Sinagoga Histórica da ¨6th Avenue Washington

Sinagoga Histórica em Washington

Cidade Monumental, com avenidas, museus e obras de arte pelas praças, Washington estava pronta para receber a floração de suas cerejeiras. As margens do Potomac, o entorno do Mall e seus memoriais, aguardavam o rosa das flores doadas pelo Japão em 1912.

Numa das passagens pela cidade, deslumbrados, a arquitetura típica daquele prédio, até então desconhecido, requeria um retorno. Sinagoga pedia apresentação, não havia como desconhecer as suas exigências.

Coincidência ou não, no Museu A.Sackler, junto ao prédio da Administração Smithsoniana, exposição sobre o Império Persa, imperdível, apresentava como ponto alto um dos Cilindros de Ciro. Em cerâmica, escrita cuneiforme, da época babilônica, 539 a.C. , revelações, atos e decretos do novo Imperador ressurgem após as escavações de 1879 no atual Iraque. Como foi longo e penoso o caminho para a Liberdade do povo hebreu.

Após a derrota do último Rei da Babilônia, Belsazar, um novo império domina a Mesopotâmia.

A Bíblia relata o fato e a pintura de Rembrandt imortaliza a cena. Durante o último banquete, letras estranhas surgem nas paredes do palácio. São desígnios de Deus, confirma o profeta. Os últimos dias da Babilônia chegaram. Em hebraico estava o aviso dos céus.

Ciro, o fundador do Império Aquemenita, que durará até a vitória de Alexandre Magno sobre Xerxes, introduzirá liberalidades nas terras recém-ocupadas. Os decretos expressos na cerâmica são claros: os povos trazidos como escravos poderão retornar às suas origens. Ao povo hebreu será permitido retornar a Jerusalém; os tesouros roubados em parte serão devolvidos. A reconstrução do Templo a tarefa principal.

Por isso, Ciro será denominado o Pastor de Deus. A Bíblia registra a oferta e a liberdade. Livro de Esdras.

Começa o retorno para a terra prometida. Além da liberdade, muitos conhecimentos aprendidos durante a época da escravidão servirão à propósitos futuros. A cunhagem de moedas, o seu uso no comércio entre nações não ficará como simples conhecimento. A Lídia, na atual Turquia, ensinava como transformar o ouro e a prata em moeda para facilitar intercâmbio e comércio entre as nações. A coleção, com a esfinge de Ciro e de Dario, no ouro brilhante, anexa à exposição, é magnífica.

A beleza da Sinagoga da 6th Avenue em Washington está na sua arquitetura, na mistura do estilo mourisco tradicional, com detalhes Bizantinos e Romanescos. As cúpulas e os domos introduzem elegância à construção. No aspecto técnico utiliza o concreto tanto para os pilares como para as lajes. Substitui a madeira tradicional.

Detalhes surgem nos cantos, nas escadas e nos escondidos das paredes.

Mesmo as infiltrações e o passar dos anos não retiram a harmonia e a beleza do conjunto.

A Sinagoga representa, nos Estados Unidos, exemplo típico da construção religiosa hebraica do início do século XX.

A Congregação Adas Israel, que mais tarde muda-se para Baltimore, foi a responsável pela construção de um dos primeiros templos na área de Washington – DC.

Restaurações no prédio, após 1958 tentaram preservar ao máximo os vitrais e os símbolos originais da Sinagoga.

Os lustres e as luminárias, recuperados, apresentam detalhes e as posições originais da inauguração em 1908.

O Domo, restaurado e redesenhado, inclui detalhes que recordam a obra de Fabergé e seus ovos, surge beleza que não existia no teto original.

Durante os anos, detalhes foram acrescentados. O Binah, local sagrado do Torah, foi recriado, mas continua belo e majestoso.

A rosácea da janela principal foi substituída nos trabalhos de 1980, agora Menorah sobressai sobre a Estrela de Davi.

A partir de 2004, o templo readquire as suas funções religiosas. Consertos, desfiles, passeatas marcaram a ocasião. Não há como ficar indiferente, é necessário rezar e agradecer:

“Yissá Ado-nai panav elêcha veyassêm lechá shalom”

Patrocínio:

New Hampshire. Sinagoga de Portsmouth – USA

Sinagoga de Portsmouth – USA

Na 200 State Street, em Portsmouth, a congregação Temple Israel, conservativa, além de prédio colonial da sinagoga, apresenta ala de estudos ( Bet Midral) e um Minyan onde o artesanato em madeira reflete 200 anos de preces e lamentações. No centro histórico da cidade, uma preciosidade a desvendar.

