A Ilha Romana na Istria Croata – Pula

A Ilha Romana na Istria Croata- Pula


Foi paixão a primeira vista. Quando vi, em fotos, as ruínas do anfiteatro, o sexto em dimensão dentre os construídos durante o império romano, não havia como deixar Pula fora do roteiro. Vinte e cinco mil espectadores podiam assistir as lutas entre os gladiadores na arena que, agora, apenas lembra sangue e glorias. Um desvio pela Istria, com suas raízes italianas, para atingir a cidade desenvolvida pelos romanos no início do século I d.C., foi o preço necessário.


A concentração de hotéis, resortes, apartamentos e quartos destinados aos turistas facilita em muito a vinda dos forasteiros. Escolhemos um hotel-cassino com vista para a enseada, repleta de barcos e veleiros, todos possíveis de locação. Para forçar a permanência dos hóspedes as refeições, magníficas, são cobradas a preços subsidiados: 5 euros
por pessoa.
Aqui, os europeus passam pelo menos uma semana de férias, aproveitando o clima e as águas límpidas, mas frias, do Adriático. Campos de nudismo não são raros e passeios pelos olivais, vinhedos ou pelas reservas florestais são outras possibilidades. Na parte antiga da cidade encontramos vestígios dos antigos fundadores: o Templo de Augusto, a Porta de Hércules, as muralhas de vetustas fortificações, bem como mosaicos romanos e a Porta Geminada. Junto ao coliseu, onde hoje se realizam eventos culturais, no subsolo, podemos inspecionar antigos moinhos de pedra, movidos por escravos ou mulas, produziam requintado azeite de oliva, riqueza da região. Depois, o ouro líquido era envasado em bilhas de cerâmicas, formato típico, para futura comercialização. O sistema comercial e de distribuição implantado pelos romanos era simples e eficiente, como se pode constatar ainda agora.


A população é amistosa e orgulhosa dessa cidade que apresenta 3.000 anos de história. Com uma costa extremamente recortada, o mar Adriático convida para excursões entre milhares de ilhas, baías e penínsulas. Com investimentos alemães, existe uma explosão imobiliária respeitável. Pula pode ser usada como um ponto de partida para excursões a vilas perdidas e a fortalezas escondidas em pontos isolados. Igrejas na arquitetura do século VIII e IX surgem

em profusão; vinhedos tentam crescer num terreno aparentemente estéril e pedregoso. É possível degustar vinhos que deliciavam imperadores, tanto de Roma como do Império Austro-Húngaro. As cidades muradas, voltadas para o mar, estão de braços abertos para receber curiosos de todo o mundo. Surgem nas fotos: Porec, Rovinj, Labin. Opatija e Rijeka serão lembranças permanentes.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento”
Editora AGE

Felipe Daiello escreve sobre a Nicarágua

Semana Santa na Nicarágua.

A costa da Nicarágua, vista do Oceano Pacífico, se mostra bastante acidentada. O porto de San Juan Del Sur está a vista com seus navios pesqueiros. Maior país em extensão da América Central, devido aos conflitos internos, às guerras civis, aos terremotos e furacões, centenas de milhares de pessoas fugiram para os países vizinhos. São os novos escravos…

“Não temos esperanças, o desemprego é elevado, não há o que fazer”. — foram as palavras do nosso jovem guia.

Antes da escolha definitiva do Panamá, a Nicarágua com seus lagos era uma possibilidade real de conectar dois oceanos.

Desde a colonização espanhola, a Nicarágua sempre esteve dividida. As oligarquias de Leon e Granada, principais cidades, brigavam para escolher a capital. A solução política foi escolher outra cidade. Manágua em posição intermediária surge como solução; foi a alternativa política.

Pela Pan-americana, estrada em excelentes condições, quase alcançamos a capital e o famoso lago Manágua. Ranchos pobres, piso de terra, gado magro e escasso surge na paisagem. A vigilância policial é intensa. As metralhadoras estão presentes.

Ainda se percebe vestígios dos conflitos; hospitais e prédios destruídos aguardam recuperação. Monumentos à guerrilha estão presentes, visíveis. Recordamos nomes e fatos. Sandino, Somoza, Violeta Chamorro. O financiamento do governo Reagan aos contra-revolucionários; os helicópteros soviéticos, a venda de armas superfaturadas ao Irã. Foram vinte anos de sangue e destruição.

Agora, antigo líder sandinista foi eleito presidente. A Venezuela de Chaves já está presente no palco. Como será o final da peça?

Esquecida pelos homens, mas não pelos deuses coléricos e vingativos da terra, os vulcões presentes não trazem dádivas. O Masaya apresenta acesso fácil até as suas bordas. Furacões em parceria com os vulcões geram torrentes de lama; cidades e áreas rurais desaparecem na confusão.

Nossa passagem coincide com a Semana Santa. Nosso objetivo: acompanhar os festejos e as procissões. O que veremos nesta terra esquecida?

Bem no interior do vilarejo de Catarina, junto a laguna Apoio, antiga cratera de vulcão, era momento de iniciar nossa peregrinação.

Na quinta-feira, igrejas fechadas, apenas a cerimônia do lava-pés. Mas na sexta-feira, bem cedo, ruas e vielas enfeitadas, flores e verdes ornamentais, começa a procissão. Os crentes, mais por costume do que pela fé, acompanham os andores. São dois. No principal segue a imagem do Cristo Crucificado e ao lado, suportado apenas por mulheres, temos a figura da Mãe Dolorosa.

O cortejo se desloca entre as capelas e as igrejas do local. Na frente, o sacerdote, paramentos tradicionais com o vermelho ritual, está acompanhado de acólitos e coroinhas. Atrás, na confusão da multidão, uma pequena banda, desorganizada e sem comando, ergue acordes tristes e lamentos de agonia de séculos passados.

Em cada parada, uma homília é dedilhada. Canções e rezas. A marcha é retomada.

O sol intenso apresenta como cogumelos, as sombrinhas coloridas. As mulheres de preto, nada cantam, têm papel secundário. O calor e o cansaço misturam-se ao suor dos corpos e dos espíritos no decorrer dos minutos. Absorto, perco-me na multidão ao tentar fotos. Preciso gravar sentimentos. Esqueço que preciso continuar a viagem.

O perfume do incenso, presença forte, vence a indiferença de muitos. Rostos escuros, corpos pequenos pedem atenção, têm esperanças.

No alto dos morros, Catarina é cidade das flores, das folhagens, das belezas e muitas cores, mas os serviços públicos são precários. A vida é complicada na Nicarágua

Em Mainara, famosa pelo mercado de artesanatos, a multidão é bem maior, as ruas e igrejas estão cheias. Os andores são mais vistosos, as imagens, com roupas superiores, traduzem igual o drama do Calvário.

No entanto, na colonial Granada, ponto alto da visita, surpresa pela restauração e recuperação dos antigos prédios do século XVIII e final do século XIX. Não esperávamos tanta beleza: conventos, residências, igrejas e praça central. As igrejas e a catedral permanecem fechadas, abrem apenas quando chega o cortejo ritual.

Como sempre “Mater Dolorosa” é suportada por mulheres. As lágrimas estão visíveis na face de porcelana da Santa, espada atravessada ao peito reflete a dor da perda, a angústia prolongada pela morte do filho do Senhor.

O cenário está perfeito, apenas o calor excessivo do meio-dia abafa os ânimos e acelera o cansaço. Os andores são imensos, o fardo exige redobrado esforço dos fiéis. Faces escuras, suor permanente, perfumes dos corpos, misturam fé e devoção. O ritmo dos passos é marcado pela vibração dos metais e acordes dos tambores. Hipnotizam as pessoas, figurantes secundários, tentando esconder ansiedade e emoções. No meio da procissão não há como escapar, não se pode ficar indiferente. Mesmo um ateu, um soluço, uma lágrima, não deixará escapar!

