street, local onde é fundada a primeira Bolsa de Valores da América, a primeira comunidade é fundada.

A antiga sinagoga não mais existe, restaram apenas os vestígios de tempos bem vividos.

Com a expansão da cidade, em direção ao Central Park, onde os magnatas constroem mansões, na Lexigton Avenue, 625, surge a atual Sinagoga. Projeto do arquiteto H. Fernback, linhas mourísticas tradicionais.

Cercada agora de arranha céus, substitutos de antigos prédios companheiros, esquina bem localizada, transparece presença magnífica e recorda passado que não se pode esquecer.

Do passado, palavras na língua portuguesa ressurgem nos cânticos, nas preces e expressões rituais e mesmo para designar móveis, utensílios e procedimentos. Na Sinagoga Central de Nova York os ecos do passado não morreram.

Quanta diferença ao compararmos a centenária Sinagoga com a moderna construída perto do Lincoln Center.

Ao final do século XIX e no início do século XX, nova onda de refugiados, vindos, principalmente da Rússia e do leste Europeu, introduz novas facetas, outras culturas, mas refletindo a mesma fé dos pioneiros vindos do Brasil e as mesmas palavras de esperança surgem por toda Nova York.

“Yesimecha Elo-him kê Efraim vechi-Menashe”

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