Portsmouth era um dos quatro portos mais importantes da Nova Inglaterra. Atuante no comércio, possuindo conexões e interesse comuns tanto nas ilhas do Caribe, como na Europa, a comunidade unida na fé de Israel ajudou na expansão política e econômica das treze colônias britânicas. Fundava-se uma nova Nação.

Produtos como o peixe seco, a madeira e o rum eram as comodites da época. De Barbados, da Jamaica, o melaço e o açúcar recebido era transformado nas destilarias locais em preciosa bebida. O rum era como moeda. Sendo usado inclusive na compra de escravos de armamento e de produtos industriais e de ferramentas.

Através da navegação costeira e do comércio internacional, no escambo de produtos, fortunas foram feitas, fronteiras onde era importante dominar tanto a diplomacia como as línguas, áreas onde os hebreus predominavam como mestres. Durante as guerras pela independência, além de fornecer soldados, a congregação teve ativa participação nos debates políticos e no financiamento imprescindível ao surgimento de uma nova nação. Os Estados Unidos da América, na sua formação, não prescindiam do apoio daqueles que haviam recebido apoio, santuário e a perspectiva de liberdade plena em terras da América do Norte.

É interessante circular à pé pelo centro histórico, reencontrar antigas tavernas, embarcadouros, mercados e prédios oficiais centenários.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘ A Viagem dos Bichos’
Editora AGE site

Patrocínio:

Sinagoga de Saint Augustine — Flórida

Sinagoga de Saint Augustine


Em 1821, após a aquisição da Florida pelo Governo Americano, novos colonos e comerciantes começaram a transformar o aspecto latino da região. Trabalhadores e imigrantes vindos de locais distantes traziam novas crenças e ideias. Atraídos pelo comércio crescente, os hebreus chegaram aqui com sua fé e tradições. Vinham da Rússia e da Europa Oriental.




Entre os monumentos históricos, além da Fortaleza de San Marco, símbolo de St. Augustine, cidade fundada em 1565 para a proteção da rota de retorno dos galeões espanhóis, abarrotados de tesouros, para Sevilha e Cádiz, encontramos na Cordova Street uma bela sinagoga.

Prédio de alvenaria, branco, estilo colonial americano, traz no frontispício, gravado em mármore a Estrela de David. Deve ser incluído no roteiro turístico da primeira cidade fundada no atual Estados Unidos.




Em rua calma, arborizada, perto do rio Matanzas, outra saída da cidade durante os constantes cercos, encontramos a contribuição da comunidade judaica. É local de adoração e de fotos, destacando-se entre os prédios da cidade, a maioria construída ou restaurada após o incêndio de 1702. Após ataque e cerco, os britânicos arrasaram a cidade mesmo não tendo ocupado as instalações militares do forte de San Marcos. Relatos no ar, fique atento.




A sinagoga da Congregação Filhos de Israel é símbolo de persistência, de fé e de renovação ao convidar os crentes, em terras onde a flâmula e cores da Espanha Inquisidora foram rainhas e dominadoras por séculos, para cerimônias do sabath. Ritos que seguem os preceitos ortodoxos conservativos desde a construção do templo no século XX — 1923.




Por sinal, Ponce de Leon, desbravador das terras e dos pântanos da Florida, em busca da Fonte da Eterna Juventude trazia entre os seus comandantes, em 1513, Pedro Marques Menendez. Os anais indicam que esse marrano foi o primeiro hebreu a colocar os pés na atual Florida. Na cidade, uma das avenidas principais apresenta o seu nome.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE site:

Patrocínios:

Touro Sinagoga. O Templo da Liberdade em Rhode Island

Touro Sinagoga

Na cidade de Newport encontramos templo histórico mantido pela Congregação Salvação de Israel – Yeshuat Israel — que segue a linha ortodoxa.
A Congregação foi fundada em Nova York, no ano de 1658, por judeus portugueses que abandonavam Recife após a capitulação holandesa e que mais tarde se deslocaram para Newport, porto em pleno desenvolvimento naqueles anos.
A pedra fundamental foi lançada em 1759 e a inauguração ocorreu em 1763, sendo hoje a sinagoga mais antiga em atividade nos Estados Unidos.

Junto ao templo, ao lado de jardins, centro cultural e memorial formam uma das atrações de Newport – Rhode Island – USA.

