Enfrentando os tubarões . A cidadania engessada

Enfrentando tubarões III — A cidadania engessada.

As discussões estão presentes no cotidiano. A maioria silenciosa nem se dá conta. Para garantir a sobrevivência da família foge à luta. Enquanto alguns aplaudem, poucos têm a coragem de erguer os seus protestos. No Brasil estamos querendo criar o cidadão perfeito, o homem ideal. O imaginado por Voltaire e outros iluminados em séculos passados, agora, através da normalização dos detalhes das nossas vidas, é recriado por Brasília. Os exageros, o custo elevado e os resultados pouco práticos obtidos, não são contestados por ninguém.

Ao Mestre Guia tudo é permitido. A imprensa amiga delira, a propaganda aplaude, as verbas alocadas crescem, o desperdício aumenta.

Nossos legisladores em todos os níveis, mesmo em remotas câmaras de vereadores, estão apenas preocupados na promulgação de leis, na criação de órgãos normativos, no estabelecimento de entidades para controlar as atividades dos brasileiros, no aumento dos seus salários e subsídios.

Em defesa da liberdade, a primeira preocupação é a de eliminá-la. Cláusulas pétreas da Constituição são ignoradas. Tentativas de rasgar a Carta Magna, de reescrevê-la, é o primeiro passo do novo governador geral.

Qualquer assunto exige a formação de colegiado para em sessenta dias encontrar soluções mágicas. Discutir problemas e nunca as soluções é o mais importante.

As novas normas, confusas, plena de brechas legais, não seguem nem o vernáculo e nem os critérios mínimos exigidos pelo bom senso jurídico. A maioria é inexequível, pois os governos não dispõem dos recursos requeridos para a fiscalização. O objetivo não é o de serem obedecidas, mas de colocar o cidadão na posição de réu, de criminoso confesso. Assim será mais fácil o seu controle, o seu domínio.

Pelo condicionamento imposto, restará peça metálica, sem chances de pensar, elo perdido numa estrutura preparada para o “Estado Ideal”.

Agora é importante levantar na hora apropriada, colocar 1,0cm de pasta dental, movimentos horizontais alternados, leve rotações de 45° na escova. Cuidado em não ultrapassar 3 minutos, o mínimo exigido é de 60 segundos. Só depois é possível tomar o café da manhã. Absurdo?

Como robôs, não temos tempo para refletir, o único cuidado é de não infringir as normas e as cotas estabelecidas. A maioria das regras é enfiada goela-abaixo; não se pode reclamar. Tudo está proibido, as multas serão cada vez maiores, as penalidades não param de aumentar, bem como as taxas associadas para regular o ato irregular. O cerco está fechando João Teimoso.

O custo da fiscalização é crescente, cada vez mais agentes, a cor dos uniformes já tipifica o delito cometido: azul para o transito, verde para os crimes ecológicos, o vermelho para as infrações ideológicas, o branco ainda não foi usado.

E agora João Teimoso?

Para administrar o Estado, os órgãos governamentais exigem mais recursos e poder decisório. O resultado é trágico para a sociedade. Os aumentos dos encargos não param de crescer, enquanto os nossos direitos básicos quedam cerceados pelo excesso legislativo. Para manter a nossa liberdade e os nossos direitos somos obrigados a abdicar de ambos. Parece um contrassenso, mas basta recordar dois episódios recentes.

Desarmar o cidadão sem eliminar as armas dos bandidos é permitir que a nossa vida e propriedade fiquem apenas ao cuidado da Providência Superior. Os anjos da guarda estão com as horas-extras esgotadas, exaustos.

Nenhum marginal deixou de portar armas. Cada vez mais empregam artefatos modernos e de alto calibre.

A Lei Seca, correta na essência, pelo rigorismo da fiscalização, pelo exagero das penas, alterou procedimentos, hábitos e prazeres. A maioria cidadã não é infratora, possuindo responsabilidade para definir o seu limite. Os irresponsáveis, os alcoólatras, os viciados, não podem estar acima da lei. Para eles as duras penas da legislação.

— Acabaram com a minha diversão! O único prazer era assistir os jogos do meu time e tomar uma cerveja com amigos — lamento daquele torcedor padrão e cidadão exemplar — Aliás, eu não gosto de guaraná — prosseguiu sem muitas esperanças.

A massa cidadã não é criminosa e nem infratora habitual. Não podemos confundi-la com uma minoria delinquente. Para essa não adiantará condicionamento e freios, pois nunca terá limites.

Não seria mais prudente e adequado para a sociedade controlar o tráfego e o consumo de drogas pesadas como o crack? A nossa juventude está sendo destruída pela chegada de entorpecente barato, mas com efeito devastador para o cérebro. A maior parte dos pequenos e médios delitos está associada a esse flagelo. Morre-se por apenas alguns reais.

O abuso no consumo do álcool, não pode ser desconsiderado, no entanto, a propaganda, os festivais, exaltam e associam alegria ao prazer de beber. Os esforços devem ser dirigidos na contenção de excessos, principalmente entre os jovens, parcela da população mais atingida pelas fatalidades.

Muitos a favor do controle do álcool, com tolerância zero, são por outro lado favoráveis a descriminação do uso da maconha. Não é uma contradição?

E agora João Teimoso o que fazer?

Felipe Daiello

Autor de ‘As Minhas Ilhas’

Editora AGE