Homenagem ao meu pai. Cento e vinte anos na história

Conversa de rotina, perguntas inconsistentes, respostas vagas, vazias no conteúdo, mas no instante, menção vinda do fundo do baú de memórias, despertou lembranças, reacendeu informações antigas, palavras ouvidas na infância e recordações de algo querido que já se fora a tempo.

“A justiça é cega, mas tem faro! ”

Discussões sobre política, sobre decisões judiciais em altos níveis da nossa Republica, traziam frases, atitudes e decisões do meu pai.

Nascido no sul da Bahia, em Belmonte, filho de pescadores humildes, teria futuro incerto ou mesmo nenhuma possibilidade de sucesso se não fosse a sua decisão de alterar os dados da sorte.

Meu avó, pessoas simples, era conhecido no local como Mestre da Lua, meio místico, sabia interpretar e prever os fenômenos da natureza. Previa tempestades, a localização dos cardumes, o destino dos seus amigos; adaptando os humores da lua, aos acidentes dos habitantes da região.

Pelo esforço, pela persistência nos estudos, com apoio dos parentes que o adotaram, consegue chegar à Universidade de Salvador e obter o bacharelato em direito.

De toda a tribo foi o único a alcançar diploma superior.

Época difícil, O Brasil sofria efeitos da crise mundial, não havia bons ventos e augúrios adequados na Terra de Todos os Santos.

“Missa e maré se espera de pé. ”

Marujo, apelido carinhoso como era conhecido, na família, sabia que precisava vencer barreiras, ultrapassar fronteiras; ir para o sul do Brasil o seu destino.

Por descuido, perdera uma das conexões, por mar, em Ita tradicional da época , daí a razão de uma das suas frases, a pouco repetida.

– Não cometerei outro erro. Não pretendo voltar. – algo recolhido de frases familiares.

Na época, por falta de juízes, o Rio Grande do Sul, procurava candidatos a cargos essenciais à Justiça, mas que não eram bem remunerados e nem requisitados pelos advogados gaúchos.

– Nossos causídicos só se preocupavam com a política, com os tribunais, as oratórias e as grandes causas – os locais não tinham interesse na época, para as lidas burocráticas nos tribunais.

Muitos nortistas encontravam local propício para iniciar carreira, criar famílias e trazer novas sementes para o Rio Grande do Sul.

Como juiz, circulando pelas comarcas do interior, foi em Cruz Alta que conheceu jovem professora primária. Loura, olhos verdes,com Alda, minha mãe, iniciou uma ligação permanente até a sua morte.

– Ele era excelente dançarino. Um pé de valsa – ecos do passado custaram a desaparecer.

Foi seu segundo casamento, pois já possuía três filhos de uma primeira ligação. Meus irmãos, conhecidos mais tarde, tiveram projeção nas carreiras escolhidas. Medicina e Direito.

Em 1940, época da Constituição Polaca, quando Getúlio Vargas governava por decreto e interventores eram responsáveis pela administração dos Estados, meu pai teve que fugir para o Rio de Janeiro.

Foi época difícil, sem recursos, vivendo em pensões baratas ; o primeiro filho recém-nascido, dificuldades para a sobrevivência, nada para fraldas, para o talco essencial a pele da minha irmã Majane. Imagino o que a perseguição política causou para meus pais.

O ganho de uma causa, milagre que minha mãe repetia nas palavras, iniciou a recuperação.Oito de dezembro, dia da Nossa Senhora , sempre foi comemorado na casa.

Graças a amizade de Pedro Vergara, advogado influente, político com transito no Palácio do Catete, foi possível desfazer os enganos, os mal-entendidos e as mentiras levantadas contra a atuação de um juiz correto.

As decisões jurídicas de Maurílio Daiello, meu pai, tinham contrariado altos escalões.

– Ele não é inimigo do poder. Não tomou nenhuma atitude ou decisão ilegal – aos poucos as justificativas, os apoios, traziam à tona a verdade.

O tempo passava, as manchetes os jornais desaparecem no amarelo e no mofo dos meses; perdoado e desculpado, ele pode retornar e reassumir as suas funções como magistrado.

Levei muito tempo para entender a sua posição, permanente, contra o Getulismo, político que era apresentado como o pai dos pobres e protetor da Nação.

– Sua atuação ditatorial, com polícia secreta sob comando do famoso Felinto Müller, as proibições dos hinos regionais, a supressão das bandeiras dos Estados, bem como a implantação de regras trabalhistas com imagem do Fascismo de Mussolini, foram mensagem que guardo até hoje.

Desde pequeno, atento as suas prédicas durante as refeições, recebi lições de como ele procedia na análise e nas decisões que chegavam nos autos dos processos.

Como civilista,amigo de Pontes de Miranda, tinha caligrafia difícil de entender, muito do que deixou manuscrito só ele e Deus podem agora ler e compreender.

Era conhecido pela capacidade de dentro de milhares de páginas dos processos localizar o essencial, para a decisão que tinha que tomar.

-Como são burros esses advogados, tem a razão do direito, mas não sabem como colocar os argumentos adequados, os fatos essenciais à defesa dos seus clientes, deixam brechas que a parte contrária sabe explorar muito bem.

Numa época em que a magistratura não era reconhecida, vencimentos parcos, nossa vida não era fácil. Orçamento apertado, nada de mesadas; tínhamos direito a um par de sapatos por ano. Minha mãe, com melhor tino comercial, era a responsável pelas finanças, pelos pequenos negócios e pelos alugueis que ela obtinha pela administração do que recebera de herança.

Diplomata, paciente, Maurílio Daiello nunca fechava as portas para os advogados. Acessível, fazia amizades de modo rápido.

Alguns juristas, famosos no futuro, como Paulo Brossard e Antonio Pinheiro Machado, neto do famoso político, eram pessoas que traziam informações, conhecimentos de antigas revoluções, das sagas, das lutas entre Chimangos e Maragatos, até a nossa casa.

Como testemunha, meio camuflado, figura escondida, eu escutava histórias que ainda recordo. O importante era ficar ao lado, desapercebido das conversas entre os mais velhos.

Quando sobrava tempo, após o almoço, gostava de passear pela quadra, eu ia a reboque nas voltas em torno da Cândido Silveira, local de nossa última residência.

Mantinha velhas tradições, exigindo a tradicional “ benção meu pai “, quando acordava.

Nas refeições mais importantes, em dias festivos, sempre a política era algo em destaque. Instante em que recebia lições de civismo, de cultura e de análises partidárias.

Calmo por temperamento, com grande capacidade de trabalho, mantinha biblioteca onde os temas jurídicos ocupavam quase todas as prateleiras.

Após a sua morte, vasculhando o que deixara, dei-me conta de sua imensa cultura. Livros em francês, em italiano, em espanhol, inclusive obras clássicas, algumas centenárias, onde as observações efetuadas nas margens, apresentavam características de personagem que eu desconhecia. Muitos exemplares, importantes pela edição, pela raridade, fazem parte do meu acervo.

– Quem vai nos proteger da justiça? – Era a frase emitida quando as violências do Poder Judiciário encontravam apoio na magistratura não muito sólida.

Muitos fatos eu descobri mais tarde, pois ele não era aberto a diálogos que considerava inúteis.

– Em São Borja, por contrariar interesses locais, da família Dornelles, como era juiz eleitoral, teve que se esconder num cofre, quando o tribunal local foi alvo de tiros de advertência – fato que não pude comprovar na integra, mas que reforça o seu repudio à Ditadura de Getúlio Vargas.

Foto antiga que apresentava o nosso ditador, fumando o seu tradicional charuto, apresenta, meu pai em atitudes distantes, desligado, não subserviente e bajulador como os demais da cena. Está no meu arquivo.

“ Quem tem medo do lobisomem? ” Livro que trata de questões jurídicas no Rio Grande do Sul, apresenta capítulo sobre processo e decisão de herança famosa, onde o interesse era político e tendencioso. Por sugestão do Governador, à época, jantar de confraternização foi marcado para melhorar o relacionamento com os desembargadores. Devido ao caráter eminentemente partidário, apenas dois desembargadores declinaram do convite. O desembargador Daiello, meu pai, foi uma das exceções. Homem de princípios.