A construção foi possível graças aos recursos provenientes de várias congregações espalhadas pelo mundo. O projeto é referencia da época colonial britânica. Peter Harrison, protestante foi o arquiteto. A Kings Chapel de Boston e a Igreja de Cristo em Cambridge — Massachutts — são obras típicas de Peter Harrison.
George Washington e Kennedy fizeram importantes discursos políticos cujas palavras estão guardadas junto ao memorial – construção moderna em anexo. Liberdade é a palavra mensagem que precisamos conservar.

Os pioneiros, de origem sefardita, tiveram importante participação no comércio internacional, no desenvolvimento da navegação costeira da Nova Inglaterra e no artesanato, principalmente por disporem de contatos comerciais em diversos países do mundo além de dominarem a diplomacia das línguas.

Judah Touro, filho de um dos pioneiros ficou famoso como grande filantropo; o monumento à primeira batalha da Revolução Americana em Bunken Hill – Boston, onde obelisco surge como agulha libertadora teve boa parte dos recursos doados pelo filho de Isaac Touro. O monumento servirá como referência para o obelisco de Washington:

Subindo a pequena colina, em curva suave, chegamos ao antigo cemitério. Nas lápides, podemos como o poeta Longfellow, em letras quase apagadas, ao lado dos nomes hebreus clássicos da bíblia, encontrar palavras estranhas para ele: Lopes, Mendes, Seixas, Rivera e Rodrigues.

O cemitério colonial da Nova Inglaterra registra para a posteridade, que foram colonos portugueses os primeiros hebreus a chegarem a uma nova terra prometida.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE site

Patrocínio:

Sinagogas do Mundo. Paradesi em Cochin, Índia

Construção ao lado do palácio real de Conchin, na Índia, apresenta estranha torreta, onde preguiçoso relógio tenta marcar as horas.

Mergulhada na Jew Town, escondida numa viela, agora bloqueada, perto do antigo cemitério onde nomes bíblicos procuram sair do anonimato da pedra, tentativa cada vez mais difícil pelo apagar dos anos, surge Paredesi.

Ela convida tanto o crente, como o turista ou mesmo o curioso de passagem para conhecer a sua história.

Aos poucos, em silêncio, começo a ouvir murmúrios. Presto atenção, tento entender as palavras; para que dicionário devo levar a minha atenção, em que língua ela tenta a comunicação.

— Sê paciente, estranho que vens de longe. Muitos passam, apressados, olhadas rápidas, nada descobrem, apenas guardam detalhes — a medida que caminho no silêncio, na temperatura elevada para manhã, indicação da aproximação das monções, das chuvas intensas, do renovar da vida no sul da Índia, procuro compreender a aflição de séculos — Paredesi tem muito a falar.

— Após a segunda destruição do Templo de Jerusalém, em 70 a. C. pelas legiões romanas de Tito, muitos refugiados em diáspora, escaparam para a Índia, a Odhu da Bíblia, de onde chegavam os pavões, o marfim, a madeira de Teca e as especiarias. No tempo do Rei Salomão havia intenso comércio entre os dois países. Em Cranganore, a Shingly dos hebreus, desde 72 a. C. , já havia pequena comunidade, local de refúgio para os que fugiam à fúria de Roma — ela estava ansiosa, tinha pressa, precisava encontrar ouvidos para dores do passado.

— Desde então, começa a formação de comunidade que seguia a Estrela de David. Anos difíceis, lutas constantes, trabalho intenso na preservação de costumes e da fé mosaica. Com o tempo, um dos patriarcas foi agraciado com o poder de Sultão. Começa em 394 d. C. algo inédito, um reinado judaico fora das terras de Jerusalém — sentado, descansando, mas bem atento, eu estava cada vez mais interessado em confissões que não paravam de brotar.

-Os anciões ensinavam o Torah, as regras na obediência. Àquele que tudo vê tudo sabe, mas proíbe a associação da sua imagem a qualquer representação humana; bem ao contrário dos templos hindús. Os negócios da irmandade alcançavam o Ceilão, Málaga, a Conchichina e mesmo Macau — eu precisava de atenção para acompanhar palavras e frases difíceis de escutar e entender.

— Novas famílias chegavam em 490 d. C. , agora vindas da Pérsia, onde eram novamente perseguidas. Eram descendentes dos primeiros judeus levados por Nabucodonosor para a Babilônia, após a conquista da Cidade Eterna e da primeira destruição do Templo. Como prisioneiros, haviam desfilados, humilhados à frente das tropa vencedoras pelos portais do Templo de Isthar – continuava, agora num ritmo mais rápido, tinha medo que eu fugisse.

– Mais tarde, grupos de espanhóis, após a queda de Granada em 1492 e do Edito das Expulsões do Cardeal Cisneros, começam a chegar ao sul da Índia – ela continuava ansiosa, as frases vinham em cascata.

