Berlim – Uma tarde no museu

Uma tarde no Museu


Berlim é uma cidade de surpresas e contrastes. É difícil em poucas linhas descrever suas belezas ocultas. Como simbolismo da separação de anos, da existência de duas Alemanhas, os resquícios do Muro de Berlim merecem atenção e fotos. O Checkpoint Charlie, local oficial de intercâmbios e comunicações ficou famoso em películas e romances de espionagem. O Portal de Brandemburgo, representação do orgulho e do poder prussiano sobre os franceses, erguido a partir de 1789, é o monumento símbolo de Berlim. A quadriga, biga puxada por quatro cavalos e conduzida pela Deusa Grega da Paz, Eirene, coroa o monumento. A obra, roubada por Napoleão, esteve em Paris. Só retorna após a derrota do Imperador Corso e passa a representar monumento de vitória da Prússia contra a França. Os soviéticos durante a ocupação de Berlim mudaram a posição original da quadriga.


A nova cúpula do Reichstag, ao lado, restabelece o poder político da antiga e da nova capital. Cheia de parques e jardins, longas avenidas cruzam uma cidade verde. Kurfurstendamm é a rua das lojas e onde encontramos os restos calcinados da Catedral Kaiser William, antigo mausoléu dos reis da Prússia. Agora, suas ruínas recordam as tragédias da última guerra. Em frente, encontramos o Tiergarten, famoso zoológico que merece a nossa atenção. Não esqueça o urso panda. Da antiga sede da Gestapo, sobraram apenas as células de detenção no subsolo e cartazes que apresentam uma face escura do nazismo. O memorial do holocausto com 2.721 blocos de concreto recorda a política de extermínio implantada desde 1933 até 1945. Os passos seguem pela Praça Potsdamer, o Deutscher Dom, o Centro Sony, pela Avenida Unter den Linden e seus cafés até a Catedral de Berlim.


Mas, para uma tarde de domingo, quando as lojas estão fechadas, nada melhor do que após passar por feiras de artesões ao longo dos canais do rio Spree, escolher “aquele” museu, para uma jornada inesquecível. E tem pessoas que detestam e fogem de museus!



O Museu Pérgamo foi o escolhido. Uma exposição sobre a Babilônia era a atração. Vindos do Museu Britânico, do Louvre e do próprio Pérgamo, uma mostra provisória tentava contar a verdade sobre uma civilização amaldiçoada pelos relatos bíblicos. As portas do templo de Ishtar e a reprodução do caminho procissional não têm paralelo no mundo. Os painéis em azulejos coloridos reproduzem leões reais e os místicos dragões da Mesopotâmia- o símbolo de Marduk, o deus bíblico. Os artefatos, os utensílios de uso individual, os cones com inscrições estranhas, mas agora compreensíveis, se perfilam com estátuas de deuses, armas e relíquias. Uma coleção de livros árabes permite o acesso a histórias quase perdidas e relembram a sagas de gigantes que ainda dominam o nosso imaginário. Os jardins suspensos da Babilônia estão presentes.


Depois da surpresa inicial, que tal subir pelos degraus do templo de Zeus, reprodução fiel do templo que existia em Pergamo na Turquia: os cientistas alemães conseguiram a proeza de desviar antigas relíquias e efetuar uma montagem fabulosa. É o que se chama de roubo histórico defensável. A porta do antigo mercado de Mileto — antiga Grécia — é outra alternativa. Poucas horas naquela tarde em Berlim, valeram a pena e o cansaço.

Felipe Daiello Autor de “As Minhas Ilhas” Editora AGE

Felipe Daiello escreve sobre a Nicarágua

Semana Santa na Nicarágua.

A costa da Nicarágua, vista do Oceano Pacífico, se mostra bastante acidentada. O porto de San Juan Del Sur está a vista com seus navios pesqueiros. Maior país em extensão da América Central, devido aos conflitos internos, às guerras civis, aos terremotos e furacões, centenas de milhares de pessoas fugiram para os países vizinhos. São os novos escravos…

“Não temos esperanças, o desemprego é elevado, não há o que fazer”. — foram as palavras do nosso jovem guia.

Antes da escolha definitiva do Panamá, a Nicarágua com seus lagos era uma possibilidade real de conectar dois oceanos.

Desde a colonização espanhola, a Nicarágua sempre esteve dividida. As oligarquias de Leon e Granada, principais cidades, brigavam para escolher a capital. A solução política foi escolher outra cidade. Manágua em posição intermediária surge como solução; foi a alternativa política.

Pela Pan-americana, estrada em excelentes condições, quase alcançamos a capital e o famoso lago Manágua. Ranchos pobres, piso de terra, gado magro e escasso surge na paisagem. A vigilância policial é intensa. As metralhadoras estão presentes.

Ainda se percebe vestígios dos conflitos; hospitais e prédios destruídos aguardam recuperação. Monumentos à guerrilha estão presentes, visíveis. Recordamos nomes e fatos. Sandino, Somoza, Violeta Chamorro. O financiamento do governo Reagan aos contra-revolucionários; os helicópteros soviéticos, a venda de armas superfaturadas ao Irã. Foram vinte anos de sangue e destruição.

Agora, antigo líder sandinista foi eleito presidente. A Venezuela de Chaves já está presente no palco. Como será o final da peça?

Esquecida pelos homens, mas não pelos deuses coléricos e vingativos da terra, os vulcões presentes não trazem dádivas. O Masaya apresenta acesso fácil até as suas bordas. Furacões em parceria com os vulcões geram torrentes de lama; cidades e áreas rurais desaparecem na confusão.

Nossa passagem coincide com a Semana Santa. Nosso objetivo: acompanhar os festejos e as procissões. O que veremos nesta terra esquecida?

Bem no interior do vilarejo de Catarina, junto a laguna Apoio, antiga cratera de vulcão, era momento de iniciar nossa peregrinação.

Na quinta-feira, igrejas fechadas, apenas a cerimônia do lava-pés. Mas na sexta-feira, bem cedo, ruas e vielas enfeitadas, flores e verdes ornamentais, começa a procissão. Os crentes, mais por costume do que pela fé, acompanham os andores. São dois. No principal segue a imagem do Cristo Crucificado e ao lado, suportado apenas por mulheres, temos a figura da Mãe Dolorosa.

O cortejo se desloca entre as capelas e as igrejas do local. Na frente, o sacerdote, paramentos tradicionais com o vermelho ritual, está acompanhado de acólitos e coroinhas. Atrás, na confusão da multidão, uma pequena banda, desorganizada e sem comando, ergue acordes tristes e lamentos de agonia de séculos passados.

Em cada parada, uma homília é dedilhada. Canções e rezas. A marcha é retomada.

O sol intenso apresenta como cogumelos, as sombrinhas coloridas. As mulheres de preto, nada cantam, têm papel secundário. O calor e o cansaço misturam-se ao suor dos corpos e dos espíritos no decorrer dos minutos. Absorto, perco-me na multidão ao tentar fotos. Preciso gravar sentimentos. Esqueço que preciso continuar a viagem.

O perfume do incenso, presença forte, vence a indiferença de muitos. Rostos escuros, corpos pequenos pedem atenção, têm esperanças.

No alto dos morros, Catarina é cidade das flores, das folhagens, das belezas e muitas cores, mas os serviços públicos são precários. A vida é complicada na Nicarágua

Em Mainara, famosa pelo mercado de artesanatos, a multidão é bem maior, as ruas e igrejas estão cheias. Os andores são mais vistosos, as imagens, com roupas superiores, traduzem igual o drama do Calvário.

No entanto, na colonial Granada, ponto alto da visita, surpresa pela restauração e recuperação dos antigos prédios do século XVIII e final do século XIX. Não esperávamos tanta beleza: conventos, residências, igrejas e praça central. As igrejas e a catedral permanecem fechadas, abrem apenas quando chega o cortejo ritual.

Como sempre “Mater Dolorosa” é suportada por mulheres. As lágrimas estão visíveis na face de porcelana da Santa, espada atravessada ao peito reflete a dor da perda, a angústia prolongada pela morte do filho do Senhor.

O cenário está perfeito, apenas o calor excessivo do meio-dia abafa os ânimos e acelera o cansaço. Os andores são imensos, o fardo exige redobrado esforço dos fiéis. Faces escuras, suor permanente, perfumes dos corpos, misturam fé e devoção. O ritmo dos passos é marcado pela vibração dos metais e acordes dos tambores. Hipnotizam as pessoas, figurantes secundários, tentando esconder ansiedade e emoções. No meio da procissão não há como escapar, não se pode ficar indiferente. Mesmo um ateu, um soluço, uma lágrima, não deixará escapar!

Num ritmo estranho, crescente, os andores oscilam, para lá e para cá, sem saírem do lugar. Uma onda estacionária preenche os vazios das ruas. Em transe, todos esperam o momento adequado. Os segundos fluem. Não é ainda o momento. Do embalo, do ritmo não consigo escapar. Oscilo como folha perdida, espero o momento de escapar pelos ares.

O movimento, oscilante não cessa, os passos não avançam, mesmo saindo do lugar. Sem adiantar um centímetro; não avançam ou recuam, uma ondulação, como transe hipnótica engloba Granada.

Então, como ensaiado ou não, por sinal misterioso ou comando de voz, a procissão reassume posição de avanço pela rua principal. Agora tem rumo e destino, corre lenta para a Catedral.

Felipe Daiello

Autor de “Palavras ao Vento”.

Editora AGE

Haiti

, uma ilha no inferno

Desde a sua independência, em 1804, quando o líder da revolta assumiu a função de Imperador, imitação de Napoleão Bonaparte, o seguiu trilha de desastres, decisões inadequadas e incompetências administrativas. O bloqueio europeu e a exigência de indenizações, na época, foram obstáculos ao desenvolvimento da Nova Nação.

Ocupando menos da metade da ilha “Espaniola”, fazendo fronteira com a República Dominicana, o se apresenta, segundo conceitos econômicos atuais, como “Nação Inviável”.

Sem possibilidade de expansão de fronteiras, a área está superpovoada. A agricultura de subsistência é incapaz de nutrir nove milhões de habitantes.

O excesso populacional, ao lado da falta de estrutura básica, como saneamento e esgoto, contaminou a maior parte das fontes de água potável. As florestas primitivas estão sendo sacrificadas, pois é necessário madeira para o preparo das refeições. A produção de carvão vegetal, outra atividade econômica possível, ajuda na redução do verde. Sem cobertura vegetal, os deslizamentos dos morros trazem efeitos catastróficos quando os furacões, típicos do Caribe, por aqui circulam. A cultura da cana de açúcar é a única atividade produtiva de divisas.

Sem estradas, sem infraestrutura, é impossível a criação de empregos. A pobreza da população se reflete no elevado analfabetismo, na alta natalidade, na elevada mortalidade infantil e em padrão de qualidade de vida extremamente reduzido.

As crenças populares ancestrais, o Vodu usado como fator político, desperta forças espirituais que não trazem muita luz ou energias quânticas positivas como apoio e guia.

Médico, ditador, nos anos 50 , usou a superstição como arma política, institucionalizando a formação de grupos paramilitares no controle da população. Os “bichos- papão’, tradução de Tonton Macoutes, infernizam os dias e as noites do .

Como golpe final, o último terremoto joga o numa situação sem saída. O que fazer?

Após o auxílio emergencial, como recuperar as condições mínimas de governabilidade?

A mídia mundial se presta como janela para dirigentes políticos com ambições internacionais e intenções de ocupar postos de prestígio junto a ONU, mas demonstra também a falta de logística, de equipamentos de comunicação adequados, dos capacetes azuis patrocinados pela ONU que lá estão em missão de paz – são mais de 16 nacionalidades, 8.600 soldados e incapacidade gerencial, em situação de crise, do comando brasileiro.

Para muitos, hoje, a ONU, é a ONG mais cara e ineficiente do mundo. Palco de discussões ideológicas intermináveis, de discursos estéreis de pretensos líderes e sem nenhuma solução prática como resultado. Temos muito mais cacarejos do que ovos, como dizia a minha mãe.

O pior para a Comunidade Internacional é que o não é o único problema a ser enfrentado. A Somália, Ruanda, Zimbábue, o Iêmen do Sul, são regiões que avançam rápidos, na direção de serem também nações inviáveis.

Sem governo, com grupos e tribos em conflito, sem possibilidade de inversões externas, sem moeda ou padrão monetário, com corrupção endêmica, sem políticos confiáveis, o que o futuro reserva para essas populações desamparadas. Será o inferno na terra?

Felipe Daiello

Autor de “As Minhas Ilhas”

Editora AGE.

Manta. Porto de entrada para o Equador.

Segundo porto do país, Manta abriga a maior parte dos navios que pescam atuns pelas profundezas do Oceano Pacífico. A visão litorânea é bem distinta da encontrada no altiplano e nos Andes. O Equador, pequena extensão, surpreende o turista pela diversidade das paisagens. No entanto, a circulação pelas estradas é difícil, lenta e perigosa. A mais de 3.500 metros, pela Avenida dos Vulcões, trecho de viagem pela Panamericana descrito no livro “As Minhas Ilhas”, a surpresa e o pavor se encontram.