Por compulsória, aos 70 anos, teve a sua carreira de magistrado interrompida; mesmo contra a vontade teve que parar.

As tentativas de lecionar ou mesmo de trabalhar como advogado não prosperaram, pois fugiam da sua vocação de vida.

A magistratura, o Direito Civil, eram a razão de toda a sua existência.

Meu pai, apesar de manter contato com suas raízes baianas, ajudando monetariamente parentes mais pobres da família, nunca cultivou as crenças africanas. Ao contrário, não dava nenhuma importância aos ritos, símbolos e deuses do axé.

– Culturas que não usam a escrita para perpetuar as suas informações, não tem nada de importante para transmitir para o futuro – suas palavras.

Mesmo não sendo católico fervoroso, adorava as missas festivas. Mesmo a contra gosto, eu era obrigado a assistir as longas celebrações, o cheiro do incenso, os ditos em latim, o órgão, as cantigas do coro e o luxo nos paramentos sacerdotais eram o chamariz.

Pelo hábito ou não, além das óperas, outra das suas predileções, também desenvolvi o mesmo gosto. Principalmente quando nas catedrais góticas da Europa, como em Notre Dame, em Paris,posso assistir ritos solenes.

Cresci tendo ele como modelo em tudo, principalmente na retidão de sua atuação como juiz, nas decisões que tomava, após longos estudos, no amor pelos livros, pela literatura e dos personagens infantis que aterrorizavam as crianças desobedientes.

“Cuidado com o Bicho Manjaleu! Ele vem atrás dos desobedientes. ”

Na idade em que as namoradinhas eram olhadas por outros lados, ele não era de falar muito.

“De noite todas as gatas são pardas”. – bom conselho.

Vendo seu retrato, relíquia que guardo no meu escritório, oportunidade em que dava seu último despacho; questão complicada sobre o Município de Tramandaí, é de onde, às vezes, de modo automática eu olho pedindo apoio em alguma questão complicada.

Maurílio Alves Daiello, de longe, parece sempre capaz de indicar o caminho adequado nas decisões de cada dia, de cada caso, de cada problema.

“ Se não tens provas, não esgotes esforços em encontra-las. ”

– O processo judiciário segue normas escritas – complementava.

Apenas, mais tarde eu poderia fazer alguns reparos às suas observações, pois eu já sabia que no escuro, as gatas têm cheiros diferentes e usam artimanhas distintas em cada noite.

Olhando os anais, verificando o ano de seu nascimento, 1898, apesar das controvérsias sobre o registro, fica claro que o nome Daiello, por muito tempo vai aparecer o meio jurídico. Muitos dos seus descendentes continuam a trilha por ele iniciada.

Apesar de ter seguido a engenharia, muitos dos seus ensinamentos formataram e ajudaram no sucesso da carreira que escolhi. Tive um grande mestre e pai, personagem que deixou lições que preciso transmitir. Obrigado, desembargador Maurílio Alves Daiello, nome que foi legado para a posteridade na denominação de praça na zona sul de Pôrto Alegre.

Sucuris no Mato? Cuidado!

Sucuri! Sucuri! – as palavras como sinal de alarme, detiveram os passos da equipe.

Aprendera com o tempo, com o convívio diário, durante a execução dos trabalhos, dos quais eu estava encarregado, a dar atenção às observações daquele funcionário.

Contratado como auxiliar de topógrafo, Caabaté, também conhecido como Carijó, mestiço típico da região, possuía no seu sangue o DNA da floresta.

– Gaúcho! Não precisa pressa, iremos cumprir a meta, não há necessidade de acelerar o que a natureza tem tempo ajustado para concretizar – ele sempre dizia que são necessários 9 meses para a humanidade continuar avançando.

Mirrado no físico, pele escura no tom azeitona, sabe-se lá como conseguira estudar e obter as qualificações que o tomavam a minha mão direita nas decisões, quando no campo era essencial corrigir os dados de relatórios e de mapas imprecisos.

Sabia como ninguém localizar os veios de água no solo, descobrir os depósitos de argila e os materiais imprescindíveis à construção de futuras barragens e de açudes.

No alto do Tocantins, com financiamento do BID – Banco de Desenvolvimento Internacional, eu fora contratado para supervisionar os trabalhos de planejamento e de projetos.

Difícil a administração de pessoal acostumado à liberdade total, sem necessidade ou obrigações que os vindos do Sul já possuem.

– Sai da rede, o relaxado! Temos muito para concretizar. Nosso cronograma está atrasado – as imprecações não traziam muito resultado.

Para aquele irresponsável, o mais importante era a fuga que ele empreendia atrás das mulheres. Usando tangas lá estava, o objetivo do dia.

– Elas querem atenção! Minha missão é trazer a requerida felicidade.

Pelo visto era conhecido em todos os barracos e nas vilas pobres da região; era personagem reconhecido e mesmo temido por muitos.

-Sei usar, muito bem o meu facão – era argumento que utilizava muito bem nas palavras e nos atos.

Aos poucos eu entendia o comportamento de alma tão simples, tanto nas falas como nas atitudes.

– As sucuris, após captura da sua presa, entram em estado de hibernação enquanto digerem a sua refeição. Pelos gases, putrefatos que exalam, eu posso perceber a sua presença, mesmo que elas estejam escondidas na mata ou nas beiras dos alagados.

– Para dar o bote, violência de quilos de energia projetadas para frente, elas prescindem de apoio, de onde lançam ataque mortal.

Mesmo no trabalho exaustivo, sempre havia lições para aprender daquele índio.

Quando varas de porcos selvagens surgiam no inesperado; outro perigo comum para os forasteiros, ele já vinha logo com a orientação.

– Eles são daltônicos, não reconhecem as cores. O correto é ficar imóvel.

Ouvindo o ruído das queixadas, quando o bater as suas presas ,encurvadas, deixava os nervos à flor da pele, no final, o melhor era escolher a árvore mais alta e ficar quieto, lá em cima, enquanto o perigo persistisse.

-Os “quéqués”, como nos chamávamos, são manhosos e agem no coletivo; se abatermos um do grupo, eles cercam o inimigo até liquidá-lo. – Carijó era um dos mais ágeis na escalada salvadora.

Em todo caso, a carne, mesmo dura, era boa prova se acompanhada da mandioca local, usando o método tradicional, fogo lento no cozimento , obtínha-se sabor de dar água na boca.

Na rotina do trabalho, a segunda-feira era ponto crítico; após final de semana movimentado, o mais difícil era encontrar aquele rebelde e depois colocá-lo no serviço.

O pior de tudo, é que ele carregava os novatos para os bailes e fuzarcas nas vilas da proximidade.

– Vamos lá Carijó; depois de um bom café, estarás em forma – maneira de despertá-lo para o trabalho, depois de tirá-lo da rede.

As pragas, as maldições, evocadas em língua que eu não entendia, no todo mostravam que ele iria, mas o ritmo do trabalho não seria o meu, o exigido.

-Gaúcho! Gaúcho! Vai com calma – eram palavras que mostravam que ele estava saindo da sua esbórnia semanal programada.

Vladimir, um dos auxiliares, de origem polonesa, vindo lá do Paraná, da região das cataratas , cabelo avermelhado e pele clara, caia nas suas brincadeiras. Ingênuo, trabalhador consciente, estava pronto para agir no primeiro comando. Era o contrário do meu auxiliar das selvas. O avesso do Carijó.

Incansável, efetuando as anotações de campo, sempre apresentava os relatórios exigidos no dia seguinte. Com vários Vladimir a minha tarefa seria mais fácil. O problema é que eles eram raros e não suportavam os rigores do clima e da região.

Nos deslocamentos pelo rio, até base de apoio, nossa canoa motorizada, deslizando pelos braços dos igarapés, além de paraísos intocáveis, ia sinalizando possíveis locais de pesca.

Na pescaria, a opinião de Carijó era logo requisitada.