– Necessário acolher os novos refugiados, a coletividade crescia e prosperava. Mas 1524, nossa Shingly foi destruídos pelos mouros e depois portugueses recém chegados e seguindo os passos de Vasco da Gama, completaram a tarefa. A Inquisição com sua intolerância estava presente na Índia. – agora eu percebia tristeza e mesmo lágrimas abafadas, intercaladas aos murmúrios.

Pelo que eu entendi sobreviventes, incluindo o rabino, com sua esposa às costas, nadando, conseguiram alcançar Sultanato amigo, em Conchin. Para trás ficaram apenas as lembranças e as raízes plantadas na Odhu da Bíblia. Recordações.

Em Cochin, a atual Kochi dos indianos, foi concedido terreno e a permissão para a construção de nova sinagoga. A pequena colônia hebraica ali existente colaborou bastante, tendo a família Castiel obtido a licença para início da construção ao lado do Palácio Mattancherry. Em 1568, Paradesi podia abrigar os seus fieis nas novas instalações. Começava outra epopeia.

— Os tempos eram bons, de prosperidade, mas em 1662, os portugueses vindos de Goa, com sua terrível Inquisição queimaram e pilharam a cidade. Jew Town foi arrasada, minhas feridas foram sérias, mas não mortais. A reconstituição, mais uma vez seria necessária — apesar da tristeza ela tinha orgulho no que afirmava.

— Os holandeses ao conquistarem Cochin em 1664, mais tolerantes, permitiram a liberdade de religião e ajudaram na restauração e na recuperação dos danos. Novo canal de comércio é restabelecido, é possível intermediar negociações com o mercado de Amsterdam. Em 1668 eu renasci das cinzas — agora bem claros os termos, havia mais vida nas palavras e emoções.

Quase hora de partir, sozinho, na penumbra da tarde, eu entendia os problemas advindos com o tempo. A adaptação à Índia, a conversão dos nativos, a mistura das raças, de costumes, de sangue, acorrentavam os fiéis à Índia.

A coloração da pele era mais escura, mesmo negra. Os judeus vindos da Europa consideram os locais como africanos. Surgem discussões, conflitos.

— Sim! Houve divergências entre os meus crentes. Tudo chegava aos meus ouvidos; mesmo em dias diferentes do Sabath. Precisei conciliar, apaziguar os exaltados. Não eram todos obedientes ao Deus único. — estava exaltada.

— Reformas necessárias, adaptações e manutenções alteraram um pouco o meu aspecto. O piso azulado por onde andas foi oferta de Ezekiel Rahabi, próspero negociante que os trouxe de Cantão em 1777. Não são lindos nos desenhos e nas cores? Convidam às orações — agora ela sorria.

Eu ouvia com atenção os segredos daquela velha senhora. Os lustres, os dourados do púlpito realçavam os encantos da minha amiga.

A chegada dos orgulhosos ingleses, os novos senhores, permitiu com o tempo mais prosperidade para a comunidade. Algumas famílias foram para Londres, outras para o Extremo Oriente. Conhecedores das rotas, das línguas locais, dos costumes, dos atos e dos fatos dos Marajás, dos Sultões e dos Mandarins, eram essenciais ao comércio, agora em escala mundial. O povo do livro encontrava momento adequado para a sua expansão, livre das perseguições, apesar dos antigos preconceitos e da inveja do seu sucesso econômico.

Com a independência da Índia em 1947, com as lutas internas, com a criação do Estado de Israel em 1948, a maioria dos membros da coletividade emigrou; levaram pensamentos e costumes diferentes, mesmo conflitantes, para a nova nação.

Nos tempos atuais, apenas turistas chegam a Cochin. Curiosos a maioria. Dedicam pouco tempo à visita. Correm para as lojas de antiguidades e para os mercados das pimentas, dos perfumes e para o artesanato local.

Na saída, recordando o que ouvira, o que estava visível nas paredes, nos detalhes, como saudação ela ainda tinha algo para a despedida.

— Sim! Como pessoa velha, quase abandonada, pois ficaram poucos para cuidar da minha aparência, das minhas recordações e até das minhas belezas, eu peço a tua atenção, algo pequeno, antes de partires — eu não conseguia escapar, perplexo e emocionado. Ouvia:

“Se puderes escrever, divulga os meus desejos, as minhas necessidades. Não quero que o tempo corroa e apague as minhas lembranças e os meus ensinamentos.”

Felipe Daiello Autor ‘Aventura dos Bichos’

Editora AGE

Patrocínio: