Sinagoga de Zidovski — Croácia

Na cidade dos carvalhos, nome de Dubrovnik, a pérola da Croácia, em pleno Mar Adriático, escondida dentro das muralhas da cidade medieval, quase perdida para os transeuntes, encontramos a Sinagoga de Zidovski. Uma das mais antigas da Europa.

Numa ruela estreita, após algumas perguntas, é preciso subir ao segundo andar do prédio para encontrar o templo de orações. Sobrevivente a mais de 200 anos de perseguições, durante a Segunda Guerra Mundial permaneceu despercebida da repressão religiosa nazista. Uma simples porta esconde o templo.

Napoleão Bonaparte ao estabelecer, no início do século XIX, as províncias da Illyria, concede, pela primeira vez, liberdade política e religiosa à comunidade israelita da antiga região de Ragussa.

Hoje, pela emigração para Israel, são poucos os fiéis; o guardião ao nos atender só falava dos filhos e dos netos vivendo na Terra Prometida. É um dos últimos anciões, pilar na defesa das tradições.

O museu anexo à sinagoga apresenta uma coleção de objetos do culto judaico, onde o ouro e a prata apresentam características evolutivas de anos do artesanato cerimonial. Séculos de arte religiosa estão à nossa disposição.

Livros, documentos, arquivos, fotografias e até decisões jurídicas, processos, relatos de perseguições, mostram a saga dos pioneiros. No momento de crise os nativos sabiam onde encontrar os culpados, tudo está devidamente documentado em atas, processos e súmulas, onde os hebreus eram os bodes expiatórios.

Após a expulsão da Espanha, Granada reconquistada em 1492, judeus começam a chegar; mais tarde chegam colonos portugueses em busca da liberdade perdida. É momento de estabelecer nova congregação, de construir o templo, de resgatar o passado e de criar novas raízes.
A contribuição hebraica é importante para o desenvolvimento de Ragusa – nome à época de Dubrovnik — cidade estado que rivaliza com Veneza pela conquista de novos mercados entre a Europa e a Ásia.

Na Rua Zudiovska, número 3 encontramos não apenas fé, mas orgulho e tradição centenária. Uma sinagoga camuflada. Ela aguarda sua visita e oração.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE

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A Sinagoga El Ghriba nas terras de Ulisses. Djerba, ilha da Tunísia


A mais afamada sinagoga do norte da África, local até hoje de peregrinação para os povos do Magreb, surge no azul do Mediterrâneo.

Na ilha de Djerba, as lendas, as epopéias ainda possuem ouvintes. Segundo Homero, na sua viagem de retorno ao lar, após a Guerra de Tróia, há 5000 anos, Ulisses passou por aqui. Foi o primeiro turista de renome.




Um paraíso capturou os seus companheiros; na terra dos comedores da flor de lótus, os habitantes possuíam uma visão paradisíaca de viver. Foi quase impossível retomar a viagem, colocar vento nas velas da sua galera. Partir. As sereias não deixavam.




Até agora, o clima é agradável, areia branca nas praias, tamareiras e oliveiras cobrem o horizonte. Árvores frutíferas despejam ao sol as suas dádivas. O azul do Mediterrâneo confunde-se com as cores do céu.

Após a destruição do Templo de Jerusalém pelos assírios de Nabucodonosor em 584 a. C., novos refugiados chegaram.




A linguagem dos residentes púnicos era a da antiga bíblia, durante séculos haverá uma convivência pacífica entre as duas comunidades que interagem em simbiose perfeita.

A congregação hebraica constrói uma das mais antigas sinagogas do mundo e que mantêm atividades até hoje.

O prédio branco, aberturas pintadas na cor azul, na arca sagrada guarda um dos Torás mais sagrado para os hebreus. A relíquia seria proveniente da casa do Senhor em Jerusalém.

Segundo eruditos, num ladrilho aparece a visão de como era a Cidade do Rei David na época do êxodo. Registro único.




Para os judeus do Magreb, El Ghriba representa símbolo tão importante quanto as muralhas de Jerusalém. A comunidade prosperou tanto no comércio, como na fabricação de joias e na cerâmica. As filigranas dos antigos em ouro e prata, até hoje, refletem a habilidade e a cultura dos artífices hebreus.

Em Guellala, um dos povoados da ilha, a cerâmica local ainda é confeccionada pelos mesmos processos dos antigos fenícios.

Aníbal Barca, o general que fez tremer Roma, após a sua derrota em Zama, em 207 a. C. , partiu para o último exílio de uma das praias de Djerba. Seus barcos, com a prata e o tesouro pessoal, partiram da praia de Kerkennah; possivelmente com o apoio de comerciantes judeus.

Muitos conquistadores passaram pela ilha, mas El Ghriba sobreviveu a todos os tormentos; com suas salas de orações, locais de reunião e de estudo, onde novas gerações recebiam os princípios de Moisés, consegue chegar até o século XXI.

A tranquilidade é interrompida em 2002, quando atentado com caminhão bomba mata turistas alemães e franceses. Medidas de precaução são implantadas; é preciso vencer os terroristas da Al Queda. A segurança é reforçada, mas a vida deve continuar mesmo numa Tunísia que pode cair nas mãos de fundamentalistas árabes. O futuro é incerto.