– Qual o melhor ponto para lançar a isca? O que vamos capturar? Onde as piranhas possuem santuário?

Aquele pacu, grelhado nas brasas, ainda fresco, era o prêmio para recuperar energia e vencer a fome do dia.

– Vejam os jacarés! Parecem estátuas na beira da praia. Com sangue frio, precisam de pré-aquecimento para iniciar a sua movimentação diária. São vulneráveis enquanto o seu sangue não atinge a temperatura de explosão. As sucuris aproveitam esse momento para ataques inesperados e abraços mortais, envolvente no depois – Carijó já mostrava, visão privilegiada para a distância e para o que não víamos, o que resultaria daquele encontro ainda escondido.

-A pressão do seu corpo esmaga toda a estrutura óssea da vítima. Quem cai na armadilha tem morte horrível, lenta, opressora – ele explicava que o melhor era não ficar ao alcance da senhora oculta da floresta.

-Sucuri! Sucuri! – quando escutávamos o seu aviso, logo o desvio da trilha era a única solução.

Vladimir, pelo tipo físico, desconhecedor dos ritos da floresta, estava sempre atraindo problemas. Além das queimaduras, do ataque dos mosquitos, numa das nossas pescarias, quase acabou como alimento para uma sucuri faminta.

-Ele pedira para participar de uma das nossas decantadas pescarias. Chegando na entrada do igarapé, de modo brusco, ergueu-se de súbito, o que provocou o movimento desbalanceado na nossa voadora; vendo o perigo, de imediato, reduzi a velocidade do motor, algo instintivo no instante.

Na sequência, do fundo do rio o bote veio certeiro; a cabeça do mostro atingiu o peito de Vladimir.

A sucuri não é venenosa, mas suas presas causam lacerações terríveis e devido ao caldo bacteriano das suas mucosas e da própria saliva, a infecção resultante, não combatida rápida, pode causar a morte do infeliz, não pelo meio natural da própria floresta.

Com o impacto, Vladimir, já desequilibrado, foi jogado para o outro lado do barco, para a água. Não emitiu nenhum som, nada. Nenhum pedido de socorro. Mudo total.

Nossa reação foi imediata, o índio já estava na água procurando salvar Vladimir, paralisado, da morte certa por afogamento, enquanto eu, acelerando o motor, procurava retornar ao local do incidente, procurando colocar obstáculo entre a fera e os meus dois amigos.

Nossa atuação, rápida, retirou um branco total das águas barrentas. Vladimir estava petrificado, olhos imensos na surpresa e no consciente que já conhecia das nossas palavras: Sucuri para ele era sinônimo de demônio.

Enquanto Carijó, o nosso guia índio, ria de modo silencioso e sardônico, era preciso retornar.

Além de uma boa bebida para recuperar o fantasma de Vladimir, por precaução, além dos curativos das escoriações e dos arranhões, possivelmente seria necessário, além da aplicação de antibióticos, deixar nosso paciente em observação na enfermaria. Alguns comprimidos, calmantes, poderiam ajudar na recuperação.

O interessante é que Vladimir estava mudo, nenhum som emitido, fora da realidade, ausente do drama onde fora o ator coadjuvante. Olhos esbugalhados.

Na manhã seguinte, após uma noite, onde as gargalhadas, os relatos de Carijó ocuparam horas até a madrugada, a surpresa maior.

Vladimir desaparecera, não levara quase nada, não deixara nenhuma nota.

– De manhã cedo, olhar perdido, mirando para trás, a procura de algo desconhecido, pegou a primeira condução que ia para a vila – testemunha desconhecida, palavras perdidas, fora o que Vladimir deixara no acampamento:

– Sucuri! Sucuri!

Aqaba de Lawrence da Arábia. Jordânia

Os episódios do filme Lawrence das Arábias, ganhador de Oscar, com atuação brilhante de Peter O’Toole, tiveram origem em Aqaba, porto e abertura para o Mar Vermelho da Jordânia. Aqui, em 1916, começou a rebelião dos árabes contra o Império Otomano, aliado dos alemães na 1ª Guerra Mundial.