Num ritmo estranho, crescente, os andores oscilam, para lá e para cá, sem saírem do lugar. Uma onda estacionária preenche os vazios das ruas. Em transe, todos esperam o momento adequado. Os segundos fluem. Não é ainda o momento. Do embalo, do ritmo não consigo escapar. Oscilo como folha perdida, espero o momento de escapar pelos ares.

O movimento, oscilante não cessa, os passos não avançam, mesmo saindo do lugar. Sem adiantar um centímetro; não avançam ou recuam, uma ondulação, como transe hipnótica engloba Granada.

Então, como ensaiado ou não, por sinal misterioso ou comando de voz, a procissão reassume posição de avanço pela rua principal. Agora tem rumo e destino, corre lenta para a Catedral.

Felipe Daiello

Autor de “Palavras ao Vento”.

Editora AGE

Manta. Porto de entrada para o Equador.

Segundo porto do país, Manta abriga a maior parte dos navios que pescam atuns pelas profundezas do Oceano Pacífico. A visão litorânea é bem distinta da encontrada no altiplano e nos Andes. O Equador, pequena extensão, surpreende o turista pela diversidade das paisagens. No entanto, a circulação pelas estradas é difícil, lenta e perigosa. A mais de 3.500 metros, pela Avenida dos Vulcões, trecho de viagem pela Panamericana descrito no livro “As Minhas Ilhas”, a surpresa e o pavor se encontram.

A Base Aérea Americana implantada para combater o narcotráfico, agora coloca Manta nos cabeçalhos dos jornais. A nova Constituição do Equador proíbe a existência de instalações militares estrangeiras. O dólar americano, devido a instabilidade política e econômica, foi adotado, como padrão monetário. Solução para acabar com a inflação.

Para o viajante é vantagem, pois não precisamos fazer câmbio, e, na hora de negociar, fica mais fácil. As jóias de prata utilizando as faces polidas das conchas retiradas das águas locais refletem brilhos e matizes difíceis de descrever. Há milhares de anos, era o padrão monetário utilizado para alavancar o comércio entre as populações indígenas, dispersas pela Costa do Pacífico. Spondylus é o nome da concha, que o artesão corta, dá polimento e confecciona jóias. Preciosidades vindas do mar.

Em 135 anos de democracia, o Equador teve mais de 18 constituições e ultrapassa 64 presidentes. Em certa oportunidade chegou a ter, simultaneamente, 4 autoridades para o posto mandatário.

Em Monte Cristo e arredores, perto de Manta, encontramos unidades familiares fabricando os famosos chapéus de palha. Na construção do Canal do Panamá, foram usados para proteção dos trabalhadores; por esta razão, mesmo fabricados no Equador, são conhecidos pela denominação de “Chapéus Panamás”. Dependendo da flexibilidade, da qualidade da fibra, paga-se de 10 a 100 dólares por unidade. Em média um bom chapéu leva 30 dias para a sua confecção.

Utilizando a semente de palmeira, o artesanato local apresenta o ecológico marfim vegetal. A “Tágua” é produzida apenas pela planta feminina, quarenta anos são necessários para a produção das sementes. Com dureza na escala quatro e com bom índice de reflexão consegue-se excelentes miniaturas de elefantes, pássaros e até botões. Se não fosse o peso, poder-se-ia enganar o turista, parece marfim verdadeiro.

A cidade com 250.000 habitantes, no todo é pobre. As praias: Murcielago, Barbadilhos são simples; os restaurantes razoáveis e os pratos com frutos do mar salvam o dia. Casas de 1 ou 2 pisos, alguns edifícios, poucos hotéis e mais nada. No terminal portuário não há mecanização para o manuseio dos contêineres e nem instalações petrolíferas de porte.

Equador, nação pobre, há mais de 10.000 anos, no entanto, era o polo de desenvolvimento da região.

As visitas aos museus locais permitirão, em outro artigo, descrever o desenvolvimento cultural alcançado pelos povos da cultura Las Vegas. O Equador foi centro avançado da civilização pré-incas. As raízes ainda estão vivas.

Felipe Daiello

Autor de ‘As Minhas Ilhas’

Editora AGE