A Base Aérea Americana implantada para combater o narcotráfico, agora coloca Manta nos cabeçalhos dos jornais. A nova Constituição do Equador proíbe a existência de instalações militares estrangeiras. O dólar americano, devido a instabilidade política e econômica, foi adotado, como padrão monetário. Solução para acabar com a inflação.

Para o viajante é vantagem, pois não precisamos fazer câmbio, e, na hora de negociar, fica mais fácil. As jóias de prata utilizando as faces polidas das conchas retiradas das águas locais refletem brilhos e matizes difíceis de descrever. Há milhares de anos, era o padrão monetário utilizado para alavancar o comércio entre as populações indígenas, dispersas pela Costa do Pacífico. Spondylus é o nome da concha, que o artesão corta, dá polimento e confecciona jóias. Preciosidades vindas do mar.

Em 135 anos de democracia, o Equador teve mais de 18 constituições e ultrapassa 64 presidentes. Em certa oportunidade chegou a ter, simultaneamente, 4 autoridades para o posto mandatário.

Em Monte Cristo e arredores, perto de Manta, encontramos unidades familiares fabricando os famosos chapéus de palha. Na construção do Canal do Panamá, foram usados para proteção dos trabalhadores; por esta razão, mesmo fabricados no Equador, são conhecidos pela denominação de “Chapéus Panamás”. Dependendo da flexibilidade, da qualidade da fibra, paga-se de 10 a 100 dólares por unidade. Em média um bom chapéu leva 30 dias para a sua confecção.

Utilizando a semente de palmeira, o artesanato local apresenta o ecológico marfim vegetal. A “Tágua” é produzida apenas pela planta feminina, quarenta anos são necessários para a produção das sementes. Com dureza na escala quatro e com bom índice de reflexão consegue-se excelentes miniaturas de elefantes, pássaros e até botões. Se não fosse o peso, poder-se-ia enganar o turista, parece marfim verdadeiro.

A cidade com 250.000 habitantes, no todo é pobre. As praias: Murcielago, Barbadilhos são simples; os restaurantes razoáveis e os pratos com frutos do mar salvam o dia. Casas de 1 ou 2 pisos, alguns edifícios, poucos hotéis e mais nada. No terminal portuário não há mecanização para o manuseio dos contêineres e nem instalações petrolíferas de porte.

Equador, nação pobre, há mais de 10.000 anos, no entanto, era o polo de desenvolvimento da região.

As visitas aos museus locais permitirão, em outro artigo, descrever o desenvolvimento cultural alcançado pelos povos da cultura Las Vegas. O Equador foi centro avançado da civilização pré-incas. As raízes ainda estão vivas.

Felipe Daiello

Autor de ‘As Minhas Ilhas’

Editora AGE

Helsinque – Mercados de Verão

Helsinque- Mercados de Verão da Finlândia.

No cais da Praça do Mercado não havia como fugir das atrações expostas nas barracas montadas.
Antes da saída do nosso barco de passeio, para conhecer a fortaleza de Suomenlinna e os arredores da baía de Helsinque, não havia como escapar da curiosidade. Necessário aproveitar os dias quentes do verão.


Não existe problema de câmbio; a Finlândia adotou o Euro como padrão monetário.
O hering defumado do Báltico ? savusilakka ?, o patê de urso, as misturas especiais com carne de rena, chamam a atenção e despertam o paladar e a curiosidade.

Para as mulheres, sem ideologia ecológica, temos artigos com pele de raposa prateadas. Não são capturadas nas florestas, mas sim criadas em fazendas especiais.

? Não é diferente da criação de coelhos ? afirmava a vendedora.
Biscoitos de centeio, doces da Karelia ? karjalanpiirakka ?, os chocolates Karl Fazer ficariam para depois da excursão.

Se a fome fosse a vencedora, enormes tachos aqueciam porções de peixe, de lula, tudo grelhado e misturado com batatas e vegetais. Estavam a nossa disposição.

Como lembrança: não esqueça os acessórios para a sauna. O esporte nacional: aromas, sabonetes e as ervas usadas no ritual ? saunavihta.

Como presente, para o amigo, que tal a faca característica da Suomilandia ? puukko, o nome estranho.
No Terminal Marítimo de Katajanokan, o nosso barco começa a se afastar. Ficavam no ar as recordações, as notas musicais do grande compositor finlandês Jean Sibelius.

Felipe Daiello

Autor de ”Palavras ao Vento’

Editora AGE