Thomas Edward Lawrence, jovem tenente do Exército Britânico, apaixonado pelo estilo de vida dos beduínos e amante dos desertos, vestido como os nativos e falando o árabe, é elo de ligação com os rebeldes árabes. Seu livro autobiográfico ” Sete Pilares da Sabedoria “ serve de roteiro para o filme épico de Hollywood. Ascetismo, abstinência ao álcool, culto ao trabalho, recusa à sensualidade, controle espartano, são características de jovem que adorava as artes orientais e a arqueologia. A formação puritana e calvinista da mãe o marca para sempre.

Bandeira gigante, em mastro de 137 metros, sinaliza em Aqaba o evento, o início das lutas; Hussein Bin Ali, ancestral do atual Rei Abdulah foi um dos líderes da revolta. Apesar de o filme ter sido rodado a sua maior parte na Espanha, a cena do ataque ao trem, bitola estreita, ainda pode ser vista nos desertos de Aqaba, pois as antigas locomotivas ainda circulam pela região.

Citada na Bíblia, várias vezes, Aqaba recorda as expedições do Rei Salomão e os episódios da Rainha de Sabá. As expedições para a África partiam desse porto. Herodes, o famoso degolador de crianças, fazia tratamentos detox nas fontes termais da região. O Mar Morto, com seus resortes de luxo está perto. Com mais de 33% de salinidade é fácil a flutuação, mas a alcalinidade corrói tudo. Banhos de lama são recomendados, mas não exagere nas doses. As fotos ficam escuras.

Segundo os relatos e antigos vestígios, a Sagrada Família, na sua escapada para terras do Egito, fugindo de massacre determinado por Herodes, passou pela região. O caminho dos Reis era a única rota .

Antigo trajeto na famosa Rota das Sedas, agora é roteiro turístico mundial. Único porto da Jordânia, Aqaba permite fácil acesso para Petra e seus mistérios, mas principalmente para visitas submarinas aos jardins de Alá. Famosa pelos corais, através de golfo, chegamos às praias do Mar Vermelho e a um mundo submarino que deslumbrou Jacques Cousteau. Sharm El Sheik, no Egito e Eilat em Israel estão bem perto. O problema são os controles de fronteira. A segurança de Israel vem em primeiro plano.

Como porto livre oferece boas compras para os turistas; além das tradicionais grifes em roupas, camisas de algodão egípcio, perfumes, bolsas e semijoias com pedras locais são pechinchas interessantes. Nos mercados locais, as especiarias vindas de longe possuem preços mais do que atrativos. Momento de repor os estoques de noz moscada, de pimentas, de cardomano, de cominho e gengibre. Não esqueça os óleos aromáticos e as loções para massagens rejuvenescedoras. Misturas mágicas, poções milagrosas, efeitos para mil e uma noites de prazeres e de felicidades.

A cidade, branca, moderna, possui vida noturna agitada, caleches iluminadas varam as noites, com vozes alegres e barulhentas no comando ou como acompanhantes. Palmeiras enfeitam as avenidas e as praias. O calor do verão fica amenizado pelos ventos agradáveis vindos do golfo. Protetor solar é imprescindível, além de um bom e extenso chapéu.

Nos finais de tarde, ou bem cedo, pela madrugada, o balonismo é atração, ou então vencido pela curiosidade de explorador, saía em busca de ruínas bíblicas da época dos romanos, dos bizantinos, dos cruzados e mesmo do período de Saladino. É preciso rever o filme; Wade Rum, parque nacional foi outro cenário usado no épico “Lawrence da Arábia “

Peter O’Toole, Omar Sharif e Alec Guiness, em filme de David Lean, de 1962, apresentam o herói da luta de libertação dos árabes do jugo do Império Otomano.

A revolta iniciou-se no porto de Aqaba. Algumas passagens foram filmadas em Wade Rum, o deserto vermelho; a famosa cena do trem foi realizada em ferrovia ainda existente.

