Dubrovnik – A pérola do Adriático


Nosso primeiro contato foi pela televisão. Assisti ao bombardeio por ar, por mar e por terra efetuado em 1991 pelas forças sérvias e montenegrinas. Com o esfacelamento da Yugoslávia, as antigas repúblicas procuravam autonomia. Começava a tragédia. Foi amor a primeira vista. No sul da Croácia, encontramos a maior, a mais conservada fortaleza medieval do Adriático e mesmo da Europa. Cidade portuária, com a vinda de refugiados em 614 d.C. escapando de Cavtat, antiga colônia romana destruída pelo ataque de povos eslavos, começou a expansão. Com o nome de Ragusa era cidade livre, ativa no comércio marítimo, até o poder de Veneza, em 1205, sobrepujá-la. Com o apoio de Bizâncio, foram erguidos os primeiros muros, necessários na defesa contra ataques dos turco-otomanos que pilhavam a região.


Com clima ameno, mediterrâneo, as laranjeiras em flor aparecem. Os carvalhos, ”dubrava” em croata, talvez tenham originado o nome da cidade. Dentro das muralhas, protetoras do porto, as igrejas mostram a influência de Bizâncio. Os croatas, no entanto, são católicos romanos. As pinturas, os murais como devoção a Nossa Senhora e a Jesus Cristo, magníficas pelas cores, prescindem à ida aos museus; a visita é gratuita. Tenha tempo para apreciar as pinturas; as cores que surgem nos antigos quadros dos pintores locais são inesquecíveis. Durante o cerco, mais de dois mil projeteis e bombas atingiram a cidade-fortaleza, todos os telhados sofreram avarias. A dificuldade posterior foi a fabricação de telhas com as características e dimensões originais. Com poucas armas, jovens suportaram e venceram o
assedio. Mesmo após as tréguas e a independência, ainda ocorreram ataques. A Sérvia nunca desistia.
O interessante, hoje, após as restaurações das fortificações, no modelo típico do século XV, é circular pelo perímetro das muralhas, passeando por torres e ameias, por passadios que alcançam mais de 25 metros. Do alto visualizamos as ruas estreitas, igrejas, palácios, fortes e telhados em cores surpreendentes. O lado do mar, junto ao porto, apresenta detalhes que destacam o azul das águas contra as rochas da fortaleza. A noite, com iluminação artificial as pedras das muralhas ganham vida e cortam histórias desde os romanos, turcos, bizantinos, venezianos, de Napoleão e mesmo do Império Austro-Húngaro. Hoje, o turismo floresce novamente e todas as línguas são ouvidas em Dubrovnik. É interessante a visita a Sinagoga de Zidovski. Escondida numa ruela, protegida por residência junto ao primeiro piso, sobreviveu a mais de 200 anos de perseguições. O museu anexo apresenta uma coleção de objetos do culto judaico que vale a pena apreciar. Foi Napoleão quem concedeu, pela primeira vez, liberdade política e religiosa à comunidade.


O tesouro da Catedral é imponente e no monastério franciscano do século XIV a exposição de quadros é imperdível. As fortificações da fortaleza recordam Carcassone, na França, apenas aquelas são do século XIII, onde a madeira predominava. Passeios de barco, passando pelas ilhas de Lausa e Ragusa, nos levam a mergulhos azuis e até mesmo à antiga cidade de Cavtat, hoje, um simples porto onde se aprecia o excelente vinho branco de Mendek.

Ali moças em roupas típicas, coloridas, dançam para os turistas. Ferrys ligam Dubrovnik, às ilhas próximas, a Split e até Bari na Itália. Ponte moderna, magnífica, permite descortinar o novo porto, onde navios de cruzeiro despejam centenas de turistas. Ao longe, no bairro de Lakud, hotéis de luxo oferecem o conforto e o prazer de paisagens exclusivas: surgem ilhas verdes, parques naturais, velas coloridas, além dos barcos dos pescadores. Dubrovnik nos envolve, cativa e convida a retornar. A culinária é simples, predominam sopas de fungos, guisados, peixes e pratos da cozinha italiana. É só escolher o vinho local, eles surpreendem.

Felipe Daiello
Autor de “Palavras ao Vento”
Editora AGE

Berlim – Uma tarde no museu

Uma tarde no Museu


Berlim é uma cidade de surpresas e contrastes. É difícil em poucas linhas descrever suas belezas ocultas. Como simbolismo da separação de anos, da existência de duas Alemanhas, os resquícios do Muro de Berlim merecem atenção e fotos. O Checkpoint Charlie, local oficial de intercâmbios e comunicações ficou famoso em películas e romances de espionagem. O Portal de Brandemburgo, representação do orgulho e do poder prussiano sobre os franceses, erguido a partir de 1789, é o monumento símbolo de Berlim. A quadriga, biga puxada por quatro cavalos e conduzida pela Deusa Grega da Paz, Eirene, coroa o monumento. A obra, roubada por Napoleão, esteve em Paris. Só retorna após a derrota do Imperador Corso e passa a representar monumento de vitória da Prússia contra a França. Os soviéticos durante a ocupação de Berlim mudaram a posição original da quadriga.