Modernamente, o aeroporto internacional de Mellita, em Djerba, recebe milhares de turistas europeus que procuram as praias e os spas. Poucos se interessam pelo passado, não dando atenção a outras maravilhas e a tradições seculares que os sábios e os curiosos não podem desprezar.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento” e ‘A Viagem dos Bichos’
Editora AGE site

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Kahal Zur Israel. Sinagoga de Recife

Kahal Zur Israel


O destino a seguir nos levou ao Recife antigo. Restaurações em andamento o transformarão, como o Pelourinho, num dos símbolos do Brasil. Na antiga Rua dos Judeus (1536-1654), atual Rua do Bom Jesus, destaca-se a restauração da primeira sinagoga construída no Brasil e nas Américas. Kahal Zur Israel apresenta uma retrospectiva da atuação dos Marranos desde a descoberta, no tempo da Inquisição em Portugal e Espanha, do Domínio Holandês e da Reconquista Portuguesa.




Vê-se através de painéis, o efeito e atuação dos Cristãos Novos na indústria, nos engenhos de açúcar, no comércio de exportação e importação e a sua influência no desenvolvimento da colônia, com a fundação de escolas e hospitais. Aqui eles encontraram um paraíso, pois, distantes da Coroa Portuguesa, tinham mais liberdade. Estavam longe das garras da Inquisição, muito mais branda em Portugal do que na fanática Espanha. Na época da colonização holandesa, com Nassau, chega-se ao auge da sua atuação. Seiscentas famílias viviam em Recife, reunidas em duas congregações, onde se destaca a figura do Rabino Isaac Aboab da Fonseca, que mais tarde fundará em Amsterdã a Sinagoga Portuguesa, que hoje ainda deve e pode ser visitada.




Na reconstrução do prédio, patrocinada pelo Banco Safra e pela Fundação Roberto Marinho, podem-se verificar detalhes das fundações, dos pavimentos das ruas na época, dos aspectos construtivos dos muros, dos revestimentos empregados, dos artefatos do dia a dia. “Bor e o Mikve”: as escavações arqueológicas encontraram piscina ritual usada nos banhos de purificação dos judeus. Era o detalhe que faltava para certificar o local onde foi construída a primeira sinagoga das Américas.




Em 2001, após exaustivo processo de restauração, a sinagoga, modelo arquitetônico português do século XVII é aberta a visitação. É local de pesquisas históricas, culturais e religiosas. Ponto de visita ao chegar a Recife. A “Rocha de Israel” abre as suas portas.




Com suas ilhas, pontes e canais, Recife lembrava Amsterdã, razão pela qual os holandeses destruíram Olinda, deslocando sua população para o novo local. Aqui se sentiam como em casa. A reconquista termina com o sonho. Ocorre a dispersão dos judeus, uns indo para Nova Amsterdã, atual Nova Iorque, outros retornando à Europa e alguns fugindo para o sertão. Até hoje no folclore, nos usos e nos costumes, muitas práticas e ritos religiosos hebraicos surgem no imaginário coletivo: os chapéus dos cangaceiros ostentavam a cruz de David, como símbolo de proteção, de manter o corpo fechado às balas das volantes que os caçavam pelos agrestes do sertão.

Felipe Daiello é autor do livro “As Minhas Ilhas” Editora AGE, onde no capitulo 5, Pernambuco, ilha das paixões, Kahal Zur Israel é mencionada.

faleconosco@arquivojudaicope.org.br

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento”
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Uma Sinagoga em Chinatown. NY

Uma Sinagoga em Chinatown


Na Eldridge Street, em pleno bairro chinês de Nova York, prédio histórico representa o primeiro templo construído por imigrantes judeus vindos da Polônia e da Rússia em 1887, em Nova York.

No estilo mourisco, é famoso pelos vitrais. E pela arquitetura da época.

Com o deslocamento da comunidade para outras áreas, a sinagoga ficou abandonada por mais de 40 anos. O efeito foi desastroso, o tempo e o abandono não perdoaram. Pombos e sujeira eram os únicos ocupantes.




A partir de 1987 começa a recuperação. Hoje, ao custo de mais de 20 milhões de dólares é ponto obrigatório de visita na capital do mundo. Outro museu de resgate, de memórias.




Os vitrais são magníficos, inclusive a nova rosácea principal que mostra no azul os reflexos do céu, todos do nosso infinito celestial. O trabalho de Kiki Smilt e de Débora Gans é fantástico. Como dizia Chagal, mestre na antiga arte medieval dos cristais, através da luz, pode-se orar com o Deus de todos os povos. Não interessa se estamos numa Sinagoga, Catedral ou Mesquita, não há como não parar, meditar e orar em agradecimento pelo dom da vida recebido.




Além disso, uma visita aos mercados do bairro chinês, entrar nas mercearias e nas peixarias, descobrir alimentos exóticos, temperos milenários, raízes mágicas capaz de rejuvenescer qualquer ancião, não pode ser desprezada. Para aquisição de frutas, não existe local mais adequado em Nova York. Bons preços.



Não se esqueça de circular pelas joalherias que indianos estão deslocando para as ruas do bairro. No atual museu, arquivos permitem pesquisas sobre antigos familiares e conhecidos que há séculos se deslocaram para a América do Norte, em vez de irem para o Rio de Janeiro ou Buenos Aires. Em 2012 comemoram-se 125 anos da fundação da sinagoga, outros motivos para ir à Nova York, não apenas a Broadway e Macy’s merecem uma visita.

As fotos internas foram obtidas com o apoio de Kate Milford, diretora do museu. Consulta: www.eldridgestreet.org contact@eldridgestreet.org

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento”
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