Passeios em 4×4 nos levam para desertos, para locais de antigas batalhas, para os penhascos avermelhados de Wade Rum, para encontro com a cultura beduína; pernoite em acampamentos, em tendas.Aprecie o Zarb, prato típico, onde o cabrito, o cordeiro e mesmo galinhas são cozidos lentamente, tendo batatas e legumes como acompanhamento; é a pedida. O resultado do fogo amigo é uma carne crocante na superfície e suculenta no interior. Depois o ritual do café, tradição beduína, começando pelo moer dos grãos num alquidar, depois a mistura com o cardomono, a seguir o fogo das brasas e na tradicional chaleira com bico longo, a infusão é servida numa pequena taça sem alças. Existem regras para parar a cortesia, sem isso o café será servido até a meia-noite. Evite a saturação da cafeína, agitando a taça quando estiver satisfeito. É a regra social, a defesa do turista.

Os antigos beduínos, com suas tendas na cor escura, negra, proteção com lã de carneiro, imensas na longitude, estão abandonando a vida nômade, deslocam-se para terras próximas das cidades. Asfalto, a falta de água, a aridez das terras são razões do atual deslocamento. Atualmente, reservatórios com 20.000 litros, abastecidos no mês, mantém a subsistência dos rebanhos e dos seus pastores nos pontos distantes. Plantações avulsas de trigo rústico ajudam na alimentação proporcionada pela rala grama e pelos arbustos raquíticos do deserto.

– Havendo água o deserto produz – afirma o nosso guia, mostrando as plantações de tomates ao longo da autoestrada. -Boa parte da produção das hortaliças é vendida para Síria e Iraque, mas as atuais guerras locais, os fanáticos do ISIS, estão aniquilando o comércio e o turismo – concluí com ar de tristeza.

Patrocínios:

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As Rodas da Fortuna – Espiral da Eternidade

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Rodas do futuro

Importante escrever: o caminho não foi trilhado; vejo horizontes onde ainda não tive permissão para entrar. Sou persistente, não tenho medo de desafios, é preciso avançar.

Rodas da vida, amigas e companheiras, são furtivas no passar. Lentas no início, jornada inexorável, aceleram aos poucos, deixando fendas, cicatrizes, conhecimentos, certezas e tantas dúvidas. Sucesso não é igual para todos.

Os anos, para os mortais, não são nada, comparando ao Cosmos, com a eternidade.

Para escapar da prisão, descobrir possibilidades, encontrar a saída; após o conhecimento dos limites da nossa ilha, é hora de enfrentar o desconhecido oceano. Predadores e tubarões na espreita.

As ondas que esmorecem nas praias trazem mensagens de longe. Os ventos são novos parceiros; intriguentos, contam novidades, acenam com futuros impossíveis, desconhecidos.

Teremos coragem? Primavera, verão, outono e inverno. Como as estações, as rodas da vida não param. Quantos, por medo ou comodismo, aceitam existência medíocre, rotineira. Nunca irão encontrar outras ilhas, outros povos, novas línguas, novos desafios e mesmo a prometida fortuna.

São irmãos carecedores de apoio; ouvem mas não escutam, sonham mas não realizam. Demandam estímulos, a presença de líderes. Folhas esparsas ao vento, oscilam sem sair do lugar. Precisam de apoio e de orientação. Iniciar a sua revolução é a primeira etapa.

Somos energia. Por isso é necessário o equilíbrio da energia do nosso corpo, da nossa casa e do nosso espírito. Mentalizar o futuro e esquecer o passado, sem deletá-lo.

Passado é apenas um degrau na escada da vida. Olhe apenas o último degrau à sua frente; quando o alcançares verás que existe outro, lá longe, no infinito. E o infinito, quando atingido, será outra porta para bater e entrar.

A espiral da eternidade avança com a decisão dos corajosos, dos persistentes e dos vitoriosos.

Cada elo une-se à corrente que não tem final; cada sacrifício, cada decisão, cada vitória torna mais forte o conjunto.

É importante acompanhar os ciclos, adaptar-se à velocidade do trajeto, com cuidado para não ser esmagado quando entrar em rota de colisão.

Não há perdão para os desatentos, os descuidados e os ignorantes. Outros aproveitarão os nossos descuidos e os nossos erros. A história, os fatos mostram que os vencedores no hoje serão os esquecidos no amanhã.