A nova cúpula do Reichstag, ao lado, restabelece o poder político da antiga e da nova capital. Cheia de parques e jardins, longas avenidas cruzam uma cidade verde. Kurfurstendamm é a rua das lojas e onde encontramos os restos calcinados da Catedral Kaiser William, antigo mausoléu dos reis da Prússia. Agora, suas ruínas recordam as tragédias da última guerra. Em frente, encontramos o Tiergarten, famoso zoológico que merece a nossa atenção. Não esqueça o urso panda. Da antiga sede da Gestapo, sobraram apenas as células de detenção no subsolo e cartazes que apresentam uma face escura do nazismo. O memorial do holocausto com 2.721 blocos de concreto recorda a política de extermínio implantada desde 1933 até 1945. Os passos seguem pela Praça Potsdamer, o Deutscher Dom, o Centro Sony, pela Avenida Unter den Linden e seus cafés até a Catedral de Berlim.


Mas, para uma tarde de domingo, quando as lojas estão fechadas, nada melhor do que após passar por feiras de artesões ao longo dos canais do rio Spree, escolher “aquele” museu, para uma jornada inesquecível. E tem pessoas que detestam e fogem de museus!



O Museu Pérgamo foi o escolhido. Uma exposição sobre a Babilônia era a atração. Vindos do Museu Britânico, do Louvre e do próprio Pérgamo, uma mostra provisória tentava contar a verdade sobre uma civilização amaldiçoada pelos relatos bíblicos. As portas do templo de Ishtar e a reprodução do caminho procissional não têm paralelo no mundo. Os painéis em azulejos coloridos reproduzem leões reais e os místicos dragões da Mesopotâmia- o símbolo de Marduk, o deus bíblico. Os artefatos, os utensílios de uso individual, os cones com inscrições estranhas, mas agora compreensíveis, se perfilam com estátuas de deuses, armas e relíquias. Uma coleção de livros árabes permite o acesso a histórias quase perdidas e relembram a sagas de gigantes que ainda dominam o nosso imaginário. Os jardins suspensos da Babilônia estão presentes.


Depois da surpresa inicial, que tal subir pelos degraus do templo de Zeus, reprodução fiel do templo que existia em Pergamo na Turquia: os cientistas alemães conseguiram a proeza de desviar antigas relíquias e efetuar uma montagem fabulosa. É o que se chama de roubo histórico defensável. A porta do antigo mercado de Mileto — antiga Grécia — é outra alternativa. Poucas horas naquela tarde em Berlim, valeram a pena e o cansaço.

Felipe Daiello Autor de “As Minhas Ilhas” Editora AGE

Manta. Porto de entrada para o Equador.

Segundo porto do país, Manta abriga a maior parte dos navios que pescam atuns pelas profundezas do Oceano Pacífico. A visão litorânea é bem distinta da encontrada no altiplano e nos Andes. O Equador, pequena extensão, surpreende o turista pela diversidade das paisagens. No entanto, a circulação pelas estradas é difícil, lenta e perigosa. A mais de 3.500 metros, pela Avenida dos Vulcões, trecho de viagem pela Panamericana descrito no livro “As Minhas Ilhas”, a surpresa e o pavor se encontram.

A Base Aérea Americana implantada para combater o narcotráfico, agora coloca Manta nos cabeçalhos dos jornais. A nova Constituição do Equador proíbe a existência de instalações militares estrangeiras. O dólar americano, devido a instabilidade política e econômica, foi adotado, como padrão monetário. Solução para acabar com a inflação.

Para o viajante é vantagem, pois não precisamos fazer câmbio, e, na hora de negociar, fica mais fácil. As jóias de prata utilizando as faces polidas das conchas retiradas das águas locais refletem brilhos e matizes difíceis de descrever. Há milhares de anos, era o padrão monetário utilizado para alavancar o comércio entre as populações indígenas, dispersas pela Costa do Pacífico. Spondylus é o nome da concha, que o artesão corta, dá polimento e confecciona jóias. Preciosidades vindas do mar.

Em 135 anos de democracia, o Equador teve mais de 18 constituições e ultrapassa 64 presidentes. Em certa oportunidade chegou a ter, simultaneamente, 4 autoridades para o posto mandatário.

Em Monte Cristo e arredores, perto de Manta, encontramos unidades familiares fabricando os famosos chapéus de palha. Na construção do Canal do Panamá, foram usados para proteção dos trabalhadores; por esta razão, mesmo fabricados no Equador, são conhecidos pela denominação de “Chapéus Panamás”. Dependendo da flexibilidade, da qualidade da fibra, paga-se de 10 a 100 dólares por unidade. Em média um bom chapéu leva 30 dias para a sua confecção.

Utilizando a semente de palmeira, o artesanato local apresenta o ecológico marfim vegetal. A “Tágua” é produzida apenas pela planta feminina, quarenta anos são necessários para a produção das sementes. Com dureza na escala quatro e com bom índice de reflexão consegue-se excelentes miniaturas de elefantes, pássaros e até botões. Se não fosse o peso, poder-se-ia enganar o turista, parece marfim verdadeiro.

A cidade com 250.000 habitantes, no todo é pobre. As praias: Murcielago, Barbadilhos são simples; os restaurantes razoáveis e os pratos com frutos do mar salvam o dia. Casas de 1 ou 2 pisos, alguns edifícios, poucos hotéis e mais nada. No terminal portuário não há mecanização para o manuseio dos contêineres e nem instalações petrolíferas de porte.

Equador, nação pobre, há mais de 10.000 anos, no entanto, era o polo de desenvolvimento da região.

As visitas aos museus locais permitirão, em outro artigo, descrever o desenvolvimento cultural alcançado pelos povos da cultura Las Vegas. O Equador foi centro avançado da civilização pré-incas. As raízes ainda estão vivas.

Felipe Daiello

Autor de ‘As Minhas Ilhas’

Editora AGE