O império espanhol, onde o sol nunca se punha, com os melhores exércitos, com as toneladas de prata das Minas de Potosi, se apaga no início do século XVII. Incompetência, decisões políticas inadequadas, bancarrotas proporcionam o surgimento de outras bandeiras, de novas línguas e de novas raças. AsRodas da Fortunaservem para novos senhores.

Os Supreendentes Contos Históricos de Felipe Daiello

Os Supreendentes Contos Históricos de Felipe Daiello.

Armindo Trevisan.

O novo livro de Daiello produz inicialmente no leitor uma impressão de aventura literária.

Como abranger, num único livro, séculos de história, uma evolução que parte dos homens de Uruk, na Suméria, e de Ramsés II do Egito, passa por Ricardo Coração de Leão e Marco Polo, detém-se em Cosimo, Il Vecchio, de Florença, ocupa-se de Francisco Xavier, e – neste primeiro volume – deságua no jesuíta-cientista Matteo Ricci, na China, que deixou pasmados seus mandarins?

Pasme, por sua vez, o leitor perante a complexa e infindável cadeia de destinos humanos, que o aguarda-nas páginas de ficção de Daiello.

O contista não “distorce” os fatos. Prefere envolvê-los numa aura que, desde Guimarães Rosa, passou a chamar-se estória, uma interpretação bem estruturada, livre e imaginosa dos fatos dos passado.

Surpreende-nos, por isso, o número de episódios incontestavelmente históricos que o autor costura em As Rodas da Fortuna, obra inclassificável como gênero literário, se consideramos o peso de sua informação cultural, e as malícias de sua trama ficcional.

Para entender Daiello,convém levar em consideração um fato: nas últimas décadas do século passado, surgiu um novo tipo de ficção que entrelaça textos ficcionais a detalhes turísticos, receitas culinárias a noções estéticas, dados locais a meditações filosóficas. Tais fatos são acompanhados por molhos e condimentos emotivos, que cativam o leitor.

Estamos, sem dúvida, diante de uma nova modalidade de literatura, a literatura que monta num cavalinho de pau, e viaja pelos territórios do coração, da mente, e da simples estesia.

Daiello pratica tal literatura. Não cansa o leitor, porque é culto, imprevisível, e inventivo. Por outro lado, não aporrinha ninguém com lições de oculta sabedoria.

O curioso é que, ao longo de tais “ficciones”, o autor ministra-nos algumas dessas lições. Mas as ministra sem pedantice, preferindo que por ele falem seus personagens.

Nosso texto não pretende ser uma análise crítica da obra de Daiello. É, apenas, uma apresentação.

Ousamos, pois, concluir: a história, cujos lances Daiello faz reviver com seus episódios, escritos num estilo comunicativo e ágil, acaba convertendo-se em amável convite para percorrer léguas e léguas da História em si, como as poderia percorrer um turista com sensibilidade aos aspectos das paisagens, aos mil e um incidentes da jornada, e até, aos sortilégios das Mil e uma Noites do Oriente.

Em tais andanças, sempre é possível topar com uma Semíramis, flexuosa e bela, de lábios vermelhos como os morangos silvestres de Bergman, e de cabelos perfumados como os das Marias Madalenas de todos os tempos.

Lembrete final: Flaubert interessou-se, igualmente, por esse tipo de ficção. Alguns leitores terão lido seu romance Salammbô, cuja protagonista era filha do herói cartaginês Hamilcar, e sacerdotisa de Tanit. Evoco Flaubert para lembrar que Daiello buscou inspiração numa fonte comum.

O autor gaúcho não tem a pretensão de comparar-se ao clássico francês. Identifica-se, isto sim, até certo ponto, com o móvel da ficção de Flaubert, o qual que escreveu a respeito de seu romance:

Cansado como estou dos feios e vulgares círculos que freqüento, irei, durante algum tempo, viver um tema esplêndido longe do mundo moderno…”

Quando o autor possui talento, ele pode acercar-nos do prazer que Jorge Luis Borges considerava um dos maiores deste mundo: